quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

em meio a tantos cartõeszinhos faltou o seu. Como não poderia entregar pessoalmente, na mesma data que entregarei os outros, resolvi fazer por internet mesmo. Agradecendo o apoio de tanta gente, como não agradecer a você?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

o plural tornou-se singular, sem desrespeitar gramática e gramáticos.
os peitos que batiam em ritmos parecidos se igualaram em uma momentânea disritimia que gerou sincronia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

paraomeubem

sinceramente eu queria poder verbalizar tudo, transpassar para ti cada pensamento, mas eu não consigo, e nem sei se existem verbos e adjetivos o suficiente, bendita limitação humana. eu queria que pudesse ouvir meu peito toda vez que ouço sua voz, toda vez que me concentro nela, toda vez que me perco em simples palavras diante de sua imagem se formando em minha mente: não apenas lembranças, novos momentos se formando em cor, cheiro e toque. O que sinto por ti, meu barbudo, está dentro de mim, se expandindo em sensações nada tradicionais, deixando qualquer explicação pobre, sempre faltando algo, faltando o aperto do peito que sinto de felicidade, faltando o frio do estômago, faltando...
sinceramente achei, a priori, que meu gostar-de-você fosse coisa passageira, paixão, tensão, correria. Mas é calmaria, é felicidade simples, é leveza, é também peito disparado, respiração ofegante, frio na barriga e arrepio. Apesar de não ser um comentário novo, repito: a cada dia, a cada riso teu, a cada palavra de carinho, a cada... meu peito expande para caber mais e mais você.
sinceramente, eu não sei, eu não sei muita coisa, muita coisa mesmo. Sei pouco, bem pouquinho, e sei que você me faz um bem tão grande, mas tão grande que não se mensura, não sabia que existia um bem assim... meu bem.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Eu sou dois.

E agora, o céu, meu bem, o Sol, a lua, as estrelas e as constelações. Agora, meu bem, o dia nasce para comemorar nosso riso, porque até o sol avermelha-se de inveja frente ao brilho de meus olhos, e se esconde de tão rubro, enraivecido. E quando a lua vem consolá-lo, ele já se foi, meu bem, ele já se escondeu, e volta depois de algum tempo, quando a lua ja cansou de procurar. E assim continuam brincando, seriamente brincando, meu bem, e admirando o riso que entornaste em mim.
Agora é cedo, para tanto tempo ainda que nos resta. Agora é tarde, para o tempo que já estamos longe, léguas. Agora é dia, é noite, é riso suave, peito arritimado, é hipóxia, anóxia, é suor, frescor e saudade. É saudade, mesmo quando estou contigo, pois qualquer milímetro são como mares intransponíveis, posto que qualquer distância é dor.
Sim, meu mais doce pôr-do-sol, eu, agora, não apenas um. Agora, não apenas mais um, outro, qualquer, sou dois. Sou dois porque agora tenho par.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

show, pier, mar.

Traços finos:
Quebra brusca de todas as regras,
expectativas,
convenções.
Todas as belezas em concentração.

Doçura simples, doçura.
Encanto doce, leve,
encanto dos cantos de sereia,
suavidade:
as delicadezas, a maciez.

O tempo, o tempo, o tempo que vagueia em toda a sua inexistência. Quando, quanto o tempo? O não-tempo, o fim, sem-fim.

domingo, 15 de novembro de 2009



permaneço olhando fixamente para lugar nenhum.
como se fosse uma questão de tempo,
como se o tempo pudesse me fazer ver.
confundindo óculos, tempo e interpretação:
ora de tudo sei, de tão simples,
ora é tudo confusão, de tão bobo.
Aves, nuvens, sóis, luas, vão passando
vão se repetindo, vão nunca mais aparecendo:
vejo a beleza de uma voz,
vejo a miopia se estabilizando,
vejo embaçado, vejo nítido.
meu sorriso, que vai, que vem, meu riso.
as coisas são tão infinitas, mas resumo tudo agora:
o tempo, o tempo, o tempo.

domingo, 8 de novembro de 2009

faz tempo que não falo de mim, não tenho sentido essa necessidade. o dia-a-dia segue embalado por alarmes e alarmantes, exceto por algumas pausas nas quais tudo é desligado inconscientemente e é permitido se guiar pelo sol. algumas musicas embalam alguns momentos, outros são embalados por tombos. mas tem coisa nova, estou entendendo algumas coisas de quase-que outra vida, coisas bem-mal passadas. estou no limbo, por não saber onde estou ao certo: momentos bons e ruins sempre existem, mas para quê tanta intensidade em ambos? um tantinho de equilíbrio cairia bem, e como cairia!

sábado, 31 de outubro de 2009

poema-cem-títulos

ponho
nos
versos
o
que
vejo: beleza.

Fracos raios de luz,
doces assobios,
brusca queda solar
(encoberta por nuvens).

Travas, fechaduras,
todas-as-coisas ansiando por implosão
todas-as-coisas precisando ver:
a tarde brilhando sem-sol.

domingo, 25 de outubro de 2009

estou aguardando novidades, novidades que durem, que não seja apenas fruto de sustos ou de conhecimento superficial.









Aguardo verdadeiras novidades.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

pequeno infinito.

bicho-do-mato foge do gato e sobe no espaço de uma frase sem fim.
menina dengosa se encosta danosa e pula no espaço.

sábado, 3 de outubro de 2009

minha saudade

Saudade é bicho,
bicho do mato, que se esonconde
entre entranhas
e passeia livremente
(em dias de sol)

Saudade é parasita
sugando tudo que há de elaborado,
boca seca
(em dias de chuva)

Cria-se,
crio,
bicho-parasita
(dia-a-dia).

29/09/2009

Salvo raro:
preciosos, poucos.
Todos se repetem,
em mim,

Salvo raros.
Salvo preciosos.

Os poucos que sobrevivem,
Aos poucos que reagem,
Aos poucos que regressam inteiros,
Os íntegros.

domingo, 27 de setembro de 2009

alguns sons me transformam em líquido-sólido. encaro os presentes não dados, os passados que não passaram, a certeza que sempre se esvai de que o presente não passa de restos do passado, provando por completo que o passado é puro presente.
eu não gosto, não aprovo, não isso, não aquilo. viro chato por ter opinião, ou vazio por não expressá-lás. xícaras, pratos e porta-retratos quebrados, milhares de cacos, pouco tempo, pouca vida. na sujeira, como proteção, procuro cápsulas. Proteções.
a distância costuma estar próxima a mim, sempre próxima, em estado de mistura, sendo eu sua proximidade, seu espaço vazio, estrada.

(um texto não terminado, um dia que não terminou)

domingo, 20 de setembro de 2009

youtube.com/watch?v=FnkvljZsNTQ

o tempo para, mais uma vez, como tantas e tantas outras vezes. o tempo não para por vontade própria, e se assim fosse permaneceria parado por milênios, fazendo o passageiro parecer eterno, fazendo brincadeira na poça de lama. quando o tempo para as pessoas ficam tão silenciosas, os passos não sou ouvidos e os gritos são cantos de pássaros, e todos os acontecimentos parecem ser programados para tornar o momento imutável, sem surpresas. redescobre-se que é preciso mudar para permanecer imutável, porque mesmo com o tempo parado os objetos ainda se movem, sem alarmes. para não mudar às vezes é preciso arriscar tudo e chegar à conclusão de que não haveria como ganhar sem colocar o prêmio em risco indefinido. os olhos pedem silêncio quando a boca sabe o que é silêncio. sem alarmes, sem surpresas.

sábado, 5 de setembro de 2009

texto nunca terminado

Numa casa que por horas ficara vazia, por horas hospedou o nada, novas pessoas se estabelecem, espalham malas, sacolas e pressa. O sangue é o mesmo, aparentemente nada mudou, mesmo tendo mudado muita coisa. Na noite, densa pelo frio, uma criança, que outrora fora incomunicável, olha ao redor, olha as novas malas pela sala, pela cozinha, pelas escadas, olha o espelho intacto, para alguns segundos e diz "Essa casa está estranha", um outro menino, mais velho, julgando a pequenez de uma criança, observando as malas, pergunta "porque? estranha como? as malas?", e a criança, andando de volta para a porta escura responde "não, essa casa fica estranha sem meus avós".
A noite continua passando, as horas tropeçam, o corpo dói, os pensamentos estão turvos, turvos de uma neblina completamente nomeável, mas que não o será. Panos, planos, e cicatrizes, fazem parte de mim,

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

o meu eu, por mim mesmo

Me esvaziei, mais uma vez, de palavras e sentidos.
Mais uma vez vazio de mim, por desaguar cada gota em poços sem fundo, pura infiltração.
Me esvaziei porque outrora fui cheio e transbordei, e por preferir transbordar e esvaziar a estar pela metade (meio cheio, meio vazio), nunca estou ao meio. As saliências de meu ar de tanto flutuar se entrelaçaram, e hoje, agora, sou puro nó. Ao fitar luzes e olhos, reflexos e parasitas, não identifico nada, falho, como se não tivessem nome, como se ter nome fosse uma ofensa, como uma maré alta, como uma xícara vazia.
Meu corpo faz parte de todo o resto, assim como se todo o resto fosse uma extensão de mim. O mundo nunca vai ser meu, pois nada nunca será meu (nem o meu eu).

sábado, 29 de agosto de 2009

não podia deixar de postar, por medo de perder

As sensações são diferenciadas, fruto de teu verde-coração. Sinto saudades sempre, mas dói mais quando estou longe, é quando mais sinto sede de ti. Vivo planejando me mudar, sempre para o mesmo lugar, queria tentar morar no teu peito e ajudar teus pulmões a se encherem de ar, tentar assim não sentir mais asma por ti, não me faltar teu ar. Acontece que sempre que me despeço e saio andando minha fome aumenta como se tu tivesse sempre como me alimentar, e como se longe de tuas mãos nada mais me nutrisse. Às vezes me sustento nos teus ossos e tenho medo de pesar, às vezes as coisas ficam sem graça longe do teu olhar de aprovação, às vezes acontece tanta coisa.
E vivo cantando esse amor-admirador só para tentar te ver dançar sorrindo enquanto deságuo verdades-vermelhas no verde.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A aminésia noturna, inacreditávelmente, insiste em me acordar pela manhã. Todos os sentimentos de uma noite se zeram, e eu me anulo. Se eu pudesse escolher entre ser ou não ser assim, não sei o que escolheria, ou sei e prefiro não profanar às traças (ou vírus, aqui), ou por não haver escolha prefiro nem imaginar que há, deixa por ser assim, infinito









...
Enquanto vomito palavras aleatórias observo você se esquivando para sugar cada gota, cada grão, mesmo sem entender você continua sugando, você continua próxima, como se nunca estivesse longe, como se não soubesse o que é estar longe de mim, e tem medo de tentar. Mas sei que já esteve, caio em plumas.

Desaba Mundo

Cimentado o céu:
seu chão,
cai pedra, cai vento, cai tu.

Rachadura que goteja,
me lava parado
do cano de não-sei-onde.

Da água, ensopo,
gripo, espirro, gripo,
sou levado ao hospital
contra-vontade.

25/08/2009

eu sei que eu desatino por você, disparo, reparo, e todas as outras paradas que a rima em demasia não me permite enumerar. Mas entenda, e se vá, que não é por você que minha temperatura oscila, não é nada por você, você nem tem culpa, não tem controle, é tudo meu: a dor é minha, o amor é meu, o orgulho em cacos quem recolhe até hoje sou eu, eu mesmo, quem criou uma criatura amável, dócil, eu que escrevo de vermelho para fingir que dói a dor que às vezes dói de fato, eu que sinto todos os verbos do mundo em mim, me deitando em adjetivos inabitáveis. É tudo meu, não permito mais roubos, furtos e divisões, as coisas boas e ruins serão sempre só minhas, até o seu sorriso é meu, e você sabe que não pode comprar mais ninguém com ele, amarelou-se por mim.

Quando foste completamente banguela te mandarei tudo: cartas, palavras, calafrios, tremedeiras, arrepios, porque será tudo só seu.

domingo, 23 de agosto de 2009

declaração

Morrerei com uma caneta na mão e um papel pronto para ser estraçalhado. É assim que terminam os melhores momentos: papel e caneta. Não escrevo por opção, sou obrigado a isso e espero que ninguém tente me libertar de meus vícios.

sábado, 22 de agosto de 2009

meus acompanhantes

no corpo carrego peso demais, canso, e não é pano nem metal, são todas-as-coisas que se fixam em mim enquanto passo por elas, carrego-as como uma grávida que carrega seu feto, com medo de deixá-las cair, indefesas. cuido como se fossem parte de mim, porque são. na cabeça uma nuvem clara se estabelece serena, enganando o olhos que admiram uma bela neblina de inverno, enganando quem não consegue ver o que se encontra dentro ou atrás da clara-nuvem, enganando e revelando apenas fragmentos dúbios.

na alma não carrego nada, ainda não sei se é pequena demais, e nada cabe, ou se é grande, e muito cheia. minha alma paira leve, não me permito deixá-la cair, me concentro na sua leveza, em deixá-la subir, me elevando junto, me permitindo pegar delírio, sublimando ancorado em mim mesmo, regulado por astros milenares, ou melhor, regulado por nada: desregrado. alma que pega delírio não pode ser regida por regras quaisquer, sobe sem parâmetros, apenas por ser leve, ninada por brisas e ciclones.

e na lembrança eu carrego, feito chumbo leve, todas as palavras não ditas, os afagos que se quebraram no meio do caminho, os olhos que por medo não brilharam, todas as belezas que se esconderam em vazios, os gestos que pareceram não existir diante das dimensões grandiosas de um barulho ensurdecedor, um fio de cabelo que caiu, um cílio que insiste em permanecer, solto, no rosto, um abraço distante, a hesitação de todos-os-momentos que quase aconteceram.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Milord 3

Belle rose, já não sei mais por onde te procurar, parece que você não sabe o que seu corpo representa para mim, eu não posso continuar sentindo o que agora estou sentindo. Ma rose, meu corpo desintegra longe do teu, não consigo mais trabalhar, porque foi embora sem um último beijo? Porque quero te fazer tantas perguntas sabendo que pouco me importam as respostas? Preciso de você por perto. Como você pôde me escrever apenas um bilhete com um endereço falso? Estou definhando e nem tenho para onde enviar estes rabiscos. Minha mente está cansando e meu corpo parece resto de fogueira




(o restante do pedaço de papel permaneceu em branco, assim como a mente de quem escrevia)

Milord 2

Não, eu não voltarei atrás, não voltaria se pudesse, algumas situações são impossíveis regressar, são viagens sem prazo de validade, nacionalização certeira. Deixei algumas peças de roupa, mas sei que não tem volta, deixei por saber que com elas eu regressaria (mesmo sendo impossível, sabemos que eu sempre gostei do impossível) de alguma forma me protegi de mim mesma e sou eternamente grata por isso. Sempre te amei como amante, sem aspirações de ser a única, meu amor nunca exigiu nada, Milord, a não ser amor. Não saberia ser a única, serviços domésticos e servir de apoio em reuniões me deixariam mal, mas ao mesmo tempo ser amante é ser o pesadelo de muitas pessoas, é muita traição, muito sangue, muito nervo. Não, não tenho pretensão nenhuma de voltar, serei eternamente amante, eu sei.

/La belle rose

Milord 1

_Oh Milord, me conceda essa dança.
_Seria um prazer, belle rose.

Começam a deslizar no salão que até então parecia inóspito, anecúmeno, até que a "belle rose", um pouco ofegante, suga o aroma de seu Milord e sussurra.

_Sempre quis dançar com você Milord, sempre te vi sentado com o olhar a se perder entre os vestidos das moças, perdi noites imaginando se meu vestido te fazia algum sentido, oh Milord. Porque está tenso? Sua amada esposa não está nos olhando, ela não consegue se concentrar em mais nada além do prato que lhe fora servido. Milord, eu gostaria de dormir essa noite com você, estou sem casa por algumas luas, não consigo dormir sozinha em época de inverno, o frio me desabriga. Milord, agora preciso ir, a música está acabando e a próxima a se apresentar no palco sou eu, cantarei a música que fiz enquanto não dormia imaginando esta dança que agora se finda. Me encontre após meu número no último camarim. Au revoir, mon amour.

domingo, 16 de agosto de 2009

amada verde:

mistura: não se define nem com dias de repouso, não decantarás, é como uma limpidez turva, fruto de nuvens verdes que nunca se assentam em água. estranhamente tudo que não se assenta, a mancha verde que dança, vários sons, vários tons, é o que faz a limpidez ser mais transparente, como a beleza de uma pequena flor que em meio a uma floresta não a torna confusa, apenas a embeleza suavemente, sem a necessidade de forçar a existência, ostenta simplicidade. a mistura de belos tons não se deixa confundir apesar da não definição, expira características próprias sem a necessidade de provar qualquer coisa, não precisa de conceitos formados. É coisa de pele, minha cara transparência, coisa de calor, afago. Coração palpita em verde, em ver-te, e saudade é quando meus olhos não te alcançam, e doem de tentar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

canibália_19 (flickr.com/sisartori/3815159783)

Seus medos e angústias (problemas, preocupações, contas, obrigações) eram guardados em amuletos sempre que tomada pela música. Rotineiramente entrava em cena como um corpo arrastado, envolvido por cordas de aço imperceptíveis que pareciam tentar partir a fina cintura, e em uma velocidade que machucava os olhos mais atentos, até que caia segurando porções do ar com os punhos cerrados e concentrando todo o corpo para respirar apenas pela pele. Não tinha nojo do chão, pois como ritual (advindo de uma obrigação) era seu corpo que deslizava acima de um pano úmido pelo palco empoeirado, e quando o tempo era curto ou inexistente ela fingia que o pó era resto de estrela e acariciava o chão (na queda) com ainda mais emoção.

Enquanto estava no chão, sem música, seus amuletos brincavam de libertar e prender medos e angústias, até que outra corda, que nunca existira (também), levanta o corpo desprovido de massa ao som da primeira melodia. Desde que a música toca seu corpo, em concomitância o sangue ferve, evaporando por cada poro que se encontra exageradamente aberto, exposto. O vapor, avermelhado, abafa todo e qualquer pensamento que por ventura possa se formar. Sua única preocupação é com o coração, arritmias e paradas, mas seu coração é forte demais, resiste a qualquer pulsação, acostumou com a dança.

Quando dança, desliza, não consegue pensar (na verdade nunca tentou). Dinheiro e maquiagem se tornam a mesma coisa: nada. Se sente nua flutuando entre notas musicais, não existe terra nem céu, o mundo é seu e se pudesse pedir algo a Deus naquele momento, não hesitaria nem por uma nota musical, pediria para a música nunca acabar, para que sua alma estivesse sempre alimentada e leve, capacitada para o voo plenamente.

domingo, 9 de agosto de 2009

conversa

Um casal se encontra em um sebo, enquanto o rapaz se esforça para fingir que não reconhece a moça, esta, segurando um bilhão de lágrimas, começa a proferir pensamentos que por muito tempo foram só seus:

_Então, eu te amo, apenas isso. É o que queria ouvir? Será que era exatamente isso que queria ouvir? Eu sei que não. Você sempre preferiu quando eu dizia que não te amava, só para poder tentar me conquistar um pouco mais. Agora olho para sua expressão muda e digo que te amo porque tenho a certeza de que essa é a única maneira de fazer você ir embora (sem ter que mentir). Tudo se tornou tão previsível, tão corriqueiro... passei a amar essa estabilidade... e se agora, ou algum outro dia você resolver inovar e recomeçar a encenar um amor de feriado, como tantas outras vezes, estará tudo acabado. Você é minha antiguidade mais rara, a peça de entrada de meu museu que estranhamente pode ser tocada por qualquer visitante, exceto seu dono. Não se preocupe em tentar encontrar voz para dizer que não sabe o que me responder, você nunca soube ao certo. Ah, me parece fascinante como a distância de uma montanha para um abismo pode ser tão ínfima. De alguma maneira você estará sempre comigo, me dando força, essa foi a única parte sua que restou. Eu te redesenhei para poder amar uma pessoa íntegra e agora eu não posso te ouvir porque demorei tempo demais te moldando para permitir que você se destrua mais uma vez. E se um dia me amar escreva um poema em um papel rabiscado e jogue-o, ainda inacabado, no mar.

Depois de tudo ouvir, o rapaz que vestia uma camisa azul celeste, sem querer, deixa cair uma lágrima do olho esquerdo e dois livros de poesia de Manoel de Barros, tropeça no degrau e sai do sebo. A moça, ainda em choque, vai a procura de seu livro, agora estava pronta para "desconhecer" seu passado.
algumas vezes penso em criar um amor para poder escrever centenas de cartas desesperadas, escrever sobre meu sábado à noite, encher de detalhes, sabendo que o suposto amor vai ler com desprezo, com preguiça, vai ignorar todo e qualquer esforço que eu faça para chamar a atenção ou surpreender.
deve ser bom ter um amor criado para não se sentir desamparado domingo meia noite e segunda de manhã cedo, criar um amor que quando começar a errar, quando começar a machucar, se possa usar uma caneta para consertar todos os defeitos. um amor que me faça escrever horas em um papel de 7 centímetros quadrados para depois jogá-lo fora, como se o amor morasse no lixo.
mas o amor não mora no lixo, mesmo o inventado, ele nunca vai ler todos os bilhetes, seria inviável. e se, por acaso, eu tirasse um pedaço meu e criasse a partir dele um amor, será que daria certo? não que eu queira um amor a qualquer custo, não quero um amor de verdade, quero uma brincadeira sob controle que me dê mais evasão, me dê pano para manga, um devaneio de carnaval duradouro.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

não é um poema do dia 29/07/2009

Azul, gaivota, manchas brancas macias.
Seria poesia,
poema sem rima que canta:
palavras bonitas ao acaso.

falta de sentimento fere o poema,
vira poema morto, sem sopro.
Tristeza e alegria somem
fundem-se
equilibram-se (e se anulam)

Pele, cheiro, gosto:
As repetições que sozinhas soam novidade.
Ser novo,
tornando-se velho.
As pessoas continuam sangrando, como se sobrasse sangue em seus corpos. Todas estas pessoas estão sangrando, desde as que apenas sangue são, de tão rubras, até as que pareciam ser apenas músculos secos, detentores de uma imaginável força bruta.
Quando o sangue começa a jorrar, a inundar o salão, acredita-se que se torna visível o que nem nomeável é, mas, neste momento, hão de aparecer corpos que fingem não ter sangue nem olhos, nem sensibilidade, nem tato, agindo como alma que nada teme e nada sente.
Algumas vezes, depois de muito sangrar, falta sangue. A pele empalidecida prenuncia fraqueza, os músculos secos começam a virar farelo e o que era corpo, íntegro, torna-se líquido escoando pelas gretas encontradas.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Não existe ''pedra'' maior do que o menor ponto final.

pessoas e suas implicações

Pessoas distantes costumam ser extraordinárias: perigosas, inebriantes, inefáveis.
Se aproximar antes de estabelecer um conceito apurado e sofisticado é o melhor modo de evitar más surpresas. Ao manter a distância, ou ao aumentá-la, quando se encanta, é como se estivesse amarrando uma corda firme no próprio corpo e no corpo alheio e depois andasse, andar em uma velocidade insensível na direção de um abismo, um buraco sem fundo.
Adiar a chegada, então, é pedir cocaína em enterro-sentido.
As pessoas são, enquanto existirem, dores.

Maria Clara, sem fim

Maria Clara era o que a mãe considerava o mais perfeito antônimo de si mesma, então resolveu batizar assim a sua filha. Não se sabe muita coisa sobre ela: era culta, alta, negra, forte, fraca, pobre e esbanjava talento. A menina cresceu e nunca foi clara, seus pensamentos eram tortuosos e quem tentava decifrar se perdia em labirintos. A santidade e pureza que deveriam emananar do "Maria" parecem ter sido impedidos por algum dos sobrenomes mundanos

Marília

Doce feito o mar marília não gostava de bilhetes, de cartões ou de postais. marília vivia pouco contato humano (não é "com pouco contato humano"), aspirava sonhos e inspirava poeira. seus sonhos eram realizados pela metade. Melhor do que não serem realizados... na verdade não, talvez não. não tinha dúvidas e gostava dos calafrios que sentia ao arriscar. Tinha um "olhar político", mas nunca havia participado de um protesto.
Agora, com um olhar externo, um ponto de vista completamente corrompido e superficial, você acredita que conhece, que conhece muito bem, Marília.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sophia - Nerina Pallot

5h e da lareira escapa uma sinfonia, quando se convive em confusões acaba-se aprendendo a torná-las fatos corriqueiros, rotinas, a ter planos prontos para aplicar, pois sabe-se que as coisas mudam sempre e resta dar como resposta aos imprevistos um sorriso dizendo "eu sempre soube que aconteceria assim", mesmo que nunca se tenha imaginado, mas vai ter na pele a firmeza de uma certeza. Sofia, Sofia, estou queimando, estou queimando. Quando se aprende a fingir, o fingimento torna-se a maior verdade, não deixando que nenhum músculo trema ao sorrir ou ao pronunciar palavras que desdizem tudo que se passa em uma cabeça turbulenta, vendaval-organizado. Aprendo a linguagem das palavras quando falo, e é estranho falar tanto quando tudo parece condensado na mente, seja sobre a história de uma criança que nasceu antes da hora ou sobre a vida inteira de uma menina que tinha sorte. Desdobrar os acontecimentos costuma, sempre, causar ansiedade.
Sofia, Sofia, estou aprendendo que sem algumas coisas outras tornam-se impossíveis, apesar de que o impossível sempre revela-se como improvável, existindo uma pequena chance de ser contrariado. Você se machuca, mas continua se sentindo viva como nunca? Às vezes a vontade de se reumanizar é estremecedora, principalmente quando não se machuca o suficiente para comprovar para si mesmo que está realmente vivo, acontecimentos efêmeros, pequenos arranhões, cicatrizes que não ficam por mais que alguns dias. Mas quando não se quer saber que vive, não se quer ter a certeza, não há porque se expor e se machucar.
Sofia, eu só sinto saudade do que não existe mais. Sofia, só se termina uma história quando todos os "i" tem os seus pingos, e seus "t" os seus cortes finais.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

septuagésimo oitavo outono, Presente-passado.

Chegou em casa às 22:17, cansado, havia dançado três musicas em comemoração ao seu septuagésimo oitavo outono, havia subido os três velhos lances de escada, ofegava. Sentou-se na cadeira de balanço na tentativa de recuperar o fôlego e ficou enjoado após se balançar por alguns poucos segundos, a cadeira rangia. A noite parecia terrível e nem se lembrava mais da época em que suas aventuras engoliam o tempo escuro, noturno. Queria dormir, mas o sono não chegava e como sempre fora prático resolveu usar tal tempo para organizar a última gaveta do criado-mudo. Segurou lentamente o puxador da gaveta enquanto se apoiava no tapete e quando conseguiu se sentar quebrou o puxador, teria algo a mais para fazer no dia seguinte. Ele estava feliz, não sabia por que, não ganhou nenhuma ruga ao pensar no prejuízo que tinha acabado de conquistar e conseguiu, com sacrifício, abrir a gaveta mais pesada do apartamento. Havia ali apenas uma caixa preta com rabiscos brancos e ele se assustou ao se lembrar do que poderia haver naquela caixa, mas, como um bom organizador (curioso), abriu-a para organizar as coisas que ali permaneciam, as coisas que não existiram por um longo tempo. Sua primeira sensação foi a de ter conseguido quebrar a barreira do tempo, lia aquela grafia muito bem desenhada "Amor, espero que esta data se repita por mais uns duzentos anos... Felicidades" que o fez lacrimejar e lembrar do cartão que recebera quando fez vinte e três anos, não se lembrava da dona da letra, mas sabia que havia sido uma pessoa especial, chegou a conclusão que somente pessoas especiais seriam capazes de mandar um cartão como aquele. Secou o rosto e umedeceu o nome desconhecido, olhou com mais atenção para aquela incógnita e mergulhou a mão bem no fundo da caixa que reluzia velhas noticias, seus dedos tatearam um papel rústico, que chegava a arranhar a pele, puxou sem pensar e avistou um pacote amarelo-mostarda, estufado de preenchimentos e lacrado com uma fita preta que quase estava sem cola. Como morava só e não mais se lembrava lucidamente da época em que dividia o apartamento com sua ex-namorada, resolveu abrir, não estaria violando a privacidade de ninguém, a não ser de seu passado. Seus olhos se petrificaram e suas mãos tremeram até que o pacote aberto caiu, espalhando cartas pelo chão, como estava sentado e a altura era pouca não espalhou muito, fez um pequeno monte, eram dezenas de correspondências: todas endereçadas e seladas que acabaram guardadas em um envelope rústico. O aniversariante hesitou, mas logo em seguida abriu a primeira carta do bolo, ela estava endereçada para uma desconhecida e ao abri-la notou manchas amareladas e lembrou que havia borrifado colônia de begônia naquele papel adormecido, enquanto se lembrava do cheiro do perfume as palavras eram lidas e voltavam a dar vida ao papel-das-manchas-sem-cheiro e ao ler "...espero que não te machuque tanto quanto penso que machucarei, mas o filho que sua prima espera é meu..." as mãos começaram a tremer e a mente voltava no tempo para lembrar o sol queimando o rosto de sua então amada enquanto decidia não contar nada, decidia não fugir, decidia um aborto, um silêncio. Passou quarenta e dois minutos em transe até que se desprendeu da carta, soltando-a sem cuidados, e foi com sede beber a próxima sem se importar com nomes e fingindo indiferença. Já passava das 23:20 quando escolheu a segunda carta, esta não tinha manchas, era seca como a terra do sertão, e as palavras eram poucas e muito bem escolhidas, era um pedido disfarçado de apelo com algum sentimento postiço dizendo entre outras poucas coisas "... eu não amo você, esse filho não tem pai, seria melhor..." e ao ler estas palavras que haviam sido lançadas com raiva no papel branco-seco, seus 78 anos se reprimiram a 15 e ele começou a chorar feito um adolescente que fora impedido de ir para a festa do domingo à noite, imaginando uma vida inteira regida de outro modo. Esta carta não havia sido simplesmente guardada, tinha o carimbo do correio e um rabisco assinado dizendo que o endereço era inválido, coisa que só reparou após ler a última frase "se você decidir tirar a criança não precisa mais entrar em contato comigo.", sua mente cansada mostrou-se jovem unindo todas as informações e transformou-as em lágrimas que pareciam querer fugir daqueles olhos que por tanto tempo precisaram de colírio para se hidratar. Agora que era sozinho descobria que pedaços seus poderiam estar espalhados por aí, despedaçados também. Com um lenço verde-bandeira, diminuiu a umidade do rosto e pegou um envelope qualquer, fora de ordem, desta vez a letra não era a sua, olhou rapidamente o remetente e reconheceu o nome de sua mãe, lembrou-se de seu sumiço e de seu posterior enterro, a carta não era selada, não havia marcas de cola e era endereçada a seu pai, abriu-a lentamente e avistou as primeiras palavras “Meu bem, tenho tuberculose... as crianças não precisam... entrarei em contato...você... se eu amo?... é por amor... Não conte a eles...notícias...”. Finalmente entendia o sumiço repentino de sua mãe e o seu aparecimento em um caixão meses depois. Pensou em ir dormir, acabara de descobrir histórias que foram omitidas de sua vida, achou que não sabia quem era, sentiu-se superficial. Mas conscientemente sabia que estava curioso, que estava curioso para saber mais de seu passado, saber das entrelinhas e tentar finalmente ser ele mesmo, ou o que teria sido se soubesse o que era. O relógio digital que era quase parte daquele criado-mudo estava zerado e quanto mais o tempo passava, mais o sono fugia, ele não queria escapar da curiosidade e na verdade não tinha como, não se tratava da vida da vizinha ou do irmão, eram pedaços de sua vida em papéis que estavam ali, na sua frente, papéis mortos que gritavam. Parou e racionalizou, começou uma procura nervosa em busca de novas cartas da mãe, passou por vários nomes, entretanto o de sua querida mãe não se repetiu, era apenas uma, ele releu a carta da mãe mais sete vezes e separou-a colocando em cima da cama, embaixo do canto do travesseiro amassado. Escolheu outra carta, mas antes de abri-la ficou tentando adivinhar o que aquela carta continha, seria mais tormento ou um suspiro de alivio? O nome dessa vez não lhe era estranho, se tratava de um velho amigo que havia falecido há quatro anos, depois de alguns minutos abriu a carta e, como estava cansado, ficou feliz ao ver que as palavras eram poucas e que a sua letra era bastante legível. Não era exatamente uma carta repleta de conteúdo, eram poucos e pequenos acontecimentos que eram narrados por ele há quarenta anos “...e resolvi casar... meu pai está bem... mudei de empresa... vamos marcar uma cerveja e um carteado...”, ficou muito feliz em relembrar de coisas boas do passado, já estava pensando que seu passado tinha sido uma mentira, foi então que começou a se perguntar quem guardara tantas cartas sem avisá-lo, não podia mais ligar para o pai pois este havia falecido semanas atrás e seus irmãos não se lembrariam de nada, eram muito novos na época. Abriu outras cartas, mas não houve muita surpresa, apenas ficava explicado o porquê de algumas respostas nunca terem chegado, a culpa era da ausência das perguntas. Depois de cobrir o tapete e parte do chão com papéis escritos e envelopes dilacerados, começou a procurar as primeiras cartas, mas não conseguiu achar, se ergueu lentamente tentando enganar a hérnia de disco e avistou o relógio que mostrava 03:56, seus olhos já estavam mais fechados do que abertos e seu corpo só pedia descanso em uma cama macia, deitou-se. Seu relógio biológico deu defeito, passou das cinco da manhã e seu corpo não demonstrava nenhum sinal de movimento, quando o Sol se posicionou no alto, sua cama fervia de calor, seu corpo transpirava e seus olhos se abriram, retirou o cobertor daquele corpo em chamas e se sentou, fechou os olhos com força e pediu para ser um sonho, era seu único desejo, mas as cartas tomavam conta de todo o piso do quarto, não que tenham se multiplicado, mas estavam completamente espalhadas, “Maldita janela aberta, maldito vento!”, foi a única frase que proferiu na tarde de um sábado ensolarado. Resolveu procurar novamente as primeiras cartas que lera, queria ter certeza do que realmente as tinha lido, se achasse, prometeu pra si mesmo, iria buscar mais respostas, buscar as respostas que nunca tiveram uma pergunta. Anoiteceu rapidamente sem nenhuma carta fixa em sua mão, apenas a carta da mãe, amassada e um pouco rasgada, tinha destaque naquele mundo de papéis. Olhou novamente pela janela, mas sabia que se tivesse voado já estariam onde os olhos não alcançam. Cansado e com dor em cada parte do corpo foi dormir novamente, desta vez não de qualquer maneira, estava abraçado com a carta da mãe e rezando para achar as demais cartas, as cartas que “entra ano e sai ano” e não são encontradas.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

acordei não me importando, com vontade de um frio glacial e uma vela em chamas queimando cada pedaço de pele que me cobre, com vontade de sentir na pele cada chama, cada ponta, cada lâmina, cada farpa e sair cheio de cicatriz, histórias, falsos contos.
acordei querendo ver o dia passar enquadrado em uma janela, em uma porta, colorido por um vitral, através de um raio-x, negativos de velhas fotografias.
acordei sem querer acordar, querendo viver aquele sonho comum até morrer e poder renascer em mim mesmo.
acordei com um vento frio e um feixe quente de luz que me jogava na cama e me arrastava para a porta.
acordei e enfrentei o chão entapetado de gelo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

cartão postal na véspera de natal.

Meu bem, ainda estou viajando, não cheguei ainda onde pretendo chegar e não sei se um dia poderei estar lá, sei que ainda me locomovo, enquanto posso. Aqui não faz calor nem frio, é tudo muito ameno sem você, sua proximidade que me põe em brasa e sua pequena distância que me congela agora não mais agem sobre mim, a distância é demais. Novidades surgem a todo momento e se sobrepõem de tal maneira que não sei dizer se são independentes ou se é uma coisa só, um só doce-monstro-gigante a tentar me assombrar enquanto o saboreio. A música está acabando aos poucos e o Sol se move lentamente, como quem se sacrifica ao subir uma montanha de lixo hospitalar, mas sabemos, é a única coisa que sabemos afinal, que depois ele despenca bruscamente com todo seu peso e brilho espalhando escuridão. Agora anoitece e amanhece de uma maneira diferente, os dias não parecem tão longos nem as noites tão curtas, eles se equilibram e nada parece ser tão lento ou tão demorado. Meu bem, estamos tão longe, mas nunca senti seu cheiro como sinto agora, alguns dias acordo exalando você e tentando internalizar tudo de ti que consegue sair de mim, daqui. Meu relógio começou a brincar de corrida, de ir e de voltar, resolvi guardá-lo naquela mochila de inutilidades até que sirva para me alimentar, junto com todos os outros objetos de valor (eles se tornaram inúteis como barras de platina no deserto). Agora estou só, nosso cachorro morreu e tem mais de duas semanas que não vejo espíritos. Alguns momentos me sinto só, mas passa, eu sempre gostei de estar só, talvez eu consiga isso de volta para mim. Estamos longe, não sei se sinto saudade, se amo, se gosto de você. Sinto sua falta.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

à vontade

conhecer como se monta castelos de areia, cada grão. fazer os contornos, barreiras que protegem das ondas, lagos artificiais, beleza que se vai com a maré alta. e depois de tudo que se tem feito, depois de todos os grãos, de todas as curvas e de todas as barreiras, a noite se aproxima pronta para desmanchar tudo e dar a areia nua para o menino que caminha beira-mar ao nascer do sol, uma chance de mais um castelo, de nenhum castelo, de fortalezas, casebres, deserto.

sábado, 13 de junho de 2009

carnavalizar

Carnaval, música alta, asfalto sublimando, pressão completamente incalculável. Os corpos molhados se uniam e se repeliam, poros abertos como narinas ofegantes, pedra, flor, espinho. datas ou dados temporais não tem validade, importa apenas a pele, poucas palavras, nenhum entendimento.

Um grupo de burgueses atravessa a rua com faixas, bandanas e panfletos cuspindo números, os malditos números que recordam horas, dias, proximidade do fim. algumas pessoas começaram a re-engolir os números que tinham vomitado horas atrás. Os burgueses, que gastam mais tempo e dinheiro com animais do que com pessoas, pedem por paz e pelo fim do carnaval, mostram gráficos, fórmulas e projetos do que poderia ser feito com tanto dinheiro: outro carnaval.
A passeata dura trinta e sete minutos, depois dela alguns manifestantes se deslocam para camarotes e tomam conhac com o dedo mínimo erguido. as pessoas voltam a vomitar os números e a banda continua a desarmonizar as notas. Cantam músicas agitadas para pedir calmaria, sair no jornal, ganhar algum dinheiro. Absolutamente normal, comum, banal, irreparável.
Os males se estendem, ocupam o ano, o bem regride.

Maria, moça dos livros, mora na porta do carnaval, costuma ficar triste nesta época do ano (não que seja feliz o resto do tempo... mas é que nesse tempo ela murcha, se afasta dos livros, briga com o próprio sorriso). Aprendeu a fingir que carnaval era domingo de páscoa, passou a comer chocolate, atravessar a rua com naturalidade, se fazer de surda.
Em um dos domingos de páscoa foi comprar chocolate, tropeçou algumas vezes, não pediu desculpas e nem desculpou ninguém, afinal sua rua estava deserta e um homem gritava em um carro grande revestido de luz e som, já sabia identificar a música com os pés, não se importava mais. Um moreno lhe pediu um beijo, ela foi comprar chocolate, um ruivo lhe pediu um beijo, ela foi comprar chocolate, um amarelo, um moreno, uma alma, um beijo, um beijo, um beijo, chocolate, chocolate, chocolate. Diante da pouca variedade da vendinha, normalmente, comprava o meio amargo, ficava feliz por comer uma barra inteira e não enjoar, às vezes comprava de outros sabores, mas era passa-tempo, a água na boca era sempre proveniente do meio amargo.
Quando o domingo, que amanhecia e crepusculava algumas vezes, se despediam um meio dia, começava um dia já com o sol reinando, a semana que começava na quarta, nada de belas luzes coloridas a brincar de se esconder entre edifícios, era assim a curta-quarta depois dos domingos. Nunca acontecera diferente: almoço, cochilo, música lenta, café, cabeça nas núvens pensando no quase-eterno domingo-irritante que passava a ser agradável e doce.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

quando se tem um mundo(de idéias) para escrever e uma expectativa(média) de 71 anos: INCOMPATÍVEL.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Admiração: hoje, ontem, há meia hora atrás, acredito, acreditei, acreditei, que não há sentimento mais nobre e mais bonito. quando falo de admiração busco as raízes mais profundas de tal expressão, não falo de uma relação de fã-artista, nem de culto à miss universo, é a admiração que vem após o conhecimento, após a convivência, após a aproximação. porque existe promessa de dividir uma parede, um texto, histórias, fatos, ficções e paixões de carnaval.
Admirar: olhar para a pessoa e ver tudo aquilo que você acha fascinante e inalcançável sendo realizado naturalmente.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

dilacera os calcanhares com dois punhais: um afiado, outro cego.

sábado, 6 de junho de 2009

brinquedos reais são fragmentos

me rasgou ao meio, sabia o que dizia, tinha a voz firme, pareceu ter ensaiado o que dizia há alguns séculos, elevava a intensidade sonora com a certeza de que era convincente, convicto, tinha absorvido 350 páginas semanais e o único luxo aparente era uma aliança, simples, de ouro amarelo. As palavras jogadas me aproximavam do chão, ou aproximavam o chão de mim, difícil saber o que de fato se movia naquele momento. Seus olhos, ditos miopes, apequenavam-se por detrás de um par de lentes, era pura concentração e meus ouvidos enxergavam. Ao passar dos segundos começava a ter raiva do tempo, de sua passagem, raiva do ser que falava as coisas que eu tanto fingia não saber e tinha a desculpa, por nunca ter ouvido diretamente, de não saber. Fruto da raiva comecei a morrer, me desfragmentar em agradecimentos, afinal brinquedos só são reais quando desmontados.

Obrigado, Wilson.

domingo, 31 de maio de 2009

"porque não" não é resposta

Existem inúmeras causas para que os comentários não sejam permitidos neste blog.
As pessoas costumam ler textos e comentá-los, contanto se não estamos em mais uma avaliação rústica e equivocada, porque então ainda a vontade de comentar? Talvez aquele espírito competitivo que muitos buscavam se afastar acabou se consolidando internamente, a vontade de ser o melhor "entendedor", como se fosse possível entender tudo de um texto alheio. Principiando as causas, essa é a primeira, tentativa (talvez vã) de podar um sentimento tão mesquinho e (in)consciente. Certa vez os comentários em meu blog eram livres, como uma liberdade ridícula, e percebi que grandes leitores eram grandes distorcedores, percebi que após o primeiro comentário o caos se completava magnificamente e todos os demais passavam a ser permeados por idéias do texto que nem existiram um dia. Resolvi por fim cortar as asas de uma liberdade cara, ela custava meu suor, resolvi ser mais sincero comigo e troquei o prazer de ler um comentário por um vazio cheio de interrogações. Além de todos os pormenores existem algumas outras causas, algumas que lembro agora e não comento, outras que só vou lembrar ao publicar esse texto. Mas antes de colocar o último ponto, lanço uma ultima justificativa (tão desnecessária quanto as outras): sem comentários não há certeza, nem em quem escreve nem em quem lê.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Inevitavelmente a boca fica seca. Vazia.
Independentemente passa. Esvoaça.
O vazio é o que sempre fica, volta, evasão não-instantânea. Como não aprender a amar o que sempre está presente, ausente, estabelecimento de probabilidade: gozar o vazio. Ficam dúvidas, dúvidas não precisam acabar, aprende-se a lidar, ligar para São Pedro e pedir para falar com Deus, perguntar as coisas que são dúvidas e ouvir: "Se ainda não divulguei as respostas é porque as dúvidas te interessam". Distância concreta é vazio, evasão, e dissipa-se em minutos o que dura anos.
Os olhos não falam. Não se pede palavras para quem olhos tem, para quem ainda tem um sistema nervoso jovem, novo, forte. As palavras não são pedras por poder machucar ou por "serem eternas", elas são pedras por poderem se despedaçar ou despedaçar o que a pele constrói. Palavras tem hora, verbalizar é temporal. Silêncio. As sublimes coisas não podem ser verbalizadas, tenta-se, caem. Os olhos olham, não precisam se apoiar no "falar-da-boca" para se consolidar. Os olhos olham, pele toca, nariz cheira, todos sentem e não precisam falar, mas a boca que fala olha toca cheira e sente. Os olhos, não falam.

domingo, 24 de maio de 2009

carta de hospital.

Filho, parabéns pelos seus 21 anos. Primeiramente te peço que não culpe ninguém por não ter te contado que eu estava doente, não se zangue com sua mãe, ela nunca cortou tanta cebola quanto te dizia naquela época. Foi difícil convencer a todos de que teriam que mentir, mas foi o melhor que pude fazer. Espero que agora que chegou ao limbo da vida entenda que com 6,7,8 anos você não entenderia que seu pai era humano, que perecia. Escolhi não umidecer sua infância com lágrimas de uma família inteira, além do mais porque algumas delas seriam secas. Eu te amo tanto filho que dói mentir para você, dói fazer os outros mentirem pra você, mesmo que seja para não te ver triste e temo que você passe a me ver como um covarde, mentiroso. Estou com saudades, não estou viajando a trabalho como lhe disseram, estou internado, esmorecendo, querendo que cada pedaço de vida que sai de mim vá para seu peito, porque é uma dor que chega a não se sentir nada, a dor de te deixar no mundo, mesmo sabendo o quão sua mãe é amor. Lembro de você aprendendo a falar, andar, desenhar, riscar paredes, a dizer com os olhos tudo que sente por mim. Agora, com 21 anos você é do mundo, e o mundo já sabe disso, o mundo esperou 21 anos por isso, como eu temia esse momento, mas chegou e se você está lendo essa carta é sinal de que não resisti aos intemperes da vida, não pude te abraçar essa manhã, te dar uma caixinha pequenininha com um embrulho mal-feito contendo a chave de uma moto, um choro contido, orgulho. Apesar de eu não poder ter feito nada disso e de não estar presente desejo para você o maior sentimento de satisfação e liberdade, porque vivo ou não algo meu neste exato momento que você está lendo esta carta está concomitantemente vibrando só por você. Não sei se serei alma, espírito ou apenas matéria inorgânica, eu apenas consigo te amar como se você fosse muito, muito maior que eu, e eu uma pequena parte de você. Realmente dói pensar que você pode receber essa carta, que você pode chorar, mas sempre quis que soubesse que meu amor por você ultrapassa a vida.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um domingo que começou como quem queria ser segunda. Ainda havia suspiro de sextas-feiras, mas era domingo, então ele resolveu viver o dia. Calor de desconcentrar. Estava tranquilo, era um domingo café-com-leite mas sem o café com leite de sempre. Fez coisas que não planejou, se surpreendeu com o que deveria ser previsto e dormiu assustado após rir como uma hiena de desenho animado.

sábado, 16 de maio de 2009

bilhete

amor, vou te abandonar. nunca pensei em dizer palavras tão sólidas com papel e caneta. amor, eu te abandono por amor, me entenda que é muito, amor. estou indo para o mundo que tanto anunciam nos jornais de domingo, busquei informação e descobri que a-ventura faz bem para a pele, te peço que não apele pelo quer que seja, não deixarei nenhum espaço depois de minha saída, apenas desinformador papel. sendo sincero, eu não gosto de te chamar de amor, nunca gostei, mas acostumei, assim como acostumei com sua arritmia cardíaca e com suas lágrimas no café, mas amor se tornou seu nome e agora você se tornou um ser inomeável, uma face em minha lembrança. tenho sua foto três por quatro que foi tirada para colocar no passaporte que você nunca tirou, você não sairá rapidamente da minha lembrança. eu sei que vou te amar sempre, porque você se auto-nomeou como amor e me acostumou a te amar, mas no jornal falavam de fuga, tenho que viajar e não quero voltar. vou plantar solidão por ai, vou colher bobagens, ser humano para saber como é. li a pouco que alguém disse que ninguém atravessa o mesmo rio duas vezes, me ofendi, honro meus sentimentos, mas resolvi te deixar informada que me ofendi. e se eu te amar de verdade e quiser voltar, eu posso voltar, meu orgulho é pequeno, abocanhável. o médico disse que estou desnutrido e acima do peso, nunca pensei que pudesse existir diagnóstico tão equivocado, atentei para que ele não percebesse minha cara de desconfiança, peguei a receita, paguei a consulta e joguei no lixo da recepção o papel ilegível. vou ter saudade de quando você não sabia nada de mim, agora você me tem aberto ao meio, cada órgão devassado e estudado. não irei voltar nunca, não iria te (re)conhecer, você foi sempre tão límpida, vazia. sempre gostei do seu vazio mas estou indo preencher o resto do mundo. não aguento mais chorar pelos filhos que não tivemos, pelos anos que não vivemos juntos, mas estou feliz por te deixar, te deixar inteira, sabendo que o pouco que tirei de você o tempo irá repor, espero que ele o faça por mim, estarei longe. sentirei muita saudade do seu barulho na cozinha, de seus olhos anunciando o almoço, de sua cinta-liga preta que nunca fora usada.

com muita vontade de ficar e o desejo de partir, Seu Amor.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

maior felicidade

Ter um filho é como adquirir um produto, contanto não pense no materialismo, sejamos práticos. ter um filho é possuir o produto mais valioso ( sendo que para "os outros" é mais um igual a tantos, logo, de pouco valor). ter filho é dispor-se a se vender por ele, é tirar sua vida por ele, é ser por ele. Escravas e índias abortavam para que seus corações não fossem marcados mais a fundo com mais ferro incandescente. abortar é adoecer a alma, perceber que pôr a alma em risco por um "desconhecido" é entender o amor pelo que "quase não existe".
Há a crendice de que não há sensação melhor do que ver um filho feliz, mas será que há? beira ao impossível em minha mentalidade de 18 anos e meses e meses. a circulação fica fraca quando se pensa em filhos, em filhos felizes. como consequência a maior felicidade é o que pode causar a pior dor. Logo, ao pensar em filhos, penso em dor e fica um medo imensurável de ser pai, e a história de "ter medo de ser feliz" ao tomar tais proporções é vista como bobagem, fichinha.
Não há vontade, em mim, por hora, de viver eternamente. Não é desejo de ser mais mortal que qualquer pessoa, o que não se quer aqui é enterrar todos os corpos que emitiram calor para mim, viver eternamente seria uma noite de insônia infinita, seria chorar e cansar. Mas, sendo pai, iria querer viver muito e morrer na hora da morte de meu filho, de preferência já velho e que ele esteja compreendido de que "deu tudo certo", que eu espero que tenha dado. Sendo pai, iria estar feliz em enterrar todos, sabendo que ainda poderei proteger meu pedaço, minha cria, o eternamente indefeso. A paternidade, em mim, me assusta, pois sei que teria uma vida das coisas que poderiam ser feitas e não foram. Iria mudar todos os conceitos fixados em meus nervos, eu seria como um cupim, eternamente dependente de meu protozoário. Não choraria saco meu protozoário morresse, iria junto, meu corpo é reflexo de minha alma. E esse meu medo de ser pai é depender de um humano para ser humano.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Discernir o ser do não ser sempre foi uma confusão da cabeça do Luca, ele nunca soube o que ao certo era errado e deixou por fazer alguns possíveis acontecimentos. Diferente do outro Luca, seu vizinho, já nasceu sorrindo, esbanjando ilusão e hipocrisia. Desde que viu a face do obstetra soube que não gostaria da vida terrena, mas mesmo assim hesitou em tirar os pés do chão, pregou-se em granito bege com manchas escuras e fingia flutuar com todo peso aos seus pés, em seus pés. Desfilava os dentes que eram mais alvos que marfim pelas ruas de barro, era o mais simpático e nunca marcou o coração de alguém, como se fosse preciso ter defeitos para ser reconhecido como pessoa, humano, tocável. Nas férias de inverno, ao acordar, foi silenciosamente até o ouvido da mãe e lhe disse baixinho "tenho dor no peito esquerdo" a mãe coçou os olhos, ainda untados pelo sono, piscou algumas vezes aqueles olhos negros e bebeu um gole de água, sentou-se apoiada na cabeceira da cama, como se não tivesse força para apoiar-se sozinha, e respondeu "como filho? o que você disse?" ele respirou fundo, como se aquilo doesse, e ratificou "tenho dor, mãe. no peito esquerdo" a mãe começou a perguntar sobra a dor, perguntou como era, onde era, quando começou... então o menino deu um pulo, que mais pareceu soluço, e respondeu que não sabia nada a respeito do que fora perguntado, sabia que doía. começou a se perguntar se sempre doera e só sentira agora, ou se era realmente algo novo em seu corpo até então fechado para incômodos. enfim disse para a mãe "não quero ir ao hospital" a mãe, que até então só tinha pensado no hospital por costume, mas não como solução, passou a encolher-se no canto da cama e puxou Luca para seus braços-de-mãe "é paixão, filho?", "não mãe, não sei. e você, paixão?", "não filho, a dor é no seu peito", "mas então porque chora?", "ah filho, eu senti essa dor por um rapaz antes de conhecer seu pai", " e o que esse rapaz fez?", "ele foi humano...", "e onde ele está agora?", "onde ele está eu não sei bem, mas lembro-me sempre do dia em que ele acordou, chegou no meu ouvido, eu mal podia ouvir, e falou de uma dor, no peito esquerdo, o suficiente para morrer depois de completar dizendo que a dor era boa".
Luca estava esquecendo a dor quando resolveu ser ele mesmo, sem marfim.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

puro instinto

Animais zumbiam enquanto renascia o Sol, após morrer milhares de vezes. Ele estava nu no deserto e se achava completo, sereno. Sentiu que estava cumprindo sua missão, ou que tinha cumprido com louvor. Hesitou tenso, lembrou de seu quase-afilhado que morrera enquanto plano semi-completo, era um feto, um belo projeto humano que não vingou, faltou-lhe vida, e após o incidente se concretizar a mãe não vingou em sintonia, morreu de fome com a dispensa cheia. Findado o pensamento, o Sol alcançou seu esplendor do meio dia e sussurrou luz na pele do corpo desprotegido, seguiu-se de arrepio e pergunta "Deus, se acaso cumpri minha missão, e todos cumprem suas missões, a missão de uns é matar outros?" Deus engasgou, e ao chegar neste questionamento o Sol esfriava e banhava de cores as lágrimas secas que deslizavam entre as rachaduras da pele áspera. Viu o Sol no auge da sua beleza e percebeu que era o momento mais próximo de sua nova morte, os animais voltaram a fazer barulho, que dessa vez se assimilava mais à silêncio, como se respeitassem o momento. O Homem lembrou do rapaz que rezava diariamente pedindo dinheiro, riqueza, poder... e saúde, este sempre fora atendido pelo tão generoso Deus, que agora se encontrava engasgado com tão simples questionamento, Deus que, por rezar baixo (fruto da inanição), não conseguiu escutar o mendigo que morreu de fome defronte ao supermercado. Ás onze e cinquenta e oito sentiu uma fraqueza, não sabia o que Deus era, no que Deus se tornara, perdeu a fé no último minuto de vida, escreveu na areia que não havia missão, e com o frio deitou-se em posição de feto, servindo como ponto final de uma frase recém concluída. Ao amanhecer, ao renascer o Sol, havia uma nova duna, nenhuma frase, nenhum corpo, apenas alguns bichos que festejavam o dia sem consciência, puro instinto.

domingo, 19 de abril de 2009

Bom mesmo pode ser uma loucura, ser Dom Quixote sem cavalo e sem Dulcinéia. Sancho Pança quando houver necessidade, mas Dom Quixote nas horas vagas. Mudar rapidamente, sem se lembrar que se é dois, sendo um, um apenas no pensamento, dois no viver de sempre. a Dulcinéia passa a ser objetivo e os livros de cavalaria hão de ser histórias em quadrinho, os prédios serão árvores imensas e monstros maiores ainda, os carros animais selvagens, dinheiro fruta, e fruta bônus para a longevidade. As pessoas são santos, quase intocáveis, semi-deuses que pecam, mas que amam. Os livros são os pais dos filmes que leem historinhas às 20:30 da noite, e nós, Dom Quixote, Calvins e Mafaldas com humor adulto e de resto infantilidade.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

15 de abril de 2009

Quando nasci a Alemanha estava se unificando, um sonho utópico estava deixando claro que fora só um sonho, de poucos -muito menos do que se pode imaginar. Comecei a andar com o fim do Apartheid, a Palestina estava velha, e continuava a envelhecer, virar cinzas. Desde então era claro o "fim" do meio ambiente, reuniram-se. Na terceira série, com nove anos, aprendi que o homem já havia feito do semelhante "algo menor", enquanto o exército sérvio fazia uma "limpeza étnica". Nesta época fazia poesia rimada, me preocupava com coisas realmente importantes (considerando-se época, local e idade), nesta mesma época acreditava que os "homens bons" já tinham morrido e que qualquer eventualidade, crise ou miséria fosse fruto de um passado, bem passado. Com o andar da carruagem fui percebendo que não tinha tanto tempo que os "homens bons" tinham morrido, e na quarta série decido me casar com a garota mais "histórica" da sala, ela era brilhante, seriam belos filhos. Depois descubro que não se pode (deve) casar só por uma questão de "melhoramento da espécie" e resolvo seguir até que os mortos parecem mais vivos do que os vivos que estão para morrer. Dois anos de insônia e muita assombração. Os ponteiros completaram centenas e centenas de voltas e vezes e vezes - que não são raras- fico atónito, afónico: esses "homens bons", o que querem? o que esperam? eles existem? são tão distantes? porque? seria o lobo mau da historinha, o super homem?
Uma vontade de ser só som.

15 de abril de 2009

Na ordem dos acontecimentos cada fato-notícia é dependente de tudo e a partir de tal dependência depreendem-se comentários. Se isto acontecer, logo aquilo some de vista e o próximo fato nem comentado há de ser, se isto esquece de acontecer aquilo aparece como notícia única e brilha em cada dente que tintila comentários vis. Vivendo do "se" esquece-se de viver, pois o "se" vive por si só sem saber o que acontece, de fato, sem notícia.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

23 de março de 2009

A natureza traz seus benefícios, que a propósito não são muito finitos, porém a vida (civilizada) precisa, por ora, de contato com outra vida (civilizada). Tanta perseguição e enjaulamento são questionáveis, é difícil fugir das correntes, das adagas permanentemente a centímetros da jugular, sofreguidão vermelha. Não se vive na natureza selvagem plenamente feliz, por que o homem criou a felicidade com inúmeras dependências, arraigada nos lábios alheios, contudo tal felicidade ao ser comparada com a cidade há de ser céu e êxtase.

23 de março de 2009

"tudo parece o que é" assim escreveu (e publicou) Paulo Henriques Britto, como se para existir precisasse parecer ou não o que é. Ou pior, como se algo pudesse ousar parecer com o que de fato há de ser. As coisas simplesmente, de maneira complexa, são o que deveriam ser, ou puramente enganam quem vê o que tem que ser visto por alguns olhos desatentos. O "parecer o que é" é dizer o já dito, é repetir a dor que já se acostumou a doer, que não dói mais: Tudo é aquilo que só não é o que parece ser.

20 de março de 2009

esquecendo o azul


Tem um poço azul por detrás das entrelinhas que não mais se vê, pulso pulsando em meios termos, limitados, ofegantes, tênue coração de ser, de estar, afogar-se no ar, no meio de todos sentir-se deslocado, fingindo colocamento para nada. Tem-se que amar o lago azul, apenas por ser lago...

20 de março de 2009

FÉ NA RE INVENÇÃO
INTERVENÇÃO E...
(3.'S NO aR)
Peito que pulsa.a
dor que desatina, o silêncio
Gritaria. CORAGEM, LHOVARDE.

terça-feira, 31 de março de 2009

12 de março de 2009

as coisas estranhas costumam ser mais naturais do que deveriam
muito que provavelmente a causa há de ser o pequeno,
ou grande desespero de uma espera, mas não importa o que aconteça:
se por acaso for como se espera a graça se esvai, se evade forçadamente,
exala por cada greta, cada possibilidade de fuga.
Espera-se pelo previsível e despreza-se o previsível, que povo é esse?
é uma questão de costume, educação, é possível mudar, acostumar com certas coisas
apenas com certas e por isso mesmo tem-se que ficar atento,
o certo e o errado são conceitos duvidosos, então cuida das coisas estranhas.

domingo, 8 de março de 2009

07 de março de 2009

Escrevo muito sobre o vazio, talvez eu possa (tentar) explicar, me desjustificar: já falei da beleza do vazio, ele é cheio, cheinho! As palavras, por mais que sirvam de adjetivo, não explicam as coisas (exceto as objetividades mundanas. Mas também não me interessa falar das objetividades do mundo). Gosto de palavras vazias, elas dão espaço às reais dimensões das não-objetividades, é o vazio delas que as preenche. Provavelmente já disse isso algumas vezes, já que está próximo de solidificar-se em mim como um conceito, mesmo que contra a minha vontade, meu tempo livre é para mudar conceitos, me mudar, então é melhor que nada disso se solidifique, ainda mais uma idéia que me faz evadir.
Fujo do tema, me perco nos pensamentos (são infinitos), mudo palavras e pontuo errado -cada um desses atos tem sua impotância- isso é porque não tenho que explicar, não tenho que ganhar nada, nem vou perder, apenas idéias [muito bem (des)organizadas].

07 de março de 2009

Vou evadindo, lembrando e esquecendo, vivendo novamente as novas facetas cotidianas. Já disse uma ou mais vezes, repito como quem nunca comunicara outrora: vou esquecer, vou arriscar não saber. Culpa da objetividade, essa mania besta que se costuma cultivar. Em mim ela não cria raiz, sou quase deserto de sentido, como um vale (evoluindo por um abismo).

07 de março de 2009

Quando se pensa,
pena,
cantar eternamente:
a, velha,
mesma (uma palavra vicária)
Resiste ao sono,
entrega-se,
dormir,
acelerar,
mover o que se move.
Inomeável descompasso, inqualificável.

04 de março de 2009

Pensar nunca é em vão, pensamento crítico é redundância e as pessoas pregam igualdade enquanto guardam centenas de centenas de coisas (inutilizadas-dinheiro também é coisa, mercadoria). Tudo isso parece ser demasiadamente comum (porque de fato é), contanto qualquer pessoa que utilize o "pensar" logo percebe que são atos falhos do ser humano, ou seria um não-ato, uma busca pela inércia sempre: os que estão estagnados não 'querem' se movimentar e os que estão em movimento não querem parar (ainda bem que não querem parar, não se pode parar nesta roda viva



{apesar da repulsa, os parênteses ficarão abertos}

03 de março de 2009

Há limite para a tolerância (o título passou a ser questionado por mim durante a digitação do texto)

Volta Joana sorrindo após meses de desaparecida, casou-se, foi infeliz e viveu solteira para sempre.
não, não, não: Joana volta viúva, nunca pensou em separação, era apaixonada pela mente do marido, que carecia de outras qualidades (coisa sem importância diante do cérebro). Admirava-o dormindo, de perto, de longe, ela admirava a maciez de seu sorriso, não tinha medo de sua mão, gostava de sua fé, sorria como o pôr-do-sol e sonhava ao se esquecer da finitude da vida. Acreditou na união eterna, mesmo que por alguns segundos e alguns abraços. Talvez por ter tido medo, morreu sem ninguém saber realmente a causa da morte, e os médicos disseram em uníssono: "Joana, nem ele explicaria". Mas Joana continuou viúva-viva, às vezes sofria (pouco), chegou a pensar no céu e no inferno, na verdade era atéia de coração, as pessoas não lembravam se ela sempre o fora, mas agora sabiam o que ela era. Pensava no passado demasiadamente, não sofria sempre mas chegou a se arrepender sete vezes por não ter levado "sua mente" ao médico do décimo nono andar, teve receio da sociedade e odiou a sociedade até ser tolerante novamente. Fingia que nada mudara, sabia que agora era outra pessoa e pensou em se mudar novamente, pensou em vão: pensou por não haver o que fazer na sua situação.

03 de março de 2009

Se não gostares de algo, não gostar de ter sido, tem que aprender a gostar do "ser", ou engolir o mundo, mudando para o que te agrada. Ninguém está (realmente) tentando te agradar: agrade-se, o mundo é uma queda infinita onde parece mais fácil viver agradando trilhões de seres, mas você pode agradar um, agradar quem pode ter certeza do agrado, agradar-se.