Seus medos e angústias (problemas, preocupações, contas, obrigações) eram guardados em amuletos sempre que tomada pela música. Rotineiramente entrava em cena como um corpo arrastado, envolvido por cordas de aço imperceptíveis que pareciam tentar partir a fina cintura, e em uma velocidade que
machucava os olhos mais atentos, até que caia segurando porções do ar com os punhos cerrados e concentrando todo o corpo para respirar apenas pela pele. Não tinha nojo do chão, pois como ritual (advindo de uma obrigação) era seu corpo que deslizava acima de um pano
úmido pelo palco empoeirado, e quando o tempo era curto ou inexistente ela fingia que o pó era resto de estrela e acariciava o chão (na queda) com ainda mais emoção.
Enquanto estava no chão, sem música, seus amuletos brincavam de libertar e prender medos e angústias, até que outra corda, que nunca existira (também), levanta o corpo desprovido de massa ao som da primeira melodia. Desde que a música toca seu corpo,
em concomitância o sangue ferve, evaporando por cada poro que se encontra exageradamente aberto, exposto. O vapor, avermelhado, abafa todo e qualquer pensamento que por ventura possa se formar. Sua única preocupação é com o coração,
arritmias e paradas, mas seu coração é forte demais, resiste a qualquer pulsação, acostumou com a dança.
Quando dança, desliza, não consegue pensar (na verdade nunca tentou). Dinheiro e
maquiagem se tornam a mesma coisa: nada. Se sente nua flutuando entre notas musicais, não existe terra nem céu, o mundo é seu e se pudesse pedir algo a Deus naquele momento, não hesitaria nem por uma nota musical, pediria para a música nunca acabar, para que sua alma estivesse sempre alimentada e leve, capacitada para o
voo plenamente.