quarta-feira, 13 de agosto de 2014

olhos fechados

olhos fechados, foi assim que ela me recebeu. olhos fechados, peito se enchendo e se esvaziando de ar - de si. ainda na porta me senti desarmado, nu: minha roupa caia naquela nova dimensão, meu corpo caia, me sentia uma alma vendo outra alma e o material desaparecera completamente. mas ainda não posso ir tão longe, respirei fundo, recuperei partes de meu corpo e lentamente me arrastei até o leito. meus olhos em pânico, os dela fechados. ignorei a presença de qualquer outra alma naquele momento, porque não cabia dentro de mim espaço para tamanha percepção - por mais que eu me esforçasse para dar atenção a todos os presentes no momento. balbuciei palavras que pareciam bonitas e outras palavras que dessem abertura para que os demais se sentissem confortáveis com minha presença e para desabafar - minha audição completamente abafada. consegui alcançar seu corpo e me concentrei o máximo que pude para falar num tom semelhante ao que usamos para falar com os corpos que se movem. respirei fundo (até agora respiro fundo). "Oi! Bom dia, moça! Eu sou o interno do seu leito e vou te acompanhar aqui, tá bom?" pontuei cada palavra com um sorriso forçado. não chegava a ser um sorriso amarelo, porque eu sabia da importância de não sê-lo, porque eu me esforcei muito para dar cor a ele: só consegui os diversos tons de cinza. a resposta foi dada com uma chuva de canivetes - porque às vezes o silêncio dói tanto? minha vontade era de fechar meus olhos também e rezar para que ela respondesse qualquer coisa, queria tanto que ela me expulsasse daquele lugar, queria tanto sentir que estava viva, sentir sua raiva em mim. respirei fundo, e quase me afundei. voltei a olhar ao redor e fiz perguntas bobas para as demais pessoas. Eu esperava que com o passar do tempo as coisas fossem ficando mais leves, menos dolorosas e sombrias - não ficam. "vou olhar o seu pulso, tá bom?" mais e mais silêncio. peguei então no braço e tateei o pulso. pedi mil vezes para esquecer essa coisa de corpo e ficar só no encontro de almas, o toque ao corpo às vezes machuca muito a alma. o braço não apresentou a menor resistência, apenas pesava - imaginei o quanto pesaria para ela. o pulso pulsava, pulsava rítmico, e o ritmo me doeu muito. estava vivo. um braço pesado e vivo. os olhos fechados. tóraxcomexpansibilidadepreservada. bulhasrítmicasnormofonéticasemdoistempos. ninguém me ensinou a encontrar dados vitais positivos num corpo estático em plena guerra com uma alma que quer sair. eu queria sair dali o mais urgente possível. "agora vou examinar seus olhos, ta?" canivetes, facas, silêncio, silêncio. midríasebilateralpupilasnãofotorreagentes. minha mão tremeu de leve, senti vontade de abraçá-la e dizer que estava tudo bem, que Deus escreve certo por linhas tortas, que ela era jovem e que tinha ainda uma vida inteira pela frente. fingi que ainda a examinava para conseguir tempo de me recuperar, dizer qualquer coisa, e sair dali. as pessoas ao redor me observavam. tremi, chorei, gritei, abracei, sacudi, tudo isso sem movimentar um milímetro sequer. "se precisarem de alguma coisa, acontecer alguma intercorrência ou surgir alguma dúvida pode me chamar, tá?" confirmaram com a cabeça, e eu temi que tivessem alguma dúvida, pois me senti desconhecedor de tudo.
retornei no dia seguinte, os olhos estavam abertos. andei devagar e fiquei defronte suas pupilas dilatadas e estáticas: o olhar rasgou minha alma.