quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sonhos e lâminas

Os sonhos são lâminas, lâminas sem apoio que se unem entre si, sem faces planas, sem regiões seguras. Como são sonhos, são lâminas infinitas, e o infinito não, neste momento, é irreal. Sonhos são vontades que resolvemos a qualquer custo realizar, sonhos são nossas pequenas verdades em formato de diálogo, sonhos são as realizações ditas impossíveis. Feliz é aquele que guarda seus sonhos. Mas se são sonhos, porque guardá-los? Pois é, não os guardo, não sei se os tenho, apenas incentivo nos outros o que mal conheço, talvez isso seja começar errado, ou talvez seja meu único ato de sanidade. Acontece que quanto mais sonhos, lâminas, mais difícil fica de sustentá-los. Sonhos são tão cortantes quanto navalhas, diferenciando que a navalha tem uma região segura para que se possa manuseá-la. Os sonhos, pequenos, grandes, colossais e médios se apoiam uns nos outros, como um quebra-cabeça sem encaixe perfeito, até que em um momento o sonhador tem que decidir se deixa uma lâmina cair ou se irá se cortar arriscando a vida, e todos os demais sonhos. É tudo muito parecido com um jogo, não porque a vida se pareça com jogos, mas porque os jogos se parecem com a vida. Afinal não se sabe de nenhum jogo que tenha sido criado antes de existir vida -ainda me encontro fazendo comentários óbvios.
Comparo os sonhos com tanta precisão não por conhecê-los a fundo. Todas as afirmativas aqui feitas se baseiam em uma única e frágil teoria: acreditar que chamam de sonho o que chamo de objetivo, meta, vontade grande. E tudo, aqui embaralhado, é fruto de um aprendizado: sonho é coisa grande, coisa sagrada. Então, preferi deixá-lo para os deuses, pois sei que sou apenas humano, e isso me basta.

domingo, 18 de abril de 2010

Desculpa, mãe.

Mãe, se o tempo es
________________cor
__________________re
pela mão, me desculpe,
não consigo segurá-
lo.

Sinto que ele e
____________s
_____________c
______________o
_______________r
________________r
_________________e
pelo meu corpo todo,
em enxurrada,
não dá para segurar
uma-gota-sequer.

E se uma gota seguro
perco de ver
o rio
que passa
por mim.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

E se até a água está sem gosto,
o que posso esperar de você,
o que posso esperar de mim ao te ver
e o que posso fazer, sem sentir.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Se eu pudesse...

Se eu pudesse voltar no tempo faria das cidades alagadas grandes mares. Sim, oceanearia o continente com direito a peixes azuis e vermelhos. Não é coisa de uma cidade, ou centenas de cidades por baixo d'água, não falo de Atlanta nem do oceano Pacífico. Se eu pudesse faria ilhas em mim, na minha cidade inundada, uma cidade sem botes visíveis, sem aviões, sem portas e objetos flutuantes.

Se eu pudesse povoaria essa cidade. Ela vive vazia, não por falta de pessoas, apenas por falta de fixação. Descem escorregando pelas ladeiras, curvas intermináveis que vão parar onde-ninguém-ainda-sabe-ao-certo.

Nessa cidade os congressos são sempre adiados, os shows cancelados, não tem época de verão, não tem época de inverno. Se eu pudesse, nessa cidade as casas seriam enormes, impossíveis de se conhecer a fundo, sem direito a moradia fixa, todos seriam visitantes o tempo inteiro, pois ninguém resistiria a tamanho absurdo por tanto tempo.