quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Das Dores

A Das Dores sempre foi de muita dor e pouco sofrimento, sorriso farto e coração de criança, fria como um inverno pode ser. Seu andar, cambaleante, fruto de um passado sem chão, a fazia se perder pelas ruas, incomunicável, intransponível, gostava de estar sempre in, de ser sempre in. Nos seus olhos de farol com pouca energia o mar se fazia em poças. Poças imutáveis, intransponíveis, eram formadas, como quem vive em constante choro, mas nunca deságua. O que é triste, muito mais triste, um choro que não termina, como se nunca doesse o suficiente, como se sempre estivesse doendo. E doía.

Fogaréu

Ela
me esperava
com o cigarro aceso
em mãos, olhos vidrados,
a partir de seus olhos eu pude
ver que era sim, eu mesmo, o composto
químico que lhe fazia revirar o (seu) mundo.
Havia um equilíbrio em tudo que lhe penetrava:
fumaça, álcool, inseticida, feijão, agulha, olhares.
Era como se soubesse dosar cada gota,
cada grama do que se aproximava,
e, sem fugir, sorria com todos os dentes que um sorriso exige.
Não consigo entender, o porquê - Por que Senhor?, diante de tantas e tantas substâncias, compostos, a farmacologia não está avançada como nas reportagens?
Muita escuridão toma conta de um momento em que há apenas fumaça.
O cigarro queima lentamente, a fumaça toma conta de suas expressões, não imaginava vê-la vestida assim, nua.
O cigarro enfim termina, começa então a queimar os dedos, sua pele estava sempre marcada.
Ela parece não saber, mas o amor sempre começa falho, gasto, vê-se sempre ele se despedaçando, se tornando acomodação, crença, um almoço de domingo. Está tudo tão escuro, não é possível que ela não perceba o quão fundo estamos indo, ela parada, eu andando. Queria que ela soubesse que eu gostaria de estar sentado ali, em seu lugar, queimando todos os milímetros de minha pele, gostaria que ela tivesse esse meu azar de ver as coisas por um plástico transparente, e confesso que um pouco fosco também, com o risco iminente de queima, de fogo, de lesões irreparáveis. Sua mão suavemente se agita, vejo riscos vermelhos no ar, são suas unhas dançando, caçando vento, curando mais uma queimadura, mas ela já está marcada, continuo andando, ainda muito lentamente, como quem procura um lugar adequado, julgando iluminação, ventilação, visibilidade, acesso, restrições.
Mas qualquer pessoa pode ver em meus passos que estou indo para qualquer lugar, meus pés não estão firmes, os passos são esporádicos, meus olhos mal procuram algo.
Me sento, ainda vejo seus dedos em brasa, seus olhar fixo na cadeira vazia em sua frente,
um personagem mal sucedido de um drama de Hollywood, uma atriz
sem roteiro, sem fala, sem instrução.
Gostaria que ela soubesse que aquele era um personagem, mas há muita realidade para falar sobre encenações. Meu corpo doía de leve, como em presságio. Seria impossível resistir a ela, isso era claro, seria impossível não reparar em olhos tão nus, me levantei,
sem mais encenação apressei o passo com olhos em lágrimas.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

cortar sangra.

acreditar que há cortes sem dor, acreditar que há o tempo passando em que? o que acontece onde? porque tantas vozes, tantas tantas tantas vezes, vozes. o silêncio me arranha aos poucos, o silêncio arranca unhas com alicate.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

as vezes é complicado discernir o certo do errado. mais complicado que o normal. dizem que o ser humano nasce com uma luz, mas acho que todos já estão cansados de metáforas, de luzes, de fumaças e suspiros. as coisas acontecem de verdade, com olhos abertos, arregalados, mãos gélidas. não, ainda é tão cedo, porque agora? surgiam cada vez mais vontades, vontades, vontades, ao fim de tudo restou um medo, covarde.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

areia, água salgada no rosto, pressa nos pés. assim continuava o dia sustentado em músculos frágeis e trêmulos. logo as mãos se acomodaram no colo, lugar seguro, confortável, mas o rosto não encontrou abrigo, se contorceu em prantos, jorrando um aperto que vinha do peito, um aperto que vinha das coisas mais bonitas, do amor puro, muito puro.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

nem preciso de palavras, como se elas nem existissem.