quarta-feira, 12 de setembro de 2012

o Dragão e o paraíso

Bom dia Dragão,
depois dos ocorridos, desencontros, desses olhos grandes e miúdos, devo dizer "que fique". É sabido que você nunca foi bom com obediências, mas eu também não sei manejar os obedientes, perco a mão, não sei. Contudo, mesmo com tudo, ainda elaboro e emito essa ordem -com uma voz já fraca- "que fique". Mesmo sabendo que o ficar não é mais uma opção. O ficar se tornou um desejo irreal, mas mesmo tanto, sendo... eu digo "que fique". Sabe, até arranjei um espaço, porque bem sei o quanto dragões são espaçosos, sei bem como não cabem em qualquer cantinho -exigem uma totalidade de espaço incabível onde apenas assim cabem.
Às vezes sinto o cheiro de sua pele, um cheiro que vai ficando forte, vai tomando todo o cômodo, vai adentrando por minha pele, como quem quer se acomodar em mim. Me toma por completo como uma esperança/crença de que seja real -assim, fecho os olhos com força (com bastante força) fazendo orações com uma fé que nunca tive, mas que surge. Rezo para que seja real, rezo muito apenas para que seja real (esse apenas não é meu). Rezo para que tudo que é cheiro não seja uma mera ilusão olfativa.
Você há de saber, mas hei de repetir: não é fácil ter um Dragão. A começar porque ninguém pode ter um Dragão. Mas acima da impossibilidade de posse, um Dragão deixa um vazio enorme a cada partida. Dói, e posso repetir isso até o fim sem medo de ser adjetivado como "exagerado". É um vazio completo. É vazio, vazio. Todo um vazio que só pode ser preenchido pelo Dragão. Dragões encontram lugares nas pessoas que elas nunca cogitaram a existência. Dá calafrios pensar nisso -lembrar disso. E depois dessa descoberta do infinito vazio, do galpão abandonado, você volta, aos poucos, como quem enche um oceano com conta-gotas- e depois disso nada mais preenche.
Mas olha, preciso te dizer que apesar do deserto existe algo maior (algo maior que todo o vazio em que nada preenche): sua presença. Não existe nada mais bonito, mais comemorativo, do que a presença do Dragão, do que o seu ritual de chegada. Em completo arrepio, direi que chega leve, apesar do tamanho, da carga, e vai ocupando seu espaço. Primeiro o perfume (ainda chamo de perfume o seu cheiro natural),  que começa enebriando, me fazendo esquecer de toda uma realidade em volta, porque você precisa de todo um vazio para conseguir chegar. Quando me esqueço completamente de tempo, nome, espaço, você chega. A princípio apenas os olhos, enormes, atentos, como quem quer que eu diga que sim, que o espaço é todo seu, que eu suplique pela presença, pela morada, mas ao abrir a boca para tentar tatear as palavras surge sua mão, uma mão grande e macia, que me toca o rosto e me faz calar. Nesse momento acontece algo curioso: perco todos os sentidos. Minutos depois me encontro envolto, acolhido, com todo o espaço preenchido, e então você, cansado, dorme, como criança exaurida pela vento do mar. Então eu também cedo ao sono, desmaio. Ao acordar sinto apenas o cheiro forte de sua pele, como se ela ainda estivesse aqui, mas você já partiu -novamente o vazio, a fé cega, as orações.

-"que fique".