domingo, 29 de setembro de 2013

Dois (antigos/novos) pássaros

Era sábado, ele havia planejado acordar cedo, molhar as plantas, alimentar o cachorro, preparar uma sobremesa meio-amarga, encomendar um almoço leve, ler dois capítulos de "A Insustentável Leveza do Ser", ouvir Billie Holliday, e se espreguiçar no canto do sofá que recebia uma fresta de luz morna de uma manhã-de-domingo (mesmo ainda sendo sábado) até chegar a hora de ir ao aeroporto. Acordou no meio da manhã, o ar condicionado petrificava seu corpo, resolveu não se mover. Decidiu continuar adormecido, mesmo que acordado. Levantou às 11 da manhã, resmungando, e foi ao aeroporto, refletindo sobre o trabalho acumulado, a casa bagunçada, o mofo na parede da sala, o ar condicionado desregulado. Balbuciou alguns xingamentos, acelerou, acelerou, chegou no limite de velocidade. O telefone toca "_Amor, cheguei e já peguei a bagagem. Você está em que setor do aeroporto?", ficou mudo. "_Estou chegando, o trânsito está complicado", olhou para frente e viu um eterno vazio, não havia um carro sequer na sua frente, engoliu a mentira a seco, sentiu sua garganta arranhando e se convenceu -a duras penas- de que não estava tão atrasado assim. "_Tudo bem, estarei te aguardando no desembarque. Estou morrendo de saudades", respondeu que tudo bem, que chegaria antes do cansaço (e tentou acreditar nisso). Enfim chegou e logo viu aquela figura única (sozinha) segurando dúzias de rosas vermelhas, com um sorriso mais radiante do que margaridas na primavera, um olhar de criança, e uma postura sóbria. Se sentiu envergonhado, ensaiou um sorriso colorido, mas saiu amarelo (tentou acreditar nas outras cores). As flores, as cores, o olhar de criança - um raio de luz entrou no carro e coloriu aos poucos a manhã de sábado. Mantiveram o silêncio, e este não incomodava. Acelerou, acelerou, passou do limite de velocidade - se sentia leve.
Chegou em casa, ainda calado, mas com o sorriso iluminado por duas cores, e o amarelo tinha sido deixado na estrada, assim como o mofo da parede e o ar condicionado desregulado. A casa, que ao sair estava cinza, parecia um pouco alaranjada, azulada. Passou a ver cores que não mais se lembrava. Espalhou as dúzias de rosas pela casa, e foi vendo tudo se transformar em amor. Esqueceu do trabalho, esqueceu da dor nas costas, esqueceu da fome e da sede. Esqueceu de ser um problema para si mesmo. Piscou duas vezes, tentando acreditar em qualquer coisa, tentando entender qualquer coisa. Abriu os olhos devagar, como quem teme a realidade, olhou para o lado: viu 7 cores irradiando para fora e para dentro de si.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

bilhete avesso

Tenha cuidado, boy, com o que me manda. Um link pode ser pior que uma porrada. Posso suplicar para que você me espanque e tire essa música da minha cabeça. Ela começou a tocar tão inocente, e agora está se repetindo em mim, no computador, no aparelho de som, na televisão, no meu celular, na rádio, nas lojas de departamento. Ela/você está em todos os lugares, nunca mais me senti só. Isso está me esquizofreniquizando. Eu não queria que isso tudo me inundasse dessa forma, me possuísse  me fragmentasse em uma versão mais real do que eu sou. Dessa forma de novo não. Te juro que penei por algumas horas tentando encontrar um link tão poderoso e tão devastador, mas minha ideia mais plausível foi mandar de volta o link que recebi. Me senti fraco. Você não deve saber o que uma coisa dessas pode fazer com alguém. Sabe? Pois se souber, quero te dizer que você é um escroto. Não, não quero dizer isso. Quero gritar que você é um porco, estúpido, ignorante, bruto. E depois, quando você estiver quase surdo, sussurrarei subindo no seu pescoço o quão sensível e ensurdecedor você é. Todo o meu corpo treme de raiva. Estou começando a odiar todo seu sorriso -completo e íntegro.
Eu te matarei aos poucos. Eu te farei parar de respirar bem devagar. Eu não vou parar de te fazer cócegas até te ver derretendo (em meus braços).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

conforto e paz

era sábado pela manhã, assim como todos os sábados pela manhã costumam ser lindos, esse também o era. não havia sol, não havia chuva. era um silêncio cinza que tomava o dia. era sábado de manhã, era hora de esperança, de a vida se refazer na barriga, e crescer - sendo em seguida vomitada sem o ácido amargo dos vômitos de rejeição. era sábado de manhã, o blackout escondia os poucos raios de sol, e nem sempre ao acordar é possível se lembrar que existe um blackout te impedindo de amanhecer. cerrou os olhos novamente, na procura de qualquer fresta de luz -não havia. fechou os olhos e se esquentou no calor que irradiava ao seu lado. abraçou com todos os braços possíveis na esperança de incendiar o quarto e desaparecer em cinzas. alguns calores são impossíveis de moderar, de ignorar, de se afastar. abraçou o corpo macio que repousava ao seu lado, e logo este se virou em sua direção. se olharam de olhos fechados e se beijaram sem tocar os lábios. era o calor que guiava cada movimento, cada toque, cada cheiro. o medo de acordar o corpo ao lado se transformou em prazer, e logo seu corpo rígido se derreteu em relaxamento e gozo. aproveitou o movimento sincrônico do momento para aquecer sua barriga, coxas, pés, pescoço e peito. seu corpo por completo se aqueceu. e o que poderia se tornar calor, logo se tornou completo conforto e paz.