Quem nasceu para se rasgar ao meio não sabe ficar íntegro.
quem nasceu para?
é um eterno rasgar, um eterno
reconstituir.
Mas antes de re-constituir
há um novo rasgar
fé cega - faca amolada
há uma necessidade
não se sabe onde
não se sabe porque
não se sabe
não
de manter o sangue escorrendo.
Talvez seja de uma vida
ditada
O-Sangue-É-Vida.
e aprendeu
-como em prece-
que sangrar é provar que está vivo.
Para si mesmo.
Para acreditar em si mesmo.
Para acreditar que algo acontece por dentro.
É preciso ficar doente,
é preciso definhar,
é preciso perder:
dentes
cabelos
pele
sangue
sangue
sangue
Sangrar é preciso.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
creep
Estava precisando ouvir uma voz doce me dizendo que você é como um anjo. Me lembrando de quão surreal é chorar por sentir uma pele tão macia, um ser de luz -tão especial, tão tão.
Essas coisas me fazem pensar no que quero ser, no que quero ter, no que quero fazer parte.
Sinto falta de me sentir uma aberração diante de tanta luz, de me sentir pequeno, desimportante em mim mesmo. me lembro de me importar com sua tosse, de me esquecer de minha febre, minha falta, meu fogo, minha auto-destruição.
I want you to noticeWhen I'm not aroundYou're so very specialI wish I was specialBut I'm a creep, I'm a weirdo
domingo, 10 de novembro de 2013
terça-feira, 15 de outubro de 2013
come come to me // run run to me
cerrou os olhos e olhou em frente -era como se ver num espelho. piscou duas vezes -mania que criou para tentar acreditar na veracidade de grandes encontros. se viu intacto -era a sua mãe. quis gritar bem alto. quis pedir ajuda. quis pedir para que fosse embora. quis dispensar qualquer vínculo materno. quis tantas coisas que ficou imobilizado. olhou bem para o fundo daqueles olhos castanhos -que tanto pareciam seus. olhou com mais força, apesar de não ter utilizado nenhuma contratura muscular a mais para tal. permaneceu imóvel. viu uma lágrima se formar naqueles olhos e não soube de quem eram aquelas grandes gotas brilhantes. diante da dúvida, acolheu as lágrimas e chorou por elas. sentia escorrer lágrimas vermelhas e densas. sentiu que se esvaia e a sensação final era de leveza. os olhos castanhos cresciam, tomavam conta de si mesmos e do resto da moldura. uma formiga alcançou o espaço entre seus dedos e picou. aproveitou para sentir cada pontada, sentir o prurido sem friccionar. aproveitou para sentir qualquer sensação diferente da imobilidade do reflexo de si mesmo. enganou o peito com a dor da picada. tentou se enganar. nada poderia se sobrepor aos seus próprios olhos em moldura de rosto materno com lágrimas vermelhas.
a figura então começou a se tornar pálida, pálida, pálida, pálida, papel. a figura se tornou papel de si mesma, vazio de linhas palavras rabiscos, sem expressão -apesar da idade avançada. chegou, enfim, o momento em que a consciência se perdeu, duas estátuas se olhavam, completamente imóveis, completamente fora de si. teria agradecido por ter perdido a consciência, mas a consciência lhe faltava para o agradecimento.
a moldura começou a ficar laranja, vermelha, fogo. começou queimar. queimou aos poucos, sem pressa de ir embora - e foi.
sentado, olhos cerrados, pupilas dilatadas, pele quente, boca entreaberta, virilha seca, coração tentando manter o auto-controlepasso dias assim
passo dias esperando que você se derrame pelo meu ombro
que evapore pelos poros
que entre pela pele
estou esperando que derrame alguma poesia por perto
estou com sede
quando te falei sobre minha vida não queria ouvir seus relatos mais banais
inventa uma história inacreditável e me faz acreditar
me faz acreditar em seus olhos abertos
me força a fechá-los
domingo, 13 de outubro de 2013
seu sofrer
Estávamos os dois cansados,
exaustos, degradados. Éramos um pó de nos mesmos, já misturados e indefinidos
após tantas declarações, denuncias, quedas e tropeços. Olhávamos-nos e não mais
nos víamos - éramos desconhecidos-invisíveis em campo de batalha, lençóis de
seda. Seu sussurro soava a grito, eu me fingia de surdo - e o era por não
compreender um olhar sequer. Éramos um campo de batalha, armas de nós mesmos.
Éramos nosso próprio fim com ultimo suspiro, último pedido, com peso escuro na visão.
O cheiro enjoa, o toque machuca, e a falta de se sentir um só se completa em ser a falta de ser algo.
Tudo me doía tanto, que a dor de
dizer vencia qualquer vontade de estar bem - de resolve o irreversível, de
sanar a separação de um só em dois. A dor paralisa. Seus olhos me paralisavam.
O toque, o cheiro, o tudo.
Mas era sábado quando você
reclamou de dor em ombro, balbuciou qualquer coisa como quem não consegue
dormir, e apesar do tom tranquilo, parecia pedir socorro. Eu queria muito te
dizer que muitas outras coisas me doíam mais do que qualquer ombro, que doíam
ainda mais profundamente. Queria falar da dor do peito esquerdo que se irradia
-como maré cheia- pelo corpo todo. Calei. Virei-me. Vi seus olhos pequenos e
profundos pedindo ajuda, eles eram cúmplices daquele tom de voz - percebi que
não conseguiria dormir com olhos tão doídos sobre mim. Me senti ainda mais
fraco. Calado e de olhos cerrados me ergui sobre suas costas, aqueci minhas
mãos, comecei a massagear os ombros, os braços, o dorso: do pescoço ao
cóccix. Mãos firmes, tentando evitar que o carinho e o se amor esvaíssem por
entre os dedos, tentando a todo custo manter uma integridade - foi quando
percebi que a sua menor dor tem o poder de se sobrepor a todas as minhas
grandes dores, que era mais fácil lidar com o inferno a lidar com seu sofrer.
domingo, 29 de setembro de 2013
Dois (antigos/novos) pássaros
Era sábado, ele havia planejado acordar cedo, molhar as plantas, alimentar o cachorro, preparar uma sobremesa meio-amarga, encomendar um almoço leve, ler dois capítulos de "A Insustentável Leveza do Ser", ouvir Billie Holliday, e se espreguiçar no canto do sofá que recebia uma fresta de luz morna de uma manhã-de-domingo (mesmo ainda sendo sábado) até chegar a hora de ir ao aeroporto. Acordou no meio da manhã, o ar condicionado petrificava seu corpo, resolveu não se mover. Decidiu continuar adormecido, mesmo que acordado. Levantou às 11 da manhã, resmungando, e foi ao aeroporto, refletindo sobre o trabalho acumulado, a casa bagunçada, o mofo na parede da sala, o ar condicionado desregulado. Balbuciou alguns xingamentos, acelerou, acelerou, chegou no limite de velocidade. O telefone toca "_Amor, cheguei e já peguei a bagagem. Você está em que setor do aeroporto?", ficou mudo. "_Estou chegando, o trânsito está complicado", olhou para frente e viu um eterno vazio, não havia um carro sequer na sua frente, engoliu a mentira a seco, sentiu sua garganta arranhando e se convenceu -a duras penas- de que não estava tão atrasado assim. "_Tudo bem, estarei te aguardando no desembarque. Estou morrendo de saudades", respondeu que tudo bem, que chegaria antes do cansaço (e tentou acreditar nisso). Enfim chegou e logo viu aquela figura única (sozinha) segurando dúzias de rosas vermelhas, com um sorriso mais radiante do que margaridas na primavera, um olhar de criança, e uma postura sóbria. Se sentiu envergonhado, ensaiou um sorriso colorido, mas saiu amarelo (tentou acreditar nas outras cores). As flores, as cores, o olhar de criança - um raio de luz entrou no carro e coloriu aos poucos a manhã de sábado. Mantiveram o silêncio, e este não incomodava. Acelerou, acelerou, passou do limite de velocidade - se sentia leve.
Chegou em casa, ainda calado, mas com o sorriso iluminado por duas cores, e o amarelo tinha sido deixado na estrada, assim como o mofo da parede e o ar condicionado desregulado. A casa, que ao sair estava cinza, parecia um pouco alaranjada, azulada. Passou a ver cores que não mais se lembrava. Espalhou as dúzias de rosas pela casa, e foi vendo tudo se transformar em amor. Esqueceu do trabalho, esqueceu da dor nas costas, esqueceu da fome e da sede. Esqueceu de ser um problema para si mesmo. Piscou duas vezes, tentando acreditar em qualquer coisa, tentando entender qualquer coisa. Abriu os olhos devagar, como quem teme a realidade, olhou para o lado: viu 7 cores irradiando para fora e para dentro de si.
Chegou em casa, ainda calado, mas com o sorriso iluminado por duas cores, e o amarelo tinha sido deixado na estrada, assim como o mofo da parede e o ar condicionado desregulado. A casa, que ao sair estava cinza, parecia um pouco alaranjada, azulada. Passou a ver cores que não mais se lembrava. Espalhou as dúzias de rosas pela casa, e foi vendo tudo se transformar em amor. Esqueceu do trabalho, esqueceu da dor nas costas, esqueceu da fome e da sede. Esqueceu de ser um problema para si mesmo. Piscou duas vezes, tentando acreditar em qualquer coisa, tentando entender qualquer coisa. Abriu os olhos devagar, como quem teme a realidade, olhou para o lado: viu 7 cores irradiando para fora e para dentro de si.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
bilhete avesso
Tenha cuidado, boy, com o que me manda. Um link pode ser pior que uma porrada. Posso suplicar para que você me espanque e tire essa música da minha cabeça. Ela começou a tocar tão inocente, e agora está se repetindo em mim, no computador, no aparelho de som, na televisão, no meu celular, na rádio, nas lojas de departamento. Ela/você está em todos os lugares, nunca mais me senti só. Isso está me esquizofreniquizando. Eu não queria que isso tudo me inundasse dessa forma, me possuísse me fragmentasse em uma versão mais real do que eu sou. Dessa forma de novo não. Te juro que penei por algumas horas tentando encontrar um link tão poderoso e tão devastador, mas minha ideia mais plausível foi mandar de volta o link que recebi. Me senti fraco. Você não deve saber o que uma coisa dessas pode fazer com alguém. Sabe? Pois se souber, quero te dizer que você é um escroto. Não, não quero dizer isso. Quero gritar que você é um porco, estúpido, ignorante, bruto. E depois, quando você estiver quase surdo, sussurrarei subindo no seu pescoço o quão sensível e ensurdecedor você é. Todo o meu corpo treme de raiva. Estou começando a odiar todo seu sorriso -completo e íntegro.
Eu te matarei aos poucos. Eu te farei parar de respirar bem devagar. Eu não vou parar de te fazer cócegas até te ver derretendo (em meus braços).
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
conforto e paz
era sábado pela manhã, assim como todos os sábados pela manhã costumam ser lindos, esse também o era. não havia sol, não havia chuva. era um silêncio cinza que tomava o dia. era sábado de manhã, era hora de esperança, de a vida se refazer na barriga, e crescer - sendo em seguida vomitada sem o ácido amargo dos vômitos de rejeição. era sábado de manhã, o blackout escondia os poucos raios de sol, e nem sempre ao acordar é possível se lembrar que existe um blackout te impedindo de amanhecer. cerrou os olhos novamente, na procura de qualquer fresta de luz -não havia. fechou os olhos e se esquentou no calor que irradiava ao seu lado. abraçou com todos os braços possíveis na esperança de incendiar o quarto e desaparecer em cinzas. alguns calores são impossíveis de moderar, de ignorar, de se afastar. abraçou o corpo macio que repousava ao seu lado, e logo este se virou em sua direção. se olharam de olhos fechados e se beijaram sem tocar os lábios. era o calor que guiava cada movimento, cada toque, cada cheiro. o medo de acordar o corpo ao lado se transformou em prazer, e logo seu corpo rígido se derreteu em relaxamento e gozo. aproveitou o movimento sincrônico do momento para aquecer sua barriga, coxas, pés, pescoço e peito. seu corpo por completo se aqueceu. e o que poderia se tornar calor, logo se tornou completo conforto e paz.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Loucura, cara.
Que loucura.
É tudo uma tremenda loucura, cara. Olha só isso que está acontecendo, tente nos ver de fora. Você vai concordar comigo: loucura pura.
Às vezes me pego sozinho, me fitando a fundo no espelho, tentando descobrir o que se encontra por detrás daquele reflexo ralo. Do nosso reflexo ralo. E só consigo pensar: que loucura.
A cada dia tentando respirar mais fundo na certeza de que é o último, e estamos no abismo eterno da véspera de um mês. Respirar fundo diariamente por trinta dias me fazia cansar. Como se o efeito fosse o inverso: quanto mais se treina, menos se está pronto. Não posso negar que há trinta dias me vem um frio na barriga dia-ria-mente. Alguns dias se definem por serem dedicados a esquentar essa barriga fria, tentar enganar as borboletas que teimam em passear pelo meu estômago. E eu te dou flores, tentando desabrigar as borboletas. E eu te dou calor, tentando enganar meu frio. E eu te dou meu ar, temendo me perder por aí.
Agora estou ouvindo Cat Power, queria que você pudesse ouvir comigo a voz rouca dela tomando conta do ambiente, até que este fica preenchido de tal forma que só é possível relaxar.
Quero ser um pedaço disso tudo que acontece por aí, e que invade a sua vida.
Que essa loucura seja perdoada em benção.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Profundamente
Eles se olhavam profundamente, como quem quer enxergar além,
mas com as cabeças tão vazias de sentido que só encontrariam vento por detrás
dos olhos. Tinham acabado de falar sobre cantores de Jazz que estavam curtindo
no momento, esgotaram suas curtas listas, a seguir faltou assunto. Recorreram o mais depressa possível às xícaras
na mesa, numa tentativa desesperada de disfarçar silêncio com cafeína. Engoliram o café lentamente, como quem quer tempo, espaço, fugir. As
xícaras ficaram vazias. Ele olhou bem para o fundo da xícara e percebeu que ela
estava tão vazia quanto ele. Uma sensação de desproteção, nudez, fraqueza. Sentiu seu corpo se derretendo em meio ao constrangimento dela,
involuntariamente seu corpo começou a produzir lágrimas para encher a xícara
vazia e para que assim pudesse beber algo, pudesse fingir sede, fingir qualquer
coisa que disfarçasse um término. Ao começar a chorar o consciente pedia para
que parasse, implorava, se arrastava aos joelhos com mãos em prece. Repetia
para si mesmo “Não, lágrimas não. Por favor, que nada pontue esse fim. Que nada
seja esse fim. É o fim? Não, lágrimas não. Por favor.”
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Raio de Sol
_Posso te fazer um pedido?
...
_Eu queria que você me amasse como se ama o Raio de Sol. como se ama o raio de sol pela primeira vez que o olha, que o percebe, que significa a existência do raio de sol. Eu não quero que você me ame por ser um raio de sol. o raio de sol a gente vê todo dia. o que foi o raio de sol no seu dia hoje? Eu quero que você me ame como ao Raio de Sol que te fez perceber que ao vê-lo fez sentido existir céu, sol, noite, lua, nascimento, morte. Quero ser o Raio de Sol principal, pois só ele poderá te iluminar nos dias de chuva, nos dias de noite, nos dias de lágrimas.
...
_Eu precisei te matar para saber que queria passar o resto dos dias te iluminando
...
_Eu queria que você me amasse como se ama o Raio de Sol. como se ama o raio de sol pela primeira vez que o olha, que o percebe, que significa a existência do raio de sol. Eu não quero que você me ame por ser um raio de sol. o raio de sol a gente vê todo dia. o que foi o raio de sol no seu dia hoje? Eu quero que você me ame como ao Raio de Sol que te fez perceber que ao vê-lo fez sentido existir céu, sol, noite, lua, nascimento, morte. Quero ser o Raio de Sol principal, pois só ele poderá te iluminar nos dias de chuva, nos dias de noite, nos dias de lágrimas.
...
_Eu precisei te matar para saber que queria passar o resto dos dias te iluminando
sábado, 29 de junho de 2013
Sobre minha segurança
Passaram alguns anos, o cheiro de besouro que toma a casa por completo nessa época do ano não me apavora mais, sinto apenas o conforto de estar aqui, de saber que apesar de os anos terem passado muito permanece. Me sinto seguro em meio a besouros voadores - e nunca pensei que essa sensação fosse possível. O sentido da palavra segurança passa a se modificar diariamente, e o pouco de vida que já tive me deixa bastante confuso sobre o que serei. Seria culpa de uma combinação infeliz de signo, ascendente e lua? Nunca saberei, assim como sinto que nunca estarei seguro. Imagino como seria uma vida em que não se questiona o sentido de cada palavra que lhe cause. Mais que imaginar, gostaria de vivê-la. Minha segurança, pautada em besouros, cheiros, abraços, vazios, abre meu peito e me torna uma cefaleia pulsátil em região periorbital. Há quem pense que seja uma dorzinha de cabeça. Há quem não perceba que uma cefaleia pulsátil em região periorbital impede o enxergar. São períodos em que me sinto cego, períodos em que questiono se algum cego realmente se sente seguro. Nesses momentos, de cegueira passageira, o conforto do cheiro dos besouros se transforma em terror. Você boceja com a mão na boca, você perde um pouco o ar, o terror se torna prisão. Volta à mente, de forma clara, o questionamento do que seria se sentir seguro. Inspiro, expiro, inspiro, expiro, numa tentativa calma de expirar todas as dúvidas que me formam humano. Inspiro, inspiro, inspiro, me encho de mim e durmo.
Gostaria de seguir um caminho seguro com a alma.
domingo, 12 de maio de 2013
Xícara
me desculpe, me desculpe, mas se seu café é pouco, se falta leite, açúcar, afeto... não comece a servir minha xícara.
realmente me desculpe, mas se você não pode transbordar, não comece a me servir. não me deixe na angústia de presenciar minha xícara pela metade, de ver o borro de café -que naturalmente fica no fundo do vaso- se depositar na minha xícara meio vazia. não se permita curvar o vaso em sua totalidade como quem busca a última gota de água do sertão. é uma curva arriscada, não consegue ver a placa do risco de acidente?
eu não vivo das pequenas quantidades, dos pequenos afetos, das pequenas emoções. nada disso me transborda, nada disso me completa. ao fim do tempo, seu vaso estará vazio, minha xícara não estará cheia, meus olhos estremecerão, ficarei magoado, você pedirá tempo para preparar mais café, mas a gente sabe que não é de bom tom misturar cafés de tempos diferentes.
peço desculpas milhares de vezes, mas o café ficará frio. eu nunca tive a capacidade de tomar café pela metade. você argumentará que está meio cheio, já estarei andando na direção contrária quando ainda de costas -e ainda andando- sussurrarei que o amor nunca pode estar ao meio. porque é maio, meu querido. porque dói explicar o amor. um dia eu te disse que não existe definição exata para o amor porque ele não se permite ao verbo, e você saiu gritando que me amava. era como se você gritasse que não sabia amar, era como se eu não estivesse ouvindo.
quando nada parece solucionar um barulho interno devastador, ouço pingos mudos em poça d'água. meu coração palpita, evoco em minha imaginação -a possibilidade de que era um truque seu-, que havia mais café da mesma safra. sofro uma rotação de 180º (contra qualquer pensamento), meu olhar vai se erguendo do chão até a minha xícara abandonada na bancada de jacarandá, mas eram suas lágrimas que sofridamente pingavam na minha xícara. você olha para mim com uma dor de saudade. eu penso "o café está ficando aguado". apresso o passo.
domingo, 7 de abril de 2013
a vida é bonita, sabe? gosto de dizer isso assim, com lágrimas nos olhos, dedos tremendo, voz vacilante. não importa onde vá, com quem vá, como vá, há de ter uma beleza ali, um aprendizado (nem que seja o de: não volte aqui). Muitas vezes precisamos não voltar para poder ir em frente, e se, necessário for o voltar... que o faça com cores e cheiros de ir em frente. gosto muito das instabilidades que as pessoas me causam. gosto de ser causado. e preciso. com o pesar de odiar precisar de algo. preciso ser causado de tempo em tempo. ser causado é ser soprado, é ser avisado de que há vida bonita, há cinema sozinho de mãos dadas. é diferente de um tempo enorme, grande, imenso, em que você fica parado esperando o nada acontecer porque você tem tempo de sobra. o tempo de sobra me faz imóvel. dentro de todo e qualquer tempo preciso da causa, do efeito de poder com olhos marejados, pele trêmula, pêlos ouriçados, garganta seca, pulmão vazio, dizer em tom de verdade: a vida é bonita, sabe?
Palavra de Mulher
"eu e o XX estamos casados há 8 meses. ontem, quando cheguei em casa, ele estava terminando de passar aspirador na sala. conversamos sobre os nossos dias, ele se exaltou com algumas coisas e eu disse "relaxa, toma um banho, abre uma cerveja" e ele "não, eu vou lavar a louça e limpar o fogão." e se foi, bem faceiro. a cozinha ficou brilhando.
no mesmo dia, me sentei para escrever e ele perguntou se podia botar um som. botou um disco do paulinho da viola, antigo, lindo. batucávamos juntos (ele com mais habilidade, é claro).semana passada cheguei em casa e vi mais um bukowski em cima da cabeceira dele - junto do galeano, da pornopopéia, do cortázar.faxinando como um maníaco. ouvindo sambinha das antiga. lendo 12 livros ao mesmo tempo. parece eu, mas é ele. eu estou sempre usando as roupas do XX e roubando os livros que ele lê. de fato, pessoas casadas vão ficando parecidas!achei demais, mas queria fazer um apelo: se eu começar a deixar o bigode crescer, favor me avisem."
Algumas belezas ultrapassam a ética e as regras vigentes em nós mesmos. Desculpe-me a falta de referência da autora.
segunda-feira, 25 de março de 2013
do pouco vazio
despercebendo tudo que acontecia naquele momento, desci correndo como quem espera encontrar soluções, flores e doces. desci com o rosto suado, cabelo bagunçado, corpo levemente sonso e despojado. descia de alma, descia pronto para tudo que não aconteceria. aqueles olhos eram profundos demais para tanta leveza. queria parar, me enrijecer, limpar o suor, deixar o cabelo menos esvoaçado e pedir desculpas pela leve flutuação em esperar soluções, flores e doces. falo como se em algum momento eu tivesse acreditado ser possível emitir qualquer som compreensível. então seus olhos me penetraram sem qualquer consideração e violentamente me tornei nu. então você usou palavras sólidas, com um tom doce e um conteúdo que previamente usávamos como ofensa. queria te dizer que aquilo não me ofendia, queria rir alto, queria responder com ironia, querer mentir descaradamente. balbuciei poucos sons guturais ao abaixar os olhos, tentando resguardar alguma parte íntegra, imaginei sua cara de vencedor -um vencedor com vergonha de ter vencido algo, arrependido por ter cruzado a linha de chegada. daí então meu destino se tornou errado, só encontraria problemas, e qualquer sim, qualquer ajuda, qualquer qualquer seria muito mal recebido. o passo se tornou rígido, doloroso, a respiração ofegante, a vontade de cair tomava cada vez mais conta de meu corpo, que pouco a pouco se tornou um estorvo. fiz o que havia programado fazer, sem encontro de soluções, flores, doces. foi então que descobri que não havia morrido no mar, pois não era doce.
Pois saiba que quando estou gargalhando, é porque estou me divertindo,
E quando estou gargalhando, é porque estou morrendo sem conseguir pedir socorro.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
eco
é preciso, mesmo que com lágrimas sublinhando cada sílaba bem pronunciada, repetir e repetir "Que o esplendor da manhã não se abre com faca" e fica um eco repetindo durante horas com-faca-com-faca-com-faca-com-faca-com-faca-com-faca-com-faca-com-faca. isso tudo dói. e daí que dói? e daí que a repetição é minha? e que essa repetição é inerente a todos os meus doces e amargos?
dói porque chega uma hora em que você se questiona quantas vezes viu o esplendor da manhã, sem faca. sem faca. é mais fácil repetir sem-faca-sem-faca-sem-faca-sem-faca-sem-faca, é tão mais fácil (cachoeira que brota)
fica um peito aberto. a-b-e-r-t-o. e a faca que teve a ousadia de tudo dilacerar parece se envergonhar do trabalho que passa a parecer tão sujo e fétido, e some -mas leva o esplendor.
dói porque chega uma hora em que você se questiona quantas vezes viu o esplendor da manhã, sem faca. sem faca. é mais fácil repetir sem-faca-sem-faca-sem-faca-sem-faca-sem-faca, é tão mais fácil (cachoeira que brota)
fica um peito aberto. a-b-e-r-t-o. e a faca que teve a ousadia de tudo dilacerar parece se envergonhar do trabalho que passa a parecer tão sujo e fétido, e some -mas leva o esplendor.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
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