terça-feira, 16 de setembro de 2025

o outro

 Descobri que talvez um pedaço de minha maior falta, saudade, dor, ausência, tristeza, vazio, escuridão, solidão, seja de mim mesmo. Se olhar e se encontrar nos olhos do outro não tem volta. O feito nunca mais poderá ser desfeito. O desfeito não existe. O dessaber é irreal. Então porque tocar numa realidade pungente, fatal? Não tem porque não tocar o self. O nomear é humano, não mais do que o medo de fazê-lo. Me sinto confortável com o externo pois minha viagem é interna. Não há sofrimento nisso. Muito menos gozo. Há o que há, apenas existência. Me sinto infinito quando me revisito. Aí, então, há o gozo? Sou dos caminhos, não do fim. Por um tempo isto também me estranhou. Para quê tanta culpa? Ou, o que seria de mim sem a culpa? Revejo e me apaixono exatamente na mesma intensidade - real. O verbo parece tão pouco, deixa tanto por dizer. É nesse contexto que escolho meu entorno: o outro não pode ser uma pessoa que não acesse o não-verbal, pois não há outra maneira de se comunicar. Minha existência não se acomoda em conceitos, apesar da fascinação. Não consigo me prender a datas, não me parece digno reviver situações de forma datada. Fico além, dentro de mim. Revisito quem revisito como quem encontra um rosto conhecido no caminho do trabalho. Como amo revisitar meu irmão - meu eu mais próximo de mim é um buraco no meu peito. Os outros, ainda presentes, acham que me conhecem. Acho engraçado, acho pequeno, acho ousado, acho ousado, acho um quase. 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

é uma carta

 se eu pudesse te escrever, o que eu te diria? eu posso te escrever, então te direi: te amo, estou com saudades, as coisas aqui até que vão bem, mas não vão melhor do que outrora. depois de tudo existe um vazio. não existe mais a alegria leve e completa. falta algo. é sobre lidar com a falta. não é sobre substituir a falta. não é sobre preencher, é sobre lidar. é sobre lidar com tantas coisas. não é sobre nada. músicas e habitos antigos são tão gostosos, lembranças de coisas boas e de coisas incríveis. obrigado. te amo. até breve - e assim a fé se renovou e descobri que fé não é questão de escolha.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

 Oi. Me diga quem és. Essa sombra que te sombreia de onde vem? Tu tem tua própria sombra? Que sombrinha. Queria alisar teu rosto sem te arranhar. Pois saiba que não vai ter carinho, pq o carinho tem espinho. Eu peso muito porque sei que consigo. Estou diante de mim mesmo e me considero inapto. Poderia eu me sentir apto de alguma coisa? Sinto cheiro de pavor. O que é o covid? Tem como escrever e não falar do covid? Se eu não escrevo sobre o covid e daqui há 60 anos un bisneto pegar minhas anotações e disser: como ele não falava do covid em plena  pandemia? A gente tá construindo uma ponte e só pensando em quais pontes estamos ligando. A coisa feita é a coisa em si. Como se sente tento construído uma ponte. Se sente responsável pelas pessoas passando ali. Pelo bicho passando ali. Pelo tudo passando ali  

Me diga quem és. 

diga em quem tu votas e eu te direi quem tu és


2021, um ano após uma catástrofe - ainda estamos nela, estamos presos nele. Utilizamos datas atuais muitas vezes no intuito de supor amadurecimento quando comparado com tempos passados. Me deparei com uma camisa com os dizeres “diga em quem tu votas e eu te direi quem tu és”, e só consigo pensar no tamanho da redução que isso torna o todo. Eu tenho tempo, eu prefiro que me diga quem és tu com muitas outras firulas. Não sou rico das paciências, mas tento. Entre dois pontos fixos existe um infinito. Entre dois pontos móveis existem muitos infinitos. O fardo do passar dos anos é viver o presente como se ele fosse presente, e tendo a ciência de que o amanhã é mais do que uma promessa - é uma certeza. E quem tem certeza de qualquer coisa que seja em 2021? Sei lá, não seria de 2020? 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

-oi, senti saudade daqui. senti saudade do que eu era quando aqui eu vivia. dentre tantas saudades, a saudade da leveza é a que mais machuca, e torna tudo ainda mais denso. é pesado. tudo é pesado. tudo me dói tanto. e fico em risos quando me lembro das queixas de outrora.