sexta-feira, 26 de junho de 2009

acordei não me importando, com vontade de um frio glacial e uma vela em chamas queimando cada pedaço de pele que me cobre, com vontade de sentir na pele cada chama, cada ponta, cada lâmina, cada farpa e sair cheio de cicatriz, histórias, falsos contos.
acordei querendo ver o dia passar enquadrado em uma janela, em uma porta, colorido por um vitral, através de um raio-x, negativos de velhas fotografias.
acordei sem querer acordar, querendo viver aquele sonho comum até morrer e poder renascer em mim mesmo.
acordei com um vento frio e um feixe quente de luz que me jogava na cama e me arrastava para a porta.
acordei e enfrentei o chão entapetado de gelo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

cartão postal na véspera de natal.

Meu bem, ainda estou viajando, não cheguei ainda onde pretendo chegar e não sei se um dia poderei estar lá, sei que ainda me locomovo, enquanto posso. Aqui não faz calor nem frio, é tudo muito ameno sem você, sua proximidade que me põe em brasa e sua pequena distância que me congela agora não mais agem sobre mim, a distância é demais. Novidades surgem a todo momento e se sobrepõem de tal maneira que não sei dizer se são independentes ou se é uma coisa só, um só doce-monstro-gigante a tentar me assombrar enquanto o saboreio. A música está acabando aos poucos e o Sol se move lentamente, como quem se sacrifica ao subir uma montanha de lixo hospitalar, mas sabemos, é a única coisa que sabemos afinal, que depois ele despenca bruscamente com todo seu peso e brilho espalhando escuridão. Agora anoitece e amanhece de uma maneira diferente, os dias não parecem tão longos nem as noites tão curtas, eles se equilibram e nada parece ser tão lento ou tão demorado. Meu bem, estamos tão longe, mas nunca senti seu cheiro como sinto agora, alguns dias acordo exalando você e tentando internalizar tudo de ti que consegue sair de mim, daqui. Meu relógio começou a brincar de corrida, de ir e de voltar, resolvi guardá-lo naquela mochila de inutilidades até que sirva para me alimentar, junto com todos os outros objetos de valor (eles se tornaram inúteis como barras de platina no deserto). Agora estou só, nosso cachorro morreu e tem mais de duas semanas que não vejo espíritos. Alguns momentos me sinto só, mas passa, eu sempre gostei de estar só, talvez eu consiga isso de volta para mim. Estamos longe, não sei se sinto saudade, se amo, se gosto de você. Sinto sua falta.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

à vontade

conhecer como se monta castelos de areia, cada grão. fazer os contornos, barreiras que protegem das ondas, lagos artificiais, beleza que se vai com a maré alta. e depois de tudo que se tem feito, depois de todos os grãos, de todas as curvas e de todas as barreiras, a noite se aproxima pronta para desmanchar tudo e dar a areia nua para o menino que caminha beira-mar ao nascer do sol, uma chance de mais um castelo, de nenhum castelo, de fortalezas, casebres, deserto.

sábado, 13 de junho de 2009

carnavalizar

Carnaval, música alta, asfalto sublimando, pressão completamente incalculável. Os corpos molhados se uniam e se repeliam, poros abertos como narinas ofegantes, pedra, flor, espinho. datas ou dados temporais não tem validade, importa apenas a pele, poucas palavras, nenhum entendimento.

Um grupo de burgueses atravessa a rua com faixas, bandanas e panfletos cuspindo números, os malditos números que recordam horas, dias, proximidade do fim. algumas pessoas começaram a re-engolir os números que tinham vomitado horas atrás. Os burgueses, que gastam mais tempo e dinheiro com animais do que com pessoas, pedem por paz e pelo fim do carnaval, mostram gráficos, fórmulas e projetos do que poderia ser feito com tanto dinheiro: outro carnaval.
A passeata dura trinta e sete minutos, depois dela alguns manifestantes se deslocam para camarotes e tomam conhac com o dedo mínimo erguido. as pessoas voltam a vomitar os números e a banda continua a desarmonizar as notas. Cantam músicas agitadas para pedir calmaria, sair no jornal, ganhar algum dinheiro. Absolutamente normal, comum, banal, irreparável.
Os males se estendem, ocupam o ano, o bem regride.

Maria, moça dos livros, mora na porta do carnaval, costuma ficar triste nesta época do ano (não que seja feliz o resto do tempo... mas é que nesse tempo ela murcha, se afasta dos livros, briga com o próprio sorriso). Aprendeu a fingir que carnaval era domingo de páscoa, passou a comer chocolate, atravessar a rua com naturalidade, se fazer de surda.
Em um dos domingos de páscoa foi comprar chocolate, tropeçou algumas vezes, não pediu desculpas e nem desculpou ninguém, afinal sua rua estava deserta e um homem gritava em um carro grande revestido de luz e som, já sabia identificar a música com os pés, não se importava mais. Um moreno lhe pediu um beijo, ela foi comprar chocolate, um ruivo lhe pediu um beijo, ela foi comprar chocolate, um amarelo, um moreno, uma alma, um beijo, um beijo, um beijo, chocolate, chocolate, chocolate. Diante da pouca variedade da vendinha, normalmente, comprava o meio amargo, ficava feliz por comer uma barra inteira e não enjoar, às vezes comprava de outros sabores, mas era passa-tempo, a água na boca era sempre proveniente do meio amargo.
Quando o domingo, que amanhecia e crepusculava algumas vezes, se despediam um meio dia, começava um dia já com o sol reinando, a semana que começava na quarta, nada de belas luzes coloridas a brincar de se esconder entre edifícios, era assim a curta-quarta depois dos domingos. Nunca acontecera diferente: almoço, cochilo, música lenta, café, cabeça nas núvens pensando no quase-eterno domingo-irritante que passava a ser agradável e doce.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

quando se tem um mundo(de idéias) para escrever e uma expectativa(média) de 71 anos: INCOMPATÍVEL.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Admiração: hoje, ontem, há meia hora atrás, acredito, acreditei, acreditei, que não há sentimento mais nobre e mais bonito. quando falo de admiração busco as raízes mais profundas de tal expressão, não falo de uma relação de fã-artista, nem de culto à miss universo, é a admiração que vem após o conhecimento, após a convivência, após a aproximação. porque existe promessa de dividir uma parede, um texto, histórias, fatos, ficções e paixões de carnaval.
Admirar: olhar para a pessoa e ver tudo aquilo que você acha fascinante e inalcançável sendo realizado naturalmente.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

dilacera os calcanhares com dois punhais: um afiado, outro cego.

sábado, 6 de junho de 2009

brinquedos reais são fragmentos

me rasgou ao meio, sabia o que dizia, tinha a voz firme, pareceu ter ensaiado o que dizia há alguns séculos, elevava a intensidade sonora com a certeza de que era convincente, convicto, tinha absorvido 350 páginas semanais e o único luxo aparente era uma aliança, simples, de ouro amarelo. As palavras jogadas me aproximavam do chão, ou aproximavam o chão de mim, difícil saber o que de fato se movia naquele momento. Seus olhos, ditos miopes, apequenavam-se por detrás de um par de lentes, era pura concentração e meus ouvidos enxergavam. Ao passar dos segundos começava a ter raiva do tempo, de sua passagem, raiva do ser que falava as coisas que eu tanto fingia não saber e tinha a desculpa, por nunca ter ouvido diretamente, de não saber. Fruto da raiva comecei a morrer, me desfragmentar em agradecimentos, afinal brinquedos só são reais quando desmontados.

Obrigado, Wilson.