quarta-feira, 28 de julho de 2010

n'água

vou mergulhar.
é fundo? é sujo?
é água. vou mergulhar.

mas não sei se pulo,
se me dissolvo aos poucos,
se aprecio de longe
esperando o sol sair.
talvez tenha vergonha,
não, que bobagem!

posso pular de peito,
fingir que estou sem medo,
e nadar como se tivesse fôlego.

ou
posso criar um texto,
fingir que sou um peixe,
contar que saí do mar.
posso ser uma singela molécula de dois átomos: puro cloreto de sódio.

preciso parar de evadir,
mas o que restaria de mim?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Chico me contou que tinha mais samba. resolvi acreditar. e sim, tinha mais samba. é bom ter mais samba, é bom ressambar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sabe quando uma torre enorme cai?

-e quando a torre era a maior de sua aldeia, quando parece destruir tudo ao redor, quando cai que nem faz barulho, que nem dói, que nem se acredita...

sábado, 3 de julho de 2010

adeus

alguns fios brancos refletiam a luz fraca da sala de jantar, era mesmo o sorriso que iluminava o ambiente, não existia lâmpada tão forte e tão alva. assim como há anos, era uma noite qualquer, mais um sorriso, mais pão, mais café. tudo se somava em quantidades ordinariamente comuns. a esposa nem deu o beijo de despedida, era uma viagem curta, abraçou-o e deu sua bênção, bênção essa que só quem é mãe pode dar. ungido, seguiu iluminado por uma lua turva e por amarelos-postes irregulares, seguiu estrelas que nem se via, era chuva. abençoado mais uma vez, por chuva, se foi, sem pensar em muita coisa, não passava de uma viagem comum: rádio de fundo, pé no acelerador, tosse, espirro, sono.
sinto em interromper a história, contudo acompanhei pedaços, talvez eu tenha cochilado, por fim acordei . apesar das telhas, portas, janelas, paredes, cobertas, e todas as demais barreiras físicas, me senti à noite no deserto. não me senti em pé, nem sentado, eu era um ponto que congelava no deserto, acordado em pleno dia, e como qualquer ponto não existia posição. as pernas, mesmo sem saber que eu andava, fraquejavam, percebi o desequilíbrio ao observar o chão se aproximando e se afastando, tudo muito lento, afinal não se rasga um corpo por completo de uma só vez.
o carro, a terra, o vento, tudo chegava ao mesmo tempo no meu rosto, minha face congelou. não movia um músculo: enquanto o vento mantinha meus olhos abertos, o farol do carro me cegava e a terra arranhava tudo que poderia ser visto. o acidente chegava cada vez mais perto de mim, até que entrou, se apossou, capotou em mim, rasgando o que podia e arranhando o que aparentemente estava ileso.
são tantos olhos em cima de mim, nenhum me vê. não estou ali.