cerrou os olhos e olhou em frente -era como se ver num espelho. piscou duas vezes -mania que criou para tentar acreditar na veracidade de grandes encontros. se viu intacto -era a sua mãe. quis gritar bem alto. quis pedir ajuda. quis pedir para que fosse embora. quis dispensar qualquer vínculo materno. quis tantas coisas que ficou imobilizado. olhou bem para o fundo daqueles olhos castanhos -que tanto pareciam seus. olhou com mais força, apesar de não ter utilizado nenhuma contratura muscular a mais para tal. permaneceu imóvel. viu uma lágrima se formar naqueles olhos e não soube de quem eram aquelas grandes gotas brilhantes. diante da dúvida, acolheu as lágrimas e chorou por elas. sentia escorrer lágrimas vermelhas e densas. sentiu que se esvaia e a sensação final era de leveza. os olhos castanhos cresciam, tomavam conta de si mesmos e do resto da moldura. uma formiga alcançou o espaço entre seus dedos e picou. aproveitou para sentir cada pontada, sentir o prurido sem friccionar. aproveitou para sentir qualquer sensação diferente da imobilidade do reflexo de si mesmo. enganou o peito com a dor da picada. tentou se enganar. nada poderia se sobrepor aos seus próprios olhos em moldura de rosto materno com lágrimas vermelhas.
a figura então começou a se tornar pálida, pálida, pálida, pálida, papel. a figura se tornou papel de si mesma, vazio de linhas palavras rabiscos, sem expressão -apesar da idade avançada. chegou, enfim, o momento em que a consciência se perdeu, duas estátuas se olhavam, completamente imóveis, completamente fora de si. teria agradecido por ter perdido a consciência, mas a consciência lhe faltava para o agradecimento.
a moldura começou a ficar laranja, vermelha, fogo. começou queimar. queimou aos poucos, sem pressa de ir embora - e foi.