domingo, 12 de maio de 2013

Xícara

me desculpe, me desculpe, mas se seu café é pouco, se falta leite, açúcar, afeto... não comece a servir minha xícara. 
realmente me desculpe, mas se você não pode transbordar, não comece a me servir. não me deixe na angústia de presenciar minha xícara pela metade, de ver o borro de café -que naturalmente fica no fundo do vaso- se depositar na minha xícara meio vazia. não se permita curvar o vaso em sua totalidade como quem busca a última gota de água do sertão. é uma curva arriscada, não consegue ver a placa do risco de acidente?
eu não vivo das pequenas quantidades, dos pequenos afetos, das pequenas emoções. nada disso me transborda, nada disso me completa. ao fim do tempo, seu vaso estará vazio, minha xícara não estará cheia, meus olhos estremecerão, ficarei magoado, você pedirá tempo para preparar mais café, mas a gente sabe que não é de bom tom misturar cafés de tempos diferentes. 
peço desculpas milhares de vezes, mas o café ficará frio. eu nunca tive a capacidade de tomar café pela metade. você argumentará que está meio cheio, já estarei andando na direção contrária quando ainda de costas -e ainda andando- sussurrarei que o amor nunca pode estar ao meio. porque é maio, meu querido. porque dói explicar o amor. um dia eu te disse que não existe definição exata para o amor porque ele não se permite ao verbo, e você saiu gritando que me amava. era como se você gritasse que não sabia amar, era como se eu não estivesse ouvindo.
quando nada parece solucionar um barulho interno devastador, ouço pingos mudos em poça d'água. meu coração palpita, evoco em minha imaginação -a possibilidade de que era um truque seu-, que havia mais café da mesma safra. sofro uma rotação de 180º (contra qualquer pensamento), meu olhar vai se erguendo do chão até a minha xícara abandonada na bancada de jacarandá, mas eram suas lágrimas que sofridamente pingavam na minha xícara. você olha para mim com uma dor de saudade. eu penso "o café está ficando aguado". apresso o passo.