segunda-feira, 18 de junho de 2012
terça-feira, 5 de junho de 2012
Miudeza
Foi um abandono, nenhuma outra palavra poderia definir melhor aquilo que aconteceu da forma mais nua e mais humana possível.
Não sobrou nada do amor, nem o ódio.
Na sala de terapia:
_E agora, depois de nove meses, como se sente? O que enxerga?
_Acabei de ter um filho, mas é estranho, porque ele nunca amadureceu por completo, acabou saindo por questão de tempo, acabou o tempo dele, saiu um feto miúdo que não parecia com ninguém da família. A saudade corre grande no meu peito. Em tempo e em espaço.Mas é uma saudade surda, mas não existe amor. Ficou um vazio tão grande, um feto tão pequeno. Você sabe o que é abortar com nove meses? É não sentir mais ódio de nada, é perceber que mais triste que o ódio é a falta do sentir, uma corrosão interna, que não consegue sair, respirar, e que vai roendo bem devagar o nada, só para provar que ali não existe mais coisa alguma. Você sabe quando você ouve uma música bonita, fica tocado pela música, e sofre simplesmente por não ter nenhuma referência para tal? Um abandono de si mesmo pela falta do alheio. É como me sinto: um pedaço de terra sem bicho e sem planta. E agora tenho essa miudeza em casa, essa coisa enrugada sem nome e sem face. Me dói nunca ter estado grávida e ter um estranho me olhando com aquele par de gudes pretas.
_O que isso significa para você?
_O que o vazio pode significar?
A queda
Tudo descomeçou com um buraco. Sim, irei narrar essa história da forma mais descarada possível, porque não me restou nenhuma vergonha. Um buraco grande, bem grande, daqueles buracos que até parecem um útero da Terra.
Então foi quando um menino de alguns anos, próximo do fim da puberdade, ruivo, sem sardas, olhou para o céu, porque lhe foi ensinado na aula de filosofia a importância de se olhar com seriedade para o céu. Ele olhou para o céu e mergulhou no azul. O coitado não conseguiu sair do azul do céu. Chegou em casa e se sentiu mal, havia telhado. O telhado de sua casa não era transparente. Fez algumas anotações no caderno, e de onde eu estava só consegui ler "e assim morreu minha filosofiazul". Foi abrindo todas as janelas da casa, a mãe logo reclamou do vento, do fogão aceso, do tempo, era inverno, podia chover, podia molhar, não daria tempo de fechar tudo, ele teria que limpar, a mesada pagaria o prejuízo dos móveis, ele ficaria sem televisão, sem poder brincar na rua, teria que comer legumes no jantar. Ele? Se perdia a cada janela, e negociava dentro de si mesmo que cada promessa de castigo seria trocada por cada nuvem que ele conseguisse ver. Viu tantas nuvens, algumas tão desenhadas, tão algodão, que ele trocava por mais de duas promessas de castigo.
Foi para o quarto, o sótão da casa, muito espaçoso, filho único, casa planejada, havia uma janela enorme, que não abria, que dava para a frente da casa. Pediu desculpa por reclamar do fato de a janela o acordar diariamente com raios de sol. A janela permitiu que mais nuvens fossem vistas, que o céu fosse visto novamente, aceitou como desculpa.
Os olhos, antes verdes, passaram a azul em poucos dias. Passou a dormir cedo, só para poder ver todos os dias o sol nascer, para ver o céu mudando de cor, para sentir o arrepio na pele, o preenchimento sem sentido. Foi se enchendo, ficou cheio de sentido, cheio de completude. Os olhos mais azuis que o céu, como quem absorve um pouco da cor do mesmo a cada dia, e acumula. Sim, ele acumulava muito e preenchia um buraco de quem percebe que não é mais criança e que não sabe o que é, o que quer, o que vai ser. Mas um buraco, quando não muito bem preenchido, se torna armadilha.
Tudo descomeçou com um buraco que não deixou de ser um buraco por mais que o céu tivesse surgido sob seus pés. Clamei por ele, que ele não tivesse que perder o azul dos olhos, e logo seus olhos se enegreceram.
Tudo descomeçou com um buraco que não deixou de ser um buraco por mais que o céu tivesse surgido sob seus pés. Clamei por ele, que ele não tivesse que perder o azul dos olhos, e logo seus olhos se enegreceram.
Assinar:
Postagens (Atom)