domingo, 29 de agosto de 2010

dói cabeça, corpo, dói fios de cabelo, dói o couro.
de onde,
vem essas dor?

de onde
vem tanta singularidade
impedindo o plural
(desconhecimento de fonte
impede certas denotações).

analogia

se os anjos pudessem voar como dizem, se fossem tão límpidos e puros, quanto dizem, se tivessem asas, se não tivesse sexo, se seus pés não tivessem calos. se eles fossem como todos imaginam, se fossem como nos desenhos, dos adultos, das crianças, se usassem um vestido branco, se parecessem tanto com os humanos, se fossem santos, se não enxergassem maldade, se não tivessem mãos para a maldade. se pudessem se apaixonar por humanos, filmes, filmes, se pudessem, se fossem, se anjos. os anjos, quase-humanos, os seres mais díspares dos humanos, e que mais se parecem com eles. analogias que doem mais do que facadas, por isso deve-se temer analogias, suas entrelinhas, por isso estou acreditando em outras coisas, por isso anjos não são apenas anjos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

moça

a moça de azul flutua pelo chão, ninguém seria capaz de julgá-la humana, errante, ser que pisa, que pesa. a moça de cabelos azuis calmos, sorriso amarelo, olhos bege. todos os olhos, todos os rostos, tudo reverencia-a, como obrigação de um súdito para com a sua rainha, mas sem saber que é rainha, ninguém sabe da rainha. a saia de algodão parece seda em seu corpo, corpo comum.
a moça que nunca se destacou em nada, mas que sempre atraiu todos os olhares, elogios, e suspiros. ninguém percebe o amor por ela, porque dela parece nada emanar, parece seca como terra de deserto. mas é tão úmida, coitada. já é tão pouco e o pouco que é ninguém enxerga. mal sabe que a acham seca, mal sabe que aquele corpo é dela, e que pode viver dele.
a moça de azul conhece um moço, assim como todos os outros o moço também não tinha cor e por consequência será chamado de moço cinza1. O moço cinza1 logo se encantou por ela, mesmo sem saber explicar em seus textos o porque de tal encanto. não conseguia elogiá-la fisicamente, nem socialmente, eram palavras que não existiam, e sua alma nem tinha boca.
logo o relacionamento teve início, ele encantado sem saber o porque, e isso o deixava angustiado e amedrontado, poderia estar amando pela causa errada, poderia estar amando por não saber o que sentia por ela, poderia ser a cor, mais viva do que a própria moça. todos aprovavam aquele caso silencioso.
começou a ficar lilás, ninguém percebeu, sutil. suas saias agora eram três centímetros mais curtas e seu batom havia ganhado cor, cor de verdade. os olhos avermelharam-se, a bochecha passou a fingir-se rubra






não quero terminar esse texto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

sem.ponto.final

é muito fogo, muito fogo. a cabeça gira a centenas de quilômetros por segundo, muda aqui, muda ali, e pronto: muda completamente a conjuntura do que aconteceu, ou do que acontecerá. o caminho da esquerda, que parecia reto e certo, como sempre pareceu (mas que nunca o fora), se ramifica em becos, ruas, avenidas e rodovias. demoro bons minutos a cada cruzamento, e a cada bifurcação, espero ouvir noticias, ou lê-las em qualquer papel que tenha sido desprezado e guiado pelo vento. me decido, mesmo quando indeciso. e claro, entro nos becos, quase sempre. são mais aconchegantes, tortuosos e obscuros. gosto do coração pela boca, dos olhos atentos, da audição aguçada, da pele arrepiada de tão sensível ao toque. me arranho, tropeço, corro, caio, no fim a luz é forte e estou me arrastando, pedindo água e ombro. na próxima escolha, corro demais

domingo, 8 de agosto de 2010

visita

Chegou na casa com os olhos muito abertos, desejava destrinchar a família e seus segredos a partir do que contavam em silêncio. Primeiramente viu um lustre, enorme, se perdeu na delicadeza com que os cristais conduziam a luz, extasiado com a possibilidade de transformação de uma pedra inerte. Lembrou-se de seus objetivos, focou em tudo que já havia lido, conversado ou escutado da mesa ao lado sobre lustres. Fingiu, com eficiência unânime, ter concluído algo. Um dia perceberia que a beleza lhe ofuscara os pensamentos. Continuou a observar o lugar, sempre tentando evitar os raios de luz, hermeticamente planejados, hermeticamente aleatórios. Não falou com ninguém até então, as pessoas não passavam de projeções dos objetos vistos, na sua cabeça as coisas se invertiam, trocavam de lugar com uma facilidade inexplicável, e incompreensível. Encontrou um espelho e se perdeu. Não conseguia observar os detalhes do espelho, olhava fixamente e se sentia confortável em estar usando trajes adequados, seria mais fácil não ser notado assim. Se sentiu desconfortável e só, ao parar de olhar para o espelho. Não existiam pessoas sozinhas para sentar e falar sobre o frio que fazia dentro dele, era possível sentir seu estômago congelar. Sentou-se, pôs as duas mãos em concha na tentativa de aquecer a pedra de gelo que florescia ali, nele. Fechou os olhos, quando abriu, ainda cabisbaixo, viu um tapete desfeito em riscos, a princípio era um labirinto, passou a ser confusão e logo se perdeu mais uma vez, viu seu precipício alí, em retas. Ficou tonto, enjoado, via as pessoas em gargalhadas, viu todas-as-coisas na mais perfeita ordem, se colocou em seu lugar: alheio. A música não parava de repetir, pensou na possibilidade dele mesmo estar se repetindo, estava se refugiando. Sorriu para todos, levantou-se, tropeçou na mesinha roxa que dava o ar sofisticado ao ambiente, olhou fixamente para a maçaneta, achou-a tão desinteressante que tocou, apertou, torceu, se retirou do local com uma frase para ninguém "Vou ver se fechei o carro, isso sempre acontece comigo".

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

De Barros

Quando o céu me acompanha
tem um pedaço de tu'alma comigo
Seus peixes carregam meu corpo
no vento que se finge mar
As bocas de tão abertas não existem
se rasgam de olhos de ouvidos

Penso em pássaros
o quão grandes são suas asas
Percorre sem pena todo céu
o mesmo céu parado
entre nuvens curvas de vento faróis

Me engana sem palavras, Manoel
Minha árvore vai te dizer em folhas
o que o vento não é capaz de te dizer de mudo
_Meu Deus, Manoel!