sábado, 29 de agosto de 2009

não podia deixar de postar, por medo de perder

As sensações são diferenciadas, fruto de teu verde-coração. Sinto saudades sempre, mas dói mais quando estou longe, é quando mais sinto sede de ti. Vivo planejando me mudar, sempre para o mesmo lugar, queria tentar morar no teu peito e ajudar teus pulmões a se encherem de ar, tentar assim não sentir mais asma por ti, não me faltar teu ar. Acontece que sempre que me despeço e saio andando minha fome aumenta como se tu tivesse sempre como me alimentar, e como se longe de tuas mãos nada mais me nutrisse. Às vezes me sustento nos teus ossos e tenho medo de pesar, às vezes as coisas ficam sem graça longe do teu olhar de aprovação, às vezes acontece tanta coisa.
E vivo cantando esse amor-admirador só para tentar te ver dançar sorrindo enquanto deságuo verdades-vermelhas no verde.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A aminésia noturna, inacreditávelmente, insiste em me acordar pela manhã. Todos os sentimentos de uma noite se zeram, e eu me anulo. Se eu pudesse escolher entre ser ou não ser assim, não sei o que escolheria, ou sei e prefiro não profanar às traças (ou vírus, aqui), ou por não haver escolha prefiro nem imaginar que há, deixa por ser assim, infinito









...
Enquanto vomito palavras aleatórias observo você se esquivando para sugar cada gota, cada grão, mesmo sem entender você continua sugando, você continua próxima, como se nunca estivesse longe, como se não soubesse o que é estar longe de mim, e tem medo de tentar. Mas sei que já esteve, caio em plumas.

Desaba Mundo

Cimentado o céu:
seu chão,
cai pedra, cai vento, cai tu.

Rachadura que goteja,
me lava parado
do cano de não-sei-onde.

Da água, ensopo,
gripo, espirro, gripo,
sou levado ao hospital
contra-vontade.

25/08/2009

eu sei que eu desatino por você, disparo, reparo, e todas as outras paradas que a rima em demasia não me permite enumerar. Mas entenda, e se vá, que não é por você que minha temperatura oscila, não é nada por você, você nem tem culpa, não tem controle, é tudo meu: a dor é minha, o amor é meu, o orgulho em cacos quem recolhe até hoje sou eu, eu mesmo, quem criou uma criatura amável, dócil, eu que escrevo de vermelho para fingir que dói a dor que às vezes dói de fato, eu que sinto todos os verbos do mundo em mim, me deitando em adjetivos inabitáveis. É tudo meu, não permito mais roubos, furtos e divisões, as coisas boas e ruins serão sempre só minhas, até o seu sorriso é meu, e você sabe que não pode comprar mais ninguém com ele, amarelou-se por mim.

Quando foste completamente banguela te mandarei tudo: cartas, palavras, calafrios, tremedeiras, arrepios, porque será tudo só seu.

domingo, 23 de agosto de 2009

declaração

Morrerei com uma caneta na mão e um papel pronto para ser estraçalhado. É assim que terminam os melhores momentos: papel e caneta. Não escrevo por opção, sou obrigado a isso e espero que ninguém tente me libertar de meus vícios.

sábado, 22 de agosto de 2009

meus acompanhantes

no corpo carrego peso demais, canso, e não é pano nem metal, são todas-as-coisas que se fixam em mim enquanto passo por elas, carrego-as como uma grávida que carrega seu feto, com medo de deixá-las cair, indefesas. cuido como se fossem parte de mim, porque são. na cabeça uma nuvem clara se estabelece serena, enganando o olhos que admiram uma bela neblina de inverno, enganando quem não consegue ver o que se encontra dentro ou atrás da clara-nuvem, enganando e revelando apenas fragmentos dúbios.

na alma não carrego nada, ainda não sei se é pequena demais, e nada cabe, ou se é grande, e muito cheia. minha alma paira leve, não me permito deixá-la cair, me concentro na sua leveza, em deixá-la subir, me elevando junto, me permitindo pegar delírio, sublimando ancorado em mim mesmo, regulado por astros milenares, ou melhor, regulado por nada: desregrado. alma que pega delírio não pode ser regida por regras quaisquer, sobe sem parâmetros, apenas por ser leve, ninada por brisas e ciclones.

e na lembrança eu carrego, feito chumbo leve, todas as palavras não ditas, os afagos que se quebraram no meio do caminho, os olhos que por medo não brilharam, todas as belezas que se esconderam em vazios, os gestos que pareceram não existir diante das dimensões grandiosas de um barulho ensurdecedor, um fio de cabelo que caiu, um cílio que insiste em permanecer, solto, no rosto, um abraço distante, a hesitação de todos-os-momentos que quase aconteceram.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Milord 3

Belle rose, já não sei mais por onde te procurar, parece que você não sabe o que seu corpo representa para mim, eu não posso continuar sentindo o que agora estou sentindo. Ma rose, meu corpo desintegra longe do teu, não consigo mais trabalhar, porque foi embora sem um último beijo? Porque quero te fazer tantas perguntas sabendo que pouco me importam as respostas? Preciso de você por perto. Como você pôde me escrever apenas um bilhete com um endereço falso? Estou definhando e nem tenho para onde enviar estes rabiscos. Minha mente está cansando e meu corpo parece resto de fogueira




(o restante do pedaço de papel permaneceu em branco, assim como a mente de quem escrevia)

Milord 2

Não, eu não voltarei atrás, não voltaria se pudesse, algumas situações são impossíveis regressar, são viagens sem prazo de validade, nacionalização certeira. Deixei algumas peças de roupa, mas sei que não tem volta, deixei por saber que com elas eu regressaria (mesmo sendo impossível, sabemos que eu sempre gostei do impossível) de alguma forma me protegi de mim mesma e sou eternamente grata por isso. Sempre te amei como amante, sem aspirações de ser a única, meu amor nunca exigiu nada, Milord, a não ser amor. Não saberia ser a única, serviços domésticos e servir de apoio em reuniões me deixariam mal, mas ao mesmo tempo ser amante é ser o pesadelo de muitas pessoas, é muita traição, muito sangue, muito nervo. Não, não tenho pretensão nenhuma de voltar, serei eternamente amante, eu sei.

/La belle rose

Milord 1

_Oh Milord, me conceda essa dança.
_Seria um prazer, belle rose.

Começam a deslizar no salão que até então parecia inóspito, anecúmeno, até que a "belle rose", um pouco ofegante, suga o aroma de seu Milord e sussurra.

_Sempre quis dançar com você Milord, sempre te vi sentado com o olhar a se perder entre os vestidos das moças, perdi noites imaginando se meu vestido te fazia algum sentido, oh Milord. Porque está tenso? Sua amada esposa não está nos olhando, ela não consegue se concentrar em mais nada além do prato que lhe fora servido. Milord, eu gostaria de dormir essa noite com você, estou sem casa por algumas luas, não consigo dormir sozinha em época de inverno, o frio me desabriga. Milord, agora preciso ir, a música está acabando e a próxima a se apresentar no palco sou eu, cantarei a música que fiz enquanto não dormia imaginando esta dança que agora se finda. Me encontre após meu número no último camarim. Au revoir, mon amour.

domingo, 16 de agosto de 2009

amada verde:

mistura: não se define nem com dias de repouso, não decantarás, é como uma limpidez turva, fruto de nuvens verdes que nunca se assentam em água. estranhamente tudo que não se assenta, a mancha verde que dança, vários sons, vários tons, é o que faz a limpidez ser mais transparente, como a beleza de uma pequena flor que em meio a uma floresta não a torna confusa, apenas a embeleza suavemente, sem a necessidade de forçar a existência, ostenta simplicidade. a mistura de belos tons não se deixa confundir apesar da não definição, expira características próprias sem a necessidade de provar qualquer coisa, não precisa de conceitos formados. É coisa de pele, minha cara transparência, coisa de calor, afago. Coração palpita em verde, em ver-te, e saudade é quando meus olhos não te alcançam, e doem de tentar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

canibália_19 (flickr.com/sisartori/3815159783)

Seus medos e angústias (problemas, preocupações, contas, obrigações) eram guardados em amuletos sempre que tomada pela música. Rotineiramente entrava em cena como um corpo arrastado, envolvido por cordas de aço imperceptíveis que pareciam tentar partir a fina cintura, e em uma velocidade que machucava os olhos mais atentos, até que caia segurando porções do ar com os punhos cerrados e concentrando todo o corpo para respirar apenas pela pele. Não tinha nojo do chão, pois como ritual (advindo de uma obrigação) era seu corpo que deslizava acima de um pano úmido pelo palco empoeirado, e quando o tempo era curto ou inexistente ela fingia que o pó era resto de estrela e acariciava o chão (na queda) com ainda mais emoção.

Enquanto estava no chão, sem música, seus amuletos brincavam de libertar e prender medos e angústias, até que outra corda, que nunca existira (também), levanta o corpo desprovido de massa ao som da primeira melodia. Desde que a música toca seu corpo, em concomitância o sangue ferve, evaporando por cada poro que se encontra exageradamente aberto, exposto. O vapor, avermelhado, abafa todo e qualquer pensamento que por ventura possa se formar. Sua única preocupação é com o coração, arritmias e paradas, mas seu coração é forte demais, resiste a qualquer pulsação, acostumou com a dança.

Quando dança, desliza, não consegue pensar (na verdade nunca tentou). Dinheiro e maquiagem se tornam a mesma coisa: nada. Se sente nua flutuando entre notas musicais, não existe terra nem céu, o mundo é seu e se pudesse pedir algo a Deus naquele momento, não hesitaria nem por uma nota musical, pediria para a música nunca acabar, para que sua alma estivesse sempre alimentada e leve, capacitada para o voo plenamente.

domingo, 9 de agosto de 2009

conversa

Um casal se encontra em um sebo, enquanto o rapaz se esforça para fingir que não reconhece a moça, esta, segurando um bilhão de lágrimas, começa a proferir pensamentos que por muito tempo foram só seus:

_Então, eu te amo, apenas isso. É o que queria ouvir? Será que era exatamente isso que queria ouvir? Eu sei que não. Você sempre preferiu quando eu dizia que não te amava, só para poder tentar me conquistar um pouco mais. Agora olho para sua expressão muda e digo que te amo porque tenho a certeza de que essa é a única maneira de fazer você ir embora (sem ter que mentir). Tudo se tornou tão previsível, tão corriqueiro... passei a amar essa estabilidade... e se agora, ou algum outro dia você resolver inovar e recomeçar a encenar um amor de feriado, como tantas outras vezes, estará tudo acabado. Você é minha antiguidade mais rara, a peça de entrada de meu museu que estranhamente pode ser tocada por qualquer visitante, exceto seu dono. Não se preocupe em tentar encontrar voz para dizer que não sabe o que me responder, você nunca soube ao certo. Ah, me parece fascinante como a distância de uma montanha para um abismo pode ser tão ínfima. De alguma maneira você estará sempre comigo, me dando força, essa foi a única parte sua que restou. Eu te redesenhei para poder amar uma pessoa íntegra e agora eu não posso te ouvir porque demorei tempo demais te moldando para permitir que você se destrua mais uma vez. E se um dia me amar escreva um poema em um papel rabiscado e jogue-o, ainda inacabado, no mar.

Depois de tudo ouvir, o rapaz que vestia uma camisa azul celeste, sem querer, deixa cair uma lágrima do olho esquerdo e dois livros de poesia de Manoel de Barros, tropeça no degrau e sai do sebo. A moça, ainda em choque, vai a procura de seu livro, agora estava pronta para "desconhecer" seu passado.
algumas vezes penso em criar um amor para poder escrever centenas de cartas desesperadas, escrever sobre meu sábado à noite, encher de detalhes, sabendo que o suposto amor vai ler com desprezo, com preguiça, vai ignorar todo e qualquer esforço que eu faça para chamar a atenção ou surpreender.
deve ser bom ter um amor criado para não se sentir desamparado domingo meia noite e segunda de manhã cedo, criar um amor que quando começar a errar, quando começar a machucar, se possa usar uma caneta para consertar todos os defeitos. um amor que me faça escrever horas em um papel de 7 centímetros quadrados para depois jogá-lo fora, como se o amor morasse no lixo.
mas o amor não mora no lixo, mesmo o inventado, ele nunca vai ler todos os bilhetes, seria inviável. e se, por acaso, eu tirasse um pedaço meu e criasse a partir dele um amor, será que daria certo? não que eu queira um amor a qualquer custo, não quero um amor de verdade, quero uma brincadeira sob controle que me dê mais evasão, me dê pano para manga, um devaneio de carnaval duradouro.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

não é um poema do dia 29/07/2009

Azul, gaivota, manchas brancas macias.
Seria poesia,
poema sem rima que canta:
palavras bonitas ao acaso.

falta de sentimento fere o poema,
vira poema morto, sem sopro.
Tristeza e alegria somem
fundem-se
equilibram-se (e se anulam)

Pele, cheiro, gosto:
As repetições que sozinhas soam novidade.
Ser novo,
tornando-se velho.
As pessoas continuam sangrando, como se sobrasse sangue em seus corpos. Todas estas pessoas estão sangrando, desde as que apenas sangue são, de tão rubras, até as que pareciam ser apenas músculos secos, detentores de uma imaginável força bruta.
Quando o sangue começa a jorrar, a inundar o salão, acredita-se que se torna visível o que nem nomeável é, mas, neste momento, hão de aparecer corpos que fingem não ter sangue nem olhos, nem sensibilidade, nem tato, agindo como alma que nada teme e nada sente.
Algumas vezes, depois de muito sangrar, falta sangue. A pele empalidecida prenuncia fraqueza, os músculos secos começam a virar farelo e o que era corpo, íntegro, torna-se líquido escoando pelas gretas encontradas.