segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Prece

Às vezes as coisas parecem bem bonitas.
Bonitas de uma forma nua -olhos lacrimejando, sorriso fácil.
É quando queremos/precisamos que tudo esteja bem. Todos precisamos estar bem uma hora.

Não há coração, Meu Deus, que suporte toda verdade.
Prostituição sem prazer, é isso. Orgasmos e orgasmos, fingidos.
Não há respeito pela verdade.




Resta, sempre, o medo. Indivíduos controlados em limites de quatro paredes,
teto,
chão,
tanto limite, Meu Deus.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

muitas coisas me envolvem

eis que chega alguém, de capús preto, sem olhos, boca fina, como sem carne, e me enxerga. eis que o mesmo ser se aproxima, pede um fósforo, sorri de leve, como quem quer brincar com o sentido das palavras. na ânsia de enxergá-lo não percebo tal intenção. o charuto tomou um tom avermelhado, forte, cor de fogo em fumo, a inexistência dos olhos tomava conta de todo meu corpo. deu duas voltas ao redor de meu corpo, como cobra estudando a janta, se arrastou para longe. frio na barriga, borboletas no estômago. passaram, passou-se, outra tarde, o mesmo capús, me ronda, me sonda, aproxima-se de minha pele, nuca, sussura: eu gosto de você, sinto um cheiro bom. como se soubesse o que sou.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ne me quitte pas

as belezas tão belas. porque tua feição é tão bonita, linda. vejo as coisas com dois passos de distâncias, algumas vezes preciso de uma pele, mas para, olha, as belezas no fim estão por ai espalhadas, a grande maioria no chão, e chove, e reflete luzes turvas: lua, estrelas, postes.
enquanto em todo o resto ocorrem sons, serenatas, frívolos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

pertences e definições

ainda guardo muitas coisas. guardo o costume de, na madrugada, pegar uma caneta esferográfica azul, compactor 0.7, e começar a escrever teu nome, sempre começo pelo pulso, antebraço, peito, barriga, coxas, sim, as duas, pé, boca. ainda não entendo esse costume, as coisas mudaram, as coisas estão sempre mudando, mundo muito cíclico, mundo se renova, costumes ficam. andei lendo algumas anotações feitas por estranhos e descobri que não devemos responder por coisas que nunca fizemos, ele considerava que nós nos renovávamos periodicamente, ele gostava muito de química, biologia, entendia que todas as células que tenho são fonte de renovação, novidade, átomos novos, vindos de outros seres que não estão mais presentes. sobra-nos a alma. você sabe de minha paixão pela água, é inegável que a alma escorre, ela pesa, ela não é sólida, ela só pode escorrer, e escorre sobre seus nomes em centenas de centímetros de pele azulada. minha alma escorre. guardo também alguns pedaços seus, entre dentes, tenho um punhado de motivos para me sentir como um velho baú de coisas-usadas. e eu, mesmo me policiando, mesmo fugindo das águas, mesmo com medo delas tocarem minha pele apagando cada símbolo azul, mesmo e sempre, você é rio.