terça-feira, 15 de outubro de 2013

come come to me // run run to me

cerrou os olhos e olhou em frente -era como se ver num espelho. piscou duas vezes -mania que criou para tentar acreditar na veracidade de grandes encontros. se viu intacto -era a sua mãe. quis gritar bem alto. quis pedir ajuda. quis pedir para que fosse embora. quis dispensar qualquer vínculo materno. quis tantas coisas que ficou imobilizado. olhou bem para o fundo daqueles olhos castanhos -que tanto pareciam seus. olhou com mais força, apesar de não ter utilizado nenhuma contratura muscular a mais para tal. permaneceu imóvel. viu uma lágrima se formar naqueles olhos e não soube de quem eram aquelas grandes gotas brilhantes. diante da dúvida, acolheu as lágrimas e chorou por elas. sentia escorrer lágrimas vermelhas e densas. sentiu que se esvaia e a sensação final era de leveza. os olhos castanhos cresciam, tomavam conta de si mesmos e do resto da moldura. uma formiga alcançou o espaço entre seus dedos e picou. aproveitou para sentir cada pontada, sentir o prurido sem friccionar. aproveitou para sentir qualquer sensação diferente da imobilidade do reflexo de si mesmo. enganou o peito com a dor da picada. tentou se enganar. nada poderia se sobrepor aos seus próprios olhos em moldura de rosto materno com lágrimas vermelhas.
a figura então começou a se tornar pálida, pálida, pálida, pálida, papel. a figura se tornou papel de si mesma, vazio de linhas palavras rabiscos, sem expressão -apesar da idade avançada. chegou, enfim, o momento em que a consciência se perdeu, duas estátuas se olhavam, completamente imóveis, completamente fora de si. teria agradecido por ter perdido a consciência, mas a consciência lhe faltava para o agradecimento.
a moldura começou a ficar laranja, vermelha, fogo. começou queimar. queimou aos poucos, sem pressa de ir embora - e foi.
sentado, olhos cerrados, pupilas dilatadas, pele quente, boca entreaberta, virilha seca, coração tentando manter o auto-controle
passo dias assim
passo dias esperando que você se derrame pelo meu ombro
que evapore pelos poros
que entre pela pele
estou esperando que derrame alguma poesia por perto
estou com sede
quando te falei sobre minha vida não queria ouvir seus relatos mais banais
inventa uma história inacreditável e me faz acreditar
me faz acreditar em seus olhos abertos
me força a fechá-los

domingo, 13 de outubro de 2013

seu sofrer

Estávamos os dois cansados, exaustos, degradados. Éramos um pó de nos mesmos, já misturados e indefinidos após tantas declarações, denuncias, quedas e tropeços. Olhávamos-nos e não mais nos víamos - éramos desconhecidos-invisíveis em campo de batalha, lençóis de seda. Seu sussurro soava a grito, eu me fingia de surdo - e o era por não compreender um olhar sequer. Éramos um campo de batalha, armas de nós mesmos. Éramos nosso próprio fim com ultimo suspiro, último pedido, com peso escuro na visão. O cheiro enjoa, o toque machuca, e a falta de se sentir um só se completa em ser a falta de ser algo.
Tudo me doía tanto, que a dor de dizer vencia qualquer vontade de estar bem - de resolve o irreversível, de sanar a separação de um só em dois. A dor paralisa. Seus olhos me paralisavam. O toque, o cheiro, o tudo.

Mas era sábado quando você reclamou de dor em ombro, balbuciou qualquer coisa como quem não consegue dormir, e apesar do tom tranquilo, parecia pedir socorro. Eu queria muito te dizer que muitas outras coisas me doíam mais do que qualquer ombro, que doíam ainda mais profundamente. Queria falar da dor do peito esquerdo que se irradia -como maré cheia- pelo corpo todo. Calei. Virei-me. Vi seus olhos pequenos e profundos pedindo ajuda, eles eram cúmplices daquele tom de voz - percebi que não conseguiria dormir com olhos tão doídos sobre mim. Me senti ainda mais fraco. Calado e de olhos cerrados me ergui sobre suas costas, aqueci minhas mãos, comecei a massagear os ombros, os braços, o dorso: do pescoço ao cóccix. Mãos firmes, tentando evitar que o carinho e o se amor esvaíssem por entre os dedos, tentando a todo custo manter uma integridade - foi quando percebi que a sua menor dor tem o poder de se sobrepor a todas as minhas grandes dores, que era mais fácil lidar com o inferno a lidar com seu sofrer.