quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

muito sentido

_A busca constante por novidade pode ser simplesmente o desejo de uma rotina.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

14 nov

Um tornado se aproxima, ela sentia como uma brisa que lhe alisava a pele pálida com agressividade. Mas nada contava a ninguém, sabia que nada podia fazer a não ser esperar. Temia que qualquer palavra a fizesse permanecer vazia, mesmo que o silêncio não a preenchesse. Passaram-se dias, talvez uma semana (não percebeu quantas vezes o sol se pôs) na espera ansiosa -com tranquilidade de máscara e alma relaxada- esqueceu-se de comer, apenas bebia água pacientemente e esperava que a brisa lhe arrancasse logo a pele, lhe transportasse para algum lugar com sentido, lhe beijasse a face, lhe deixasse ali mesmo -sem lhe mover os pelos do corpo.
Percebeu o passar do tempo pois o calor lhe tirou todas as peças de roupa, pouco a pouco, até que se encontrava nua a espera de qualquer possibilidade.
Essa era a sua causa: a possibilidade. A perspectiva de algo lhe causava como nada mais. Sempre lhe foram mais importantes os objetivos, desejos, possibilidades. Contudo, algo seu pai havia lhe ensinado ainda na infância "Os grandes acontecimentos são sempre anúncios de grandes catástrofes", ensinamento esse que sempre tentou negar, mas que sempre foi uma constante em seus pensamentos. Chegou a escrever na contra-capa de um livro de Orides Fontela:
"A possibilidade seria minha salvação,
mas ela se realiza em catástrofe"
Logo percebeu que suas aspirações estavam fadadas ao fracasso: ou seriam realizadas (mortas) ou demandariam muito tempo e perderiam a "graça" (cansaço, morte). Passou então a admitir o peso e a predisposição do/ao precipício e decidiu se entregar à primeira brisa que beirasse a tornado, ao primeiro sopro encorpado, a qualquer -repito- possibilidade.
Decidiu que por mais que estivesse fadada ao fracasso, permitiria que pequenas chances/momentos/realizações a fizessem (apenas pela possibilidade de ser feita).

No fundo (e em todos os demais planos) era humana e esperava nua, sentada sobre os próprios pés -como uma gueixa- que algo a lavasse dali sem qualquer vestígio do que fora antes -e seria obediente, solícita e leve.

novembro 2012

Sabe quando acontece um encontro e várias coisas aleatórias se ligam, se explicam, se clareiam? Era Almodóvar, numa versão calma até que a cena se perde em fotografia e começo a cantarolar mentalmente um cover de Cat Power, e Lars Von Trier surge em minha mente mais límpido e puro do que qualquer presença corpórea.
Há tanta beleza nas dores. Porque? Na dor lacinante, aquela em pontada, a dor que só se sente quando se está no fundo, muito dentro, in, profundo.
A grande sacada de que é tudo um vazio de merda que uma vez você me contou em segredo, talvez como aqueles segredos de amantes que eternizam a relação -mas não. Apenas foi nosso primeiro ponto de afastamento e acho que é de uma ironia estúpida. Deus não deveria permitir desencontros desta magnitude. Queria te dizer hoje que sim, que tudo é realmente uma grande merda, queria esgotar os filmes de Lars Von Trier ao seu lado só para admirar o seu respeito sobre o meu silêncio. Porque eu MUITO admiro seu respeito sobre o meu silêncio. Passaria uma vida inteira te dizendo o quão bonito é ser compreendido, do quão.
Cá estou entre Almodóvar, Cat Power e Lars Von Trier. Cá estou em silêncio, tentando me desafogar em rascunhos, estou tentando negociar -palavras por um pouco de ar.

domingo, 28 de outubro de 2012

aí você olha, se desliga. religa, se levanta e resolve que de qualquer maneira vai fazer com que seja diferente que consiga fluir que mude volte permaneça tudo sem muitas palavras.
mas acabou o não dito,
as palavras ferem o não dito.

domingo, 21 de outubro de 2012

olhinhos grandes de criança, cheios de vazio. reencontrei o manoel, e lembrei de quão bonito foi nosso primeiro encontro. uma amiga que me conhece ao avesso que me apresentou, disse algo mais ou menos assim "lembrei de você, é sua cara, você tem que ler, não consegui comprar outro, então vou te dar o meu com os rabiscos que fiz". se eu imaginasse que era você, manoel. se eu imaginasse que era você manoel eu teria abraçado ela até quebrar algo até doer até alguém gritar até chover até até até algo existir de novo até fazer algo brotar. um livro. nossa, um livro! eu nunca diria que um livro poderia mudar a vida de alguém, mesmo sabendo que a bíblia muda e eu sou contra a forma que ela costuma mudar, alguns casos eu diria que ela muda para o bem, mas lembro agora que o caso que eu mais achei que ela mudou para o bem quase termina em tragédia por conta da mesma. é isso, estou aqui com olhos grandes me lembrando de quando eu pensava tanto no vazio você chegou e (comecei a ouvir johnny cash- the first time ever I saw your face. sem condições)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

boa noite

De repente estou aqui de novo. Eu percebi depois de tudo estar em andamento, em andamento dentro de mim. Preciso te dizer que estou contente, estou muito contente mesmo, mesmo que isso às vezes me faça vomitar o que eu acabara de engolir, mesmo que isso seja tudo, que seja sempre, que seja tanto. É exatamente assim que me sinto: tudo-sempre-tanto. Sei que não é tem nada de novo, nem adianta fazer essa cara de que estou repetindo a mesma conversa.
Às vezes temo uma detenção (estou pela contra-mão). Não ria. Você bem sabe que o que me incomoda não é a detenção. A detenção é o mínimo que pode ocorrer a quem anda em contra-mão. Estou à beira da colisão frontal: iminente. Gosto tanto desse frio na barriga, mas às vezes ele esfria tanto que eu corro para a pista ao lado, me acomodo em minha mão, e vou indo... até que esquenta o suficiente para que eu busque  um posto policial para fazer qualquer irregularidade afim de mudança, afim de uma dose extra de ar. Dose? Extra? De ar? Boa noite.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

o Dragão e o paraíso

Bom dia Dragão,
depois dos ocorridos, desencontros, desses olhos grandes e miúdos, devo dizer "que fique". É sabido que você nunca foi bom com obediências, mas eu também não sei manejar os obedientes, perco a mão, não sei. Contudo, mesmo com tudo, ainda elaboro e emito essa ordem -com uma voz já fraca- "que fique". Mesmo sabendo que o ficar não é mais uma opção. O ficar se tornou um desejo irreal, mas mesmo tanto, sendo... eu digo "que fique". Sabe, até arranjei um espaço, porque bem sei o quanto dragões são espaçosos, sei bem como não cabem em qualquer cantinho -exigem uma totalidade de espaço incabível onde apenas assim cabem.
Às vezes sinto o cheiro de sua pele, um cheiro que vai ficando forte, vai tomando todo o cômodo, vai adentrando por minha pele, como quem quer se acomodar em mim. Me toma por completo como uma esperança/crença de que seja real -assim, fecho os olhos com força (com bastante força) fazendo orações com uma fé que nunca tive, mas que surge. Rezo para que seja real, rezo muito apenas para que seja real (esse apenas não é meu). Rezo para que tudo que é cheiro não seja uma mera ilusão olfativa.
Você há de saber, mas hei de repetir: não é fácil ter um Dragão. A começar porque ninguém pode ter um Dragão. Mas acima da impossibilidade de posse, um Dragão deixa um vazio enorme a cada partida. Dói, e posso repetir isso até o fim sem medo de ser adjetivado como "exagerado". É um vazio completo. É vazio, vazio. Todo um vazio que só pode ser preenchido pelo Dragão. Dragões encontram lugares nas pessoas que elas nunca cogitaram a existência. Dá calafrios pensar nisso -lembrar disso. E depois dessa descoberta do infinito vazio, do galpão abandonado, você volta, aos poucos, como quem enche um oceano com conta-gotas- e depois disso nada mais preenche.
Mas olha, preciso te dizer que apesar do deserto existe algo maior (algo maior que todo o vazio em que nada preenche): sua presença. Não existe nada mais bonito, mais comemorativo, do que a presença do Dragão, do que o seu ritual de chegada. Em completo arrepio, direi que chega leve, apesar do tamanho, da carga, e vai ocupando seu espaço. Primeiro o perfume (ainda chamo de perfume o seu cheiro natural),  que começa enebriando, me fazendo esquecer de toda uma realidade em volta, porque você precisa de todo um vazio para conseguir chegar. Quando me esqueço completamente de tempo, nome, espaço, você chega. A princípio apenas os olhos, enormes, atentos, como quem quer que eu diga que sim, que o espaço é todo seu, que eu suplique pela presença, pela morada, mas ao abrir a boca para tentar tatear as palavras surge sua mão, uma mão grande e macia, que me toca o rosto e me faz calar. Nesse momento acontece algo curioso: perco todos os sentidos. Minutos depois me encontro envolto, acolhido, com todo o espaço preenchido, e então você, cansado, dorme, como criança exaurida pela vento do mar. Então eu também cedo ao sono, desmaio. Ao acordar sinto apenas o cheiro forte de sua pele, como se ela ainda estivesse aqui, mas você já partiu -novamente o vazio, a fé cega, as orações.

-"que fique".

domingo, 9 de setembro de 2012

Morangos Mofados


Isso aqui é uma confissão do que uma vez me foi dito e apenas sorri fingindo timidez. Não por mania barata de fingir, mas por achar que o momento exigia uma timidez que nunca tive, de tão nu e tão aberto que me tornei. Agora mesmo estava lendo uma carta, não minha, não sua, não de ninguém que ainda esteja em carne e osso. Estava lendo uma carta e me vi escrevendo-a, me vi falando dessas coisas com você. Essa coisa toda é muito estranha, de ver o que você queria dizer, da forma que você nunca soube dizer, ali, descaradamente aberta a qualquer leitor. Sabe... quando você me disse que eu era muito sensível, frágil, com aquele tom de quem quer dizer “artístico”, mas que sabe que tal palavra estragaria tudo e empobreceria a comunicação... sou sim um poço de fragilidades e ando buscando me desviar dessa base frágil. Assim me sinto menos vulnerável ao mundo e aos seus acontecimentos, ao mesmo tempo me sinto menos vulnerável a mim mesmo e aos meus acontecimentos (estou começando a viver fora de mim, mas o caminho não está por aqui, do lado de fora). “O caminho é in, não off”. A gente vai descobrindo que o caminho a gente constrói andando, a gente vai se sentindo péssimo, a gente percebe que não tem planejamento que caiba numa alma perdida. “Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente desesperados”, lembra quando te disse algo parecido? Não assim arrumadinho tudo junto como em prece, mas ao decorrer dos vinhos e dos sonhos. Minha alma, ou essa alminha pequena que me consola (como preferir), busca a explicação que nunca será dada. Isso dói. Essa compreensão, mesmo que limitada, das dores e dos dolorimentos. Sim, essa palavra existe? sei que você é muito gramático, e eu literário, mas há de existir (in). Queria que soubesse o quanto achei bonita sua compreensão de como tudo no mundo me causavam dor, de como você conseguiu dizer que queria me proteger disso tudo sem parecer banal ou um personagem de conto em rascunho que faz morada no On the Road do Jack Kerouac por meses e anos e tempos. A gente nem sempre entra, nem sempre fica, nem sempre sai, pelo motivo certo. Às vezes a gente encontra tudo que queria e percebe que não, que é tudo muito insuficiente. Isso me causa uma sensação de saco sem fundo: nada preenche, nada é suficiente. Quem não sente falta de uma compreensão? A gente tem que apagar cigarros no peito, tem que dizer para si mesmo o que não quer ouvir, tem que vomitar, tem que vomitar muito. Tem que tentar encontrar flor no vômito. Tem que. Essas são das poucas coisas que me sinto na obrigação de “ter que”. Penso que algumas pessoas nasceram quebradas, como corações quebrados que vagam. Não há solução, não há conserto, e o resultado são pessoas adultas de olhar quebrado, e essa é a única forma de reconhecê-las. Na juventude algo mascara esse olhar, talvez seja a esperança de uma mudança, de um encontro, de uma compreensão, mas chega a hora em que se percebe que mesmo com o encontro, com a compreensão, com tudo mais, não há mais esperança, porque não há chances. Sei que pareço fora de órbita, tão com minhas obrigações in, tão tentando viver no off.
É chegada a hora do almoço. É curioso como existe hora do almoço e não existe a hora de, sei lá, qualquer-coisa-que-seja-mais-fundamental-para-viver do que o almoço.

É com um gosto de morangos mofados na boca que lhe deixo esse agradecimento, comentário, relato, depoimento, suspiro, desabafo. Tem muito do C.F.A. aí, da época dos morangos. Tem muito de mim, tem muito de um tudo.

domingo, 5 de agosto de 2012

mar aberto

restou um mar pra lhe contar. secaram as lagoas e os lagos, os rios e as lágrimas. mas no fim, onde o sol se põe, restou um mar, restou um oceano para lhe contar. fecha os olhos, só restou o mar, só me resta desaguar, em ti.
velho, na boa, eu só queria ir embora. o lugar é longe, faz frio, faz todos os frios. mas, na boa, eu preciso ir embora. você vive sufocado, o tempo todo, e isso sufoca mais e mais. não sei onde cabe tanta insatisfação
por hora: nenhum ciclo.
isso soa estranho.
Cacto verde, espinhos macios,
cinza.
-oi
-olá
-o que você faz?
-sou semeador.
-você semeia o que?
...
(lágrimas e chuva)
...
indiferença, penso no dia em que tu era uma palavra em um dicionário. penso no dia em que uma flor, como quem canta com o corpo, me disse que tu era o pior sentimento, que tu era o avesso do amor. isso foi marcante indiferença, desde então não paro de pensar em ti.
sempre que há tempo e oportunidade você começa a rondar por minhas palavras fracas, poucas. fui construindo conceitos, o que não é necessário, mas os criei como se cria filhos. mas fui um monstro, eu não agregava os filhos: os substituía, era impossível conciliar João com Maria, dolorosamente tinha sempre que escolher um em detrimento do outro. Hoje o sorriso me disse que acreditava piamente em você, eu apenas duvidava de sua existência, tenho argumentos convincentes, até ganho debates, mas não convenço ninguém, nem a mim mesmo.
chego ao pensamento onde quem é indiferente não o sabe, nem o pensa, nem ninguém sabe, nem pode saber. quando alguém souber perde o encanto, o significado, a significância.
no fim do dia, após dormir enquanto o sol estava no ponto mais alto que poderia alcançar (de acordo a algum referencial que ignoro), descubro que esse foi tema de reflexão em uma sala de aula. o sono e a dor de cabeça me impediram de sentir um arrepio de momento, mas rasgaram minha boca em sorriso.
ai indiferença, se tu existir de verdade me mande uma carta e um beijo: de despedida.

domingo, 29 de julho de 2012

olhos grandes e gordos

_Sara, sinto que existe um ponto neste momento. sinto que preciso escolher se devo ficar antes ou depois dele. sim, Sara, estou em cima dele. mas é por pouco tempo- me foi ordenado que me decida, caso contrário me empurrariam e eu não sei para que lado cairia. acho que preciso escolher alguma coisa. você sabe, sempre te digo isso: escolhas sempre são feitas, adiá-las, por exemplo, é uma escolha. mas não me canse com essa minha velha conversa porque tudo que está fora desta cama me cansa hoje. é como se tudo estivesse se equilibrando em minha cabeça enquanto eu me equilibro em um mísero ponto. quanta injustiça, quanto cão. que inferno. inferno, inferno, inferno, inferno. e ainda faz calor. não ria de minha cara, está cansativo manter alguma ordem, manter um rosto minimamente íntegro. eu queria que você me ensinasse a desintegrar esse ponto ou aprender a resolvê-lo com esse seu sorriso cético ou a me levantar levemente após tropeçar nesse ponto, nesse maldito ponto que parece ter a função máxima de me irritar. não ria. pare. não, gargalhadas não. você é incurável. você sabia que você é incurável? é tão gostoso conversar com seu rosto, com suas expressões, logo logo você diz algo que vai me abalar pelo resto da noite. você é incurável. eu não vejo cura para uma falta plena de doença. não se esconda por debaixo do cobertor, você não tem mais a fofura de quando tinha 4 anos. estou me recordando quando você colocou Love Me Tender na versão de Norah Jones e me fez chorar parado olhando para seus grandes olhos durante horas, naquele dia não consegui nem andar em sua direção. porque você faz isso? você cria pontos, vírgulas, você exclama pontos, interroga vírgulas, eu nem percebo enquanto você sai modificando tudo ao redor e sempre me deparo com o inesperado, com o irreal. sinto que existe um ponto neste momento, fora da cama. eu gosto de estar trancado em lugares reservados e atualmente gosto de estar nesta cama com porta trancada e janela aberta. gosto que o telefone esteja na sala gosto do ventilador ligado, lento, pouco barulhento vejo seu rosto tentando me interpretar e logo em seguida cansado de mim sem o mínimo esforço de demonstrar atenção. já houve esforço? sempre pensei que você fingisse bem, até sugeri que você tentasse o teatro. era tudo verdade? eu não consigo acreditar. você está, mais uma vez, com esses olhos grandes e gordos, me fazendo falar de um nada, como se nada existisse fora dessa cama. basta eu colocar todos os pedaços do meu corpo aqui que nada mais me atinge. você passa a ser meu único ponto, eu passo a não pensar mais no ponto como um problema, como uma decisão, apenas espero que me empurrem que me levem para qualquer lugar, apenas fico em cima do ponto.


_as pessoas podem se habituar ao horror da vida real – ou não.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Não vou soltar sua mão, me é lícito dizê-lo porque é a única coisa que posso fazer agora: me segurar em qualquer ponto de apoio que me impeça de cair. Olha lá para baixo! Vê os pontos vermelhos-amarelos-laranjas? A realidade é fogo, meu signo é ar.
Não posso soltar. Sabe, às vezes as pessoas vivem em outra realidade,
às vezes as pessoas estão em outra sintonia,
daí chega alguém que é de terra, principalmente signos de terra, e insistem em contar da realidade comum, do que estamos acostumados, e contam,
e exigem compreensão
e insistem.
Eu sou de ar, sabe. Tem coisas que a gente não tolera, não suporta, a gente surta.
Sim, passamos de lunáticos a surtados.
Culpa da terra, e fogo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vai ver foi isso

LittleTrouble, estava aqui pensando, lembra de como nascemos? De como tudo parecia tão fora de ordem, tão divertido. Eu sorria e estava falante, você me olhava fundo e falava coisas para que eu permanecesse ali, sem saber você que eu estava tonta, que eu não conseguiria levantar mesmo se quisesse. Não lembro se queria. É tão bonito lembrar do acaso, da maneira despretensiosa que não trocamos telefone, que não trocamos sobrenome, que nos deixamos soltos no espaço como quem crê que haveria reencontro, como quem crê em destino, em sina, em nada.
De repente tínhamos música, passamos a viver na noite, passamos a não dormir, chegar com olheira em todos os lugares, emagreci, comecei a definhar. Não sei delimitar quando mas em um certo momento me encontrei de frente para o espelho, ainda embaçado pelo banho fervendo, tentando decifrar um rosto úmido de água e lágrimas. Sabe, eu nunca entendi a evolução de todas essas coisas. Eu não vi nada acontecendo, lembro de fragmentos. Dizem que o sono é fundamental para a memória, vai ver foi isso. 

Apenas o Fim


Porque o abandono é preciso, escrevo isso com lágrimas nos olhos, nas bochechas, adentrando boca e pele e tudo mais. O abandono é a maior entrega, sabe. Eu vejo as pessoas e as situações em diagramas, eu vejo o teu abandono como uma necessidade vigente. Eu não sobreviveria a um abandono. Não foi fraqueza. Como seria covardia escolher viver? Seria eu um covarde, sim, caso continuasse isso tudo, tão bom, até você cansar, eu não perceber, você deixar um bilhete com cara de rascunho na porta do guarda-roupa vazio. Ou pior, na porta do guarda-roupa cheio e o “ps: preferi não levar nada que me lembrasse essa dor, pode doar, queimar, usar”. Porque eu que abandono, mas com a lucidez de que doeria muito mais em mim o abandono. Eu imaginaria uma vida inteira vazia de você, eu ficaria trêmulo a cada encontro no mercado, na padaria. Você prometeu que no abandono você mudaria de bairro, mas continuarei aqui perto, não sei como faremos. Segunda e quinta frequentarei o mercado. Você pode ficar com a quarta e o final de semana inteiro. Eu nem sei do que é feito o abandono, me sinto tão abandonado escrevendo isso, parece até que estou lendo o bilhete que você deixou na porta do armário após nenhuma discussão. Eu não gosto tanto de seu sapato vermelho, acho que te deixa cafona, não use na esperança de que alguém se interesse por você. Parece que estou jogando uma vida no lixo, é estranho. Planejei não falar sobre o que estou sentindo, mas guardar seria como ser abandonado. Desculpa o egoísmo, desculpa essa necessidade de sobrevivência. Eu amo seu sorriso do mesmo modo que amei quando você riu pela primeira vez de uma piada minha, mas passei duvidar da certeza de que era o sorriso mais bonito do mundo. Sabe? A dúvida me mata, e a dúvida vem acompanhada do abandono em minha vida. Eu passei a me sentir abandonado desde que surgiu esse traço de dúvida. Se sentir abandonado dói. Mas e o abandono? Não há forças. Sofrerei aqui, olhando um retrato nosso e dizendo para os amigos “foi melhor assim”, “não tínhamos tanta afinidade”, “todos precisamos de mudança”. Não sei, mas uma hora eu acabo acreditando. Eu choro pouco, sabe? Eu nem nunca chorei com filmes. Homem não chora. Homem sente dor, mas é isso. Já estou aqui desdizendo um abandono feito às pressas. Sabe, já planejei isso antes, mas seus olhos, nariz, boca, pele, mãos, tudo que faz parte de você me faz recuar. Uma decisão tomada, uma dúvida criada, é pior que infecção. Lembro de você dizendo que nunca conheceu uma pessoa mais sensível que eu, queria que você soubesse que não existe olhar mais bonito do que o seu durante uma confissão boba.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sabe, mágoa se acumula. Você vai vivendo, as coisas boas vão passando. Mas a mágoa se acumula. Você se torna um poço. E aí?

terça-feira, 5 de junho de 2012

Miudeza


Foi um abandono, nenhuma outra palavra poderia definir melhor aquilo que aconteceu da forma mais nua e mais humana possível.
Não sobrou nada do amor, nem o ódio.

Na sala de terapia:

_E agora, depois de nove meses, como se sente? O que enxerga?
_Acabei de ter um filho, mas é estranho, porque ele nunca amadureceu por completo, acabou saindo por questão de tempo, acabou o tempo dele, saiu um feto miúdo que não parecia com ninguém da família. A saudade corre grande no meu peito. Em tempo e em espaço.Mas é uma saudade surda, mas não existe amor. Ficou um vazio tão grande, um feto tão pequeno. Você sabe o que é abortar com nove meses? É não sentir mais ódio de nada, é perceber que mais triste que o ódio é a falta do sentir, uma corrosão interna, que não consegue sair, respirar, e que vai roendo bem devagar o nada, só para provar que ali não existe mais coisa alguma. Você sabe quando você ouve uma música bonita, fica tocado pela música, e sofre simplesmente por não ter nenhuma referência para tal? Um abandono de si mesmo pela falta do alheio. É como me sinto: um pedaço de terra sem bicho e sem planta. E agora tenho essa miudeza em casa, essa coisa enrugada sem nome e sem face. Me dói nunca ter estado grávida e ter um estranho me olhando com aquele par de gudes pretas.


_O que isso significa para você?
_O que o vazio pode significar?

A queda


Tudo descomeçou com um buraco. Sim, irei narrar essa história da forma mais descarada possível, porque não me restou nenhuma vergonha. Um buraco grande, bem grande, daqueles buracos que até parecem um útero da Terra.
Então foi quando um menino de alguns anos, próximo do fim da puberdade, ruivo, sem sardas, olhou para o céu, porque lhe foi ensinado na aula de filosofia a importância de se olhar com seriedade para o céu. Ele olhou para o céu e mergulhou no azul. O coitado não conseguiu sair do azul do céu. Chegou em casa e se sentiu mal, havia telhado. O telhado de sua casa não era transparente. Fez algumas anotações no caderno, e de onde eu estava só consegui ler "e assim morreu minha filosofiazul". Foi abrindo todas as janelas da casa, a mãe logo reclamou do vento, do fogão aceso, do tempo, era inverno, podia chover, podia molhar, não daria tempo de fechar tudo, ele teria que limpar, a mesada pagaria o prejuízo dos móveis, ele ficaria sem televisão, sem poder brincar na rua, teria que comer legumes no jantar. Ele? Se perdia a cada janela, e negociava dentro de si mesmo que cada promessa de castigo seria trocada por cada nuvem que ele conseguisse ver. Viu tantas nuvens, algumas tão desenhadas, tão algodão, que ele trocava por mais de duas promessas de castigo.
Foi para o quarto, o sótão da casa, muito espaçoso, filho único, casa planejada, havia uma janela enorme, que não abria, que dava para a frente da casa. Pediu desculpa por reclamar do fato de a janela o acordar diariamente com raios de sol. A janela permitiu que mais nuvens fossem vistas, que o céu fosse visto novamente, aceitou como desculpa.
Os olhos, antes verdes, passaram a azul em poucos dias. Passou a dormir cedo, só para poder ver todos os dias o sol nascer, para ver o céu mudando de cor, para sentir o arrepio na pele, o preenchimento sem sentido. Foi se enchendo, ficou cheio de sentido, cheio de completude. Os olhos mais azuis que o céu, como quem absorve um pouco da cor do mesmo a cada dia, e acumula. Sim, ele acumulava muito e preenchia um buraco de quem percebe que não é mais criança e que não sabe o que é, o que quer, o que vai ser. Mas um buraco, quando não muito bem preenchido, se torna armadilha.
Tudo descomeçou com um buraco que não deixou de ser um buraco por mais que o céu tivesse surgido sob seus pés. Clamei por ele, que ele não tivesse que perder o azul dos olhos, e logo seus olhos se enegreceram.

domingo, 27 de maio de 2012

deixa, amor.

amor, deixa queimar. deixa que tudo vire cinza e pedaços mortos, que tudo vire restos, que se acabe, que tudo acabe em fumaça. Amor, deixa que queime tudo dessa pele macia, desse sorriso largo restarão os dentes no chão. deixa queimar porque cheguei a conclusão que tudo acaba em cinzas e fumaça. não vamos deixar que nós mesmos nos queimemos assim, a sós, numa cama fria e seca. não vamos morrer sozinhos aqui, na distância de uma parede, de uma mesa, de uma cadeira. não há mais motivo para fugir do fogo grande, do grande fogo. não há motivos para fingir que temos um plano no qual sobreviveremos ilesos, intactos. somos tão pouco imortais, sabemos tanto disso, não fujamos da alegria desgarrada de nos ver queimados de uma só vez, com a ampla possibilidade de renascimento. não precisamos definhar, ninguém nos orientou a fazê-lo, porque fazemos? deixa queimar, amor. deixa essa chama quente arder na nossa pele, derreter fios de cabelos, pele, gordura. deixa eu ver meus olhos explodindo de felicidade, de lembranças, de coisas. precisamos de coisas, amor. precisamos de todo o sofrimento para que seja vida isso que estamos passando. precisamos nos sentir vivos, apenas vivos. e somos ruins nisso, porque só nos sentimos bem com o que nos machuca, com o que tem um defeito intrínseco. porque nos criticamos sendo iguais. amor, deixa queimar porque já desisti de minha pele, de meus pelos, de apelos. deixa essa bateria ilusória descarregar, o trem descarrilhar, o corpo solto, leve, completamente queimado.

domingo, 20 de maio de 2012

setenta e nove anos

quando chegou aos setenta e nove anos, escreveu, minutos antes (...):
"Sinto o tempo passado inteiro na minha pele. Com o passar dos anos você deixa de sentir o tempo passando e sente apenas o tempo passado. Coisa comum entre meus colegas de sala de espera. Temos Alzheimer (e é desesperador conviver com pessoas com o estágio avançado de sua doença), uma doença estranha que destrói algo do cérebro e que vai danificando o corpo aos poucos. Acabaram de me dizer que o médico me explica isso com certa frequência, não me recordo. Sinto (apenas) o tempo passado (inteiro) na minha pele. Essa pele rugosa, como armadura. Mas eu não sei porque se espessar tanto, porque me proteger tanto. Não sei o porque dessa tentativa frustrada de me proteger da morte, essa pele que sufoca, essa morte acumulante, quero lembrar de dizer isso a Deus, ou a quem eu encontrar por aí. Dizer de uma forma leve, com um sorriso planejado e sereno, dizer que precisamos de pele lisa, com muita sensibilidade. Dizer que gostamos de sentir o mundo, e que não faz sentido deixarmos de senti-lo quando mais temos tempo e aptidão para fazê-lo. 
Com o decorrer o corpo acaba se tornando um baú -trancado, rígido, sem adornos, seco e com pés de vidro. Sim, temos pés de vidro e pele rugosa. As vésperas de aniversários passam a ser tão difíceis, os aniversários cada vez mais vazios, poucos amigos, um ou outro familiar vai ligar depois de amanhã porque alguém vai comentar e este dirá que se esqueceu, os mais jovens usaram as mesmas expressões, e muita saúde, os demais vão tentar demonstrar todo afeto que me tem em alguns poucos minutos, o mesmo que não podem, devido à rotina, dissipar em visitas e ligações esporádicas. Mas o pior é a véspera, é sentir um ano inteiro passando em um dia, uma sensação que doença nenhuma consegue me tirar, nem uma reza, nem uma novena. Peço tanto para que nas vésperas eu não fique angustiada, que eu não fique sem fome, sem vontade de levantar, com tremores, palpitações e falta de ar. É tão difícil, nesse estado de nervos, olhar para o lado e lembrar de quarenta anos acordando e dormindo com o mesmo rosto cansado ao seu lado, e que não está mais ali. Sinto falta dos gritos, das reclamações. Sinto falta até dos tapas que levava ao me comportar mal, mesmo que isso tenha me levado ao analista. Eu dizia com lágrimas nos olhos "...eu quero sair daquela casa, mas aí vem os filhos, a rotina, acabo ficando, dando uma segunda, terceira, quarta chance... queria que ele morresse, não de acidente, poderia ser ali do meu lado, só para eu me ver livre e ter certeza que não foi engano...", e hoje as lágrimas vem, vão, nem sei porque. As pessoas acham que é fácil sair de casa, diziam que eu tinha dinheiro para isso, as pessoas não sabem que nem todo mundo pode ficar só. Eu não posso ficar só. Hoje estou, e estou preferindo a dor física. Às vezes eu quero morrer, mas nem isso posso dizer para ninguém, diriam que é depressão. Às vezes quero morrer porque vejo pessoas com a minha doença não conseguirem fazer nada sozinhas, nada, nadinha. Isso me assusta: pagar alguém para ser meu corpo. Na véspera vem tudo, todas as coisas que me assustam cotidianamente se unem e ficam paradas olhando para mim. Você sabe o que é ir para qualquer lugar e ter cinco, dez, quinze vagas para sua idade? É como se fosse limitado o número de idosos de um local, e você vê que estão livres- as cinco, dez, quinze vagas. Onde estão essas pessoas? Você não gostaria de saber onde estão meus cinco, dez, quinze amigos de minha idade.
A gente sente o tempo passado, o tempo inteiro."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

-a navinha está pronta. sim, é uma nave pequena, mas cabe a gente, a gente se aperta, a gente junto nunca liga muito para essa coisa de espaço, a gente se sente confortável quando a gente se cabe. o motor está ligado, estou queimando diesel, acho que isso tudo é um tremendo desperdício, mas você insiste em me explicar as vantagens do diesel nesse motor furado. eu lembro de você me explicando toda a dinâmica do funcionamento do motor, eu estou esperando, queimando diesel. é possível que você tenha desistido do motor quente, do cheiro forte de diesel, da fumaça, do espaço. é possível. qual é seu signo mesmo? nome? idade? eu devo desligar o motor?

segunda-feira, 16 de abril de 2012

que a alma permaneça mais quente (do que suas coxas)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

olhos, mundos infinitos, buracos negros

_te ver ali parado foi como um golpe final. não sei se o golpe foi teu, se foi meu, ou se foi um golpe sem dono. Me arrancastes os pés, os nervos. Tudo foi se esvaindo aos poucos, pois podia sentir cada falta, e repentinamente, pois sem perceber fiquei sem movimento. você dizia que ia embora, me deu um beijo, ficou plantado na porta, me olhando entrar, me olhando despir, me olhando colocar uma samba-canção, me olhando deitar em soluços. continuou me olhando como se eu pudesse fazer algo sem ser visto nessa casa de vidro, plástico e rachaduras. Me viu escorrendo pelo lençol, afogado numa manta quente, que competia em temperatura com cada gota escorrida. sem pés, sem (sequer) nervos, estava eu na cama, ainda mais morto de mim, aguardando a queda de seu avião, uma notícia trágica qualquer, uma aura de ponto final. Volto a te ver ali parado, como estátua, estátua que diz que vai embora e permanece, que diz que se desintegrou e permanece íntegra. estava tudo na mais completa imobilidade. Sabe, um golpe final não tem volta, não tem possibilidade de alteração, de uma nova chance. Sabe, seus olhos são dois buracos negros, e eu estou caindo há tanto tempo que não lembro como é não cair. Sabe, você parado. Você parado, dizendo que vai embora. Sabe, você dizendo que vai embora e permanecendo. Sabe, eu sei que saiu de minha boca que eu estava indo embora. Sei que. Eu sei, que as palavras são minhas. Mas seus olhos, que outrora eram buracos negros, se transformam em planetas eternos e vazios. Os vazios que me banham e que me falam do partir. Olha, são seus olhos me dizendo que você está indo embora. Sabe, são as mãos. Mãos gordas. Mãos gordas em corpo magro. A temperatura de uma mão gorda contida num corpo magro que impede. Há um impedimento, há. Acontece. Muitas vezes acontece. E sabe-se, sem nenhum sujeito, que não é passado. O peso do passado não afunda. Não é. olha, eu tive que escrever isso rápido, você já estava chegando com seus olhos de mundos vazios. Mergulho. Tem gosto doce o seu vazio. Os vazios. sou um pedaço de livro esperando. mas não há leitura, porque não há texto, porque há mudanças diárias, diários, e dias e horas, mês. o que acontece não há de ser. o conhecimento, a rapidez. Os vazios dos seus olhos, dois mundos infinitos, meus buracos negros.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

a completa falta de entendimento levando ao erro grosseiro de acreditar que tudo é passível de compreensão

terça-feira, 3 de abril de 2012

você se acostumou errado. ao avesso. se acostumou com tudo que eu fiz e que sabíamos que eu não permaneceria fazendo. você se apegou às coisas mais erradas que eu fazia. se apegou a passagens e quedas. lembra que eu nunca disse que seria para sempre? sabíamos com o que estávamos lidando. sabíamos que as relações são secas. são pontos. sabíamos que o sofrimento fica no ínfimo espaço entre a cama e o lençol. eu lembro. as lembranças também são secas. todos os indícios. as umidades. tudo seca. por isso sabíamos que não havia motivo de promessa. sabíamos que nada seria cumprido. estou com fome. é só isso que sinto. com o que você se acostumou? sabemos que o costume é algo tão bobo. porque? estou rindo. é tudo uma grande bobagem. grande. grande bobagem.

terça-feira, 13 de março de 2012

nascendo para

as coisas começam a tomar novos posicionamentos, desconfortáveis, minha coluna dói. a dor irradia de uma forma estranha. é como se tudo começasse ao mesmo tempo no sentido céfalo-caudal, e ao completar todas as vértebras, sem pular uma sequer, começasse a se irradiar horizontalmente, seguindo as costelas, criando costelas de dor onde as mesmas se fazem ausente, me cobrindo como um colete colocado com cuidado, simetricamente, com pregos, espinhos, alta voltagem.
_Maria, a costela não protege. Se percebe com a dor que a costela não protege. Costela dói, porque me falaram que a costela protegia meu coração? Meu tórax dói, por dentro, os pulmões ao se encherem de ar esmagam tudo ao redor, e ao expirar resta um vazio enorme, um pós-bomba nuclear.
está tudo sem graça, não estou rindo, é dor. de repente aquela pessoa que mais te importa percebe que esses dias o tempo é só seu, ou mesmo ela te esqueceu, mas esqueceu em sintonia, é tudo tão bonito, dói mais. a sensibilidade está muito aguçada, coisas belas e sujas se misturam, a expressão é constante de dor, mesmo que puramente bela.
_Maria, a dor nem sempre é uma coisa feia. Você está acostumada a ver a dor como algo ruim, está acostumada a fugir da dor diariamente. Não fuja da dor. Percebe que fugir da dor é viver em função da dor? Deixa doer, deixa escorrer. Você seria um rio tão bonito escorrendo, é bonito seu rosto inchado.
o ciclo. lembro do "3 anos, 6 anos, um ciclo se fecha. entende? sabe, né? o ciclo...". parecia uma prece. mal sabia eu que iria adorá-la a cada abertura e fechamento de ciclo, a cada tentativa (em vão) de fazer o ciclo durar mais algumas horas.
ar fresco, tempo, tempo, sol, ar fresco.
_Maria, se nasce para, os ciclos nascem para, você é feita para

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

29/02

Sabe, estou vendo seus olhos distantes, se despedindo pelo vidro da janela. Nesse momento eu só consigo perceber duas coisas: seus olhos em despedida, um vidro que falsifica uma continuidade. Apenas um vidro grosso, não há nomes, não há paredes, não há chão, não há nada. Nada existe a não ser olhos em despedida com um vidro protegendo o momento, definindo, consolidando-o.
As palavras continuam pesando. Agora que seus olhos se fecharam sinto um conforto para dizer que a terapia não funcionou.
Continuo não gostando das palavras, da forma que elas chegam a mim. Continuo não gostando das palavras, do modo como elas saem de minha boca. Gosto da pele. Gosto tanto da pele.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Hey,

não vai assim não, com esse passo apressado, essa camisa amassada, essa marca roxa no pescoço. Não tem ninguém te esperando lá fora, o portão está trancado, o calor está demais. Fica mais 5minutos, os mesmos que sempre evito pedir mas acabo pedindo por medo de demonstrar saudade da forma errada (daquele jeito que você não entende e resmunga com os olhos).

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

cartão de natal

O tempo passa, o tempo corre, é tempo de natal e só consigo ouvir nosso muxixo-conjunto “pff” “tsc”. É tempo de natal, então vamos aproveitar para dizer que o tempo passa, que o tempo nunca foi de esperar. Dizer que a melhor coisa que existe no tempo é a sua passagem, a maneira como ele nos faz querer viver, querer progredir, querer alterar as coisas, resolvê-las. A gente, que tantas vezes pede para o tempo parar, para o tempo correr, para o tempo se alterar... Uma hora acabamos frente-a-frente com o tempo, e eis que ele diz “sou o Tempo” e percebemos que isso é tudo, que ele deve continuar assim, o puro, o imutável. Por muito tempo nos recusamos a segui-lo, obedecê-lo, certamente por medo do comum, do cotidiano, visto que tudo que é comum, cotidiano, está exposto ao risco de parecer indolência, de parecer impensado.

Esse mesmo tempo que passa, no relógio, te mostra uma coisa muito curiosa: ele se repete. Logo, o que parece irremediável, imutável, o que parece não ter conserto, estar fadado ao erro, na verdade não está, e ali os ponteiros dão uma volta e todos se alinham novamente para um novo começo. É com um imenso sorriso que digo: todos os erros podem ser apagados, todas as mágoas desfeitas, todo o amor recriado, agregado, elevado. Não que sejam tempos de sol, de natal, de ano novo. Nesse tempo (infinito) que se renova ando vendo um mundo grande, imenso, tem sido difícil lidar com o tamanho do mundo. Um mundo de possibilidades, de mudanças, de renovação no sentido mais visceral que você puder imaginar. Dá pra sentir que as coisas podem mudar, melhorar, florescer. Quanta palavra boba, até parece que somos plantas que florescem.

Antes de qualquer coisa o tempo é seco, impalpável, antes de qualquer coisa o tempo é grosseiro, intolerante. É preciso saber lidar com o tempo, saber usá-lo. É preciso saber lidar com o tempo e com si mesmo, a sinergia é grande.

Sem data, sem assinatura.