domingo, 22 de maio de 2011

Something

"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente."



Caio F. Abreu

21/05/11

Você é o bichinho mais bonito,
seria minha avenquinha
-isto é, se eu já não fosse a sua

De tão bonito, me dói.
Sinto tantas dores,
verdade.
Mas sua beleza me dói
e quebra o "Nothing's gonna change my world"

Sua beleza
rasga
minha pele
e todos os poemas escritos nela
-arranca um por um.
Mas não me importo,
mesmo.
As cicatrizes são tão bonitas,
não são como as de um acidente de carro
são como marcas de dias bons,
como a cicatriz da mordida do cachorro na infância, no parque.

Ah, sua beleza.

Longe de qualquer flor,
longe de qualquer escultura,
pintura,
poema.
A beleza que poucos conseguem ver
A beleza que às vezes descubro ser de uma dimensão maior.

Está tarde, amanhece
voltemos para nossa cama de casal
e pode deixar que mais tarde eu mesmo acordo para dispensar a
[camareira e o café da manhã.
(Os portugueses não sabem que somos bichos da noite).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

explicações

Minhas manhãs se abrem com faca. Com uma música que em dias irei enjoar, mudar, tentar colocar algo que me agrade, para tentar aparar as serras da faca do despertador, ou desamolar o facão.
Agrega problema, acabo desgostando de mais uma coisa que gosto.
Talvez amenize, espero que sim.
Os relacionamentos, as despedidas, as viagens, tudo se delimita em cortes, em graus de profundidade, em, mais uma vez: faca. Quase todas as coisas às quais me habituei, e mais quase ainda todas as que me surgem como novidades, vêm acompanhadas de canivete, punhal, pedra amolada, e quaisquer demais objeto que possa exercer a função de faca: cortar prontamente, sem muitos arranhões -um corte sóbrio, de bordas regulares.
Se desde o parto normal o bisturi entra em ação, o que dizer dos demais momentos da vida?
Eu estou enjoando dessa analogia, repito tanto ela para mim mesmo (como se as pessoas ao meu redor pudessem ouvir, entender, repensar), que preciso me distanciar disso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Com faca (2)

Com faca se abre manhãs.
Quantas,
quantas manhãs
foram abertas a seco,
com faca, com força.

Com faca se abre corpos,
centenas,
centenas.
Se tira sangue,
órgãos.

Com faca quase-tudo
se abre,
se devassa,
se invade,
se explora.
Sem pedidos de licença,
é com faca.

Com faca
não se abre
o esplendor
da manhã.






(Para Manoel de Barros, para sua sábia-infância-eterna)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

emsegredo

da boca não sai palavras.
controla,
prende,
segura firme, como um crente segura na mão de Deus.