terça-feira, 3 de novembro de 2015

pareciam litros de leite derramados sobre a cama, parecia uma assombração, parecia um lençol comprido que nunca termina. parecia preencher tudo, parecia que tinha espaço.
parecia que há muito tempo não se vivia, pulsos estáticos, retrato na parede.
é porque era ela, porque era eu.

domingo, 27 de setembro de 2015

insônia 27/09/2015

tenho tendências por líquidos, gotas, quedas. repito, em mais um expressar, que tenho tendências que se revelam em mim a todo instante. nem são mais revelações. me sinto cansado. me sinto líquido. ao me sentir cansado me vejo como um líquido escorrendo para todas as direções e me apavoro. o cansaço dói, me esvai. o vazio de mim, esse sentir que me ronda - me torna vivo, me lembra a morte. a morte, a brevidade de tudo. olho ao redor e vejo tudo desmoronando. sinto vontade de chorar. as lágrimas começam a vir, mas também se esvaem. o vazio que era de mim passa a ser ainda mais incabível, de minhas próprias lágrimas que não conseguem sequer completar minha figura líquida. sabe quando qualquer movimento dói? pior: sabe quando ficar parado também é fazer um movimento e dói ainda mais? minha tendência é ser líquido, gotas, quedas. me vejo riacho, me vejo em barulho constante debatendo entre pedras para no fim cair. no cair eu deságuo dentro de uma imensidão de possibilidades já obsoletas. eu achei que era o porreta, mas o achismo faz parte desse ciclo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Dois olhos que olhavam dois olhos e foram muito além disso.

Era uma terça-feira. O dia amanheceu vagaroso e o sol se espreguiçava entre nuvens carregadas, nuvens que olhavam com bravura a terra ameaçando um temporal. Levantou-se, banhou-se calmamente, estava feliz com o tempo nublado - não chegaria encharcado de suor -, alimentou-se com qualquer comida leve da porta da geladeira e entrou no carro - herança da família. Dirigiu como quem estava indo para uma viagem de férias: leve. Chegou ao hospital, estacionou no local mais perto possível e decidiu desafiar a previsão do tempo: o guarda-chuva ficou no porta-malas. Andou saltando os rejuntes, pois isso lembrava dias felizes de sua infância. Cumprimentou recepcionistas, pacientes, seguranças e impacientes, nada diferente do habitual, exceto pelo sorriso que apesar de tentar ser discreto deixava alguns dentes de fora. O dia estava tão equilibrado que dentro de si sentia um medo do céu desabar, momentos muitos felizes sempre eram acompanhados dessa sensação, pois a paz de espírito sempre se assemelhou a um elefante se equilibrando num barbante. Antes de chegar à enfermaria o telefone tocou -havia esquecido de pôr no modo silencioso-, as bochechas enrubesceram e se culpou pela grosseria: era o João. Antes de atender, viu um filme passar em sua mente. Lembrou de quando conheceu João na fila para comprar ingressos para o show "Fa-Tal Gal a Todo Vapor", lembrou exatamente do João chegando e pedindo para comprar seu ingresso pois a fila estava grande e tinha medo de não conseguir comprar, de todas as desculpas inventadas pelo moço sem relógio para o fatídico atraso, do sorriso fácil e do tapa no ombro que calou qualquer não. Lembrou de ter respondido "posso sim, só vou comprar um ingresso e o limite são dois", de ter sentido vergonha pela sensação de falar bobagem em momentos como esse, lembrou do João dizendo que também só queria um, que iria só, que precisava ver Gal sozinho. Lembrou também do coração palpitar: iriam só pelo mesmo motivo, e não sabia mais se estaria tão só assim. João era muitas coisas, e apesar de João conversar muito, não deixou telefone. Passaram dias. Lembrou de chegar no show e esquecer de Gal, a tal, Fatal, iniciou a procura por João que a cada música parecia mais distante. Caminhou até a beira do palco, tocava "Fruta Gogoia", em completa excitação fechou os olhos, ficou tonto, olhou para o lado e notou uma luz forte, a luz do palco refletindo uma pele morena: João. Fincou sua bandeira atrás da pele morena, começou a tocar "Luz do Sol" ao cheiro de pele queimada e coração fraco. A enfermaria começou a rodar, encostou-se na parede e atendeu: "João?!?" do outro lado um silêncio ensurdecedor. "João? Não estou ouvindo? João?" Então uma voz trêmula de criança finalmente respondeu "Por favor, me ajude, sou filha do João, meu pai desmaiou e não responde, não sei mais o que fazer. Achei seu número na carteira dele. Me ajude, por favor, me ajude". O chão sumiu. Há 20 anos não tinha notícia do João. Então o João tinha uma filha, o que aconteceu nesse abismo infinito de 20 anos? Respondeu o mais rápido que conseguiu: "Onde vocês estão? Mandarei uma ambulância!". João era diabético, e devido ao Alzheimer, tomou a dose dobrada de insulina. "Síncope secundária à hipoglicemia, ele é o que seu doutor?", não havia resposta, haviam apenas dois olhos grandes que tentavam se situar. A filha, assustada, perguntou se o pai ficaria bem, quem seria o dono do número encontrado na carteira, chorava. Respondeu que ficaria bem, que por sorte o hospital era perto de casa e a ligação foi feita de imediato. "Como você conseguiu ligar tão rápido, se você não sabia meu telefone?" "Doutor, quando ele desmaiou lembrei que há 1 ano atrás estava mexendo na carteira dele para pegar o dinheiro da pizza e encontrei esse número. Perguntei a ele de quem era e porque não tinha nome, ele me disse que era bobagem, que era um número antigo e que nem sabia se funcionava mais, mas que um dia iria ligar e me diria o que encontrou do outro lado da linha". Conversou longamente com a criança, apesar da dor no peito, ela disse que eram apenas os dois na cidade, a mãe sumiu no mundo. João acordou, a filha de pronto se deitou sobre seu peito e voltou a chorar com os olhos bem fechados. João olhava atento ao redor tentando reconhecer onde estava e quem era o médico com o rosto manchado por lágrimas, pediu os óculos, franzia a testa, mas os óculos estavam em casa. "Oi João, você teve um desmaio, está no hospital. Como você está?" "Estou bem, o que aconteceu comigo? Você é o...?". O silêncio ocupou todo o quarto, não cabia nenhuma palavra ali. Enquanto os olhos da criança se fechavam ao máximo para aguçar o tato, os outros olhos do quarto se penetravam, como quem finalmente encontra a última peça do quebra-cabeça que estava escondida debaixo da cama. "Por onde andou, João?"

“Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não me importa, honey
 Minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Baby, honey baby"

sexta-feira, 24 de abril de 2015

contra corrente

Me identifico com os fracos, com os loucos, com o estranho e com o sujo. Reconheço minhas limitações, minha auto-sabotagem e meu desejo (auto-criticado) de ser mais um na multidão. Por ser fraco, tenho inclinações para me solidarizar com a força que falta no próximo, e me esqueço da minha própria falta. A loucura (por ser tão normal) se passa sem ser notada por mim, tenho fraqueza para identificar os limites de sanidade- tendo a crer que falta senso no "bom senso". 
Sou da minoria, o que por si só me torna grande e me torna maioria - tendo a me apoiar nos defeitos, pois há horror em ser da real minoria (chamados de maioria) que prefiro chamar de dominantes - como na genética. Ser da real maioria e me orgulhar disso me torna um tanto sujo, andando com porcos e comendo farelos.
É ser estranho. Me assumir contra corrente é me pôr como estranho. Conseguir conter meus impulsos de normalidade é estranho. Amadurecer a existência como estranheza não me exime de sofrimento - multiplica-o.