domingo, 29 de julho de 2012

olhos grandes e gordos

_Sara, sinto que existe um ponto neste momento. sinto que preciso escolher se devo ficar antes ou depois dele. sim, Sara, estou em cima dele. mas é por pouco tempo- me foi ordenado que me decida, caso contrário me empurrariam e eu não sei para que lado cairia. acho que preciso escolher alguma coisa. você sabe, sempre te digo isso: escolhas sempre são feitas, adiá-las, por exemplo, é uma escolha. mas não me canse com essa minha velha conversa porque tudo que está fora desta cama me cansa hoje. é como se tudo estivesse se equilibrando em minha cabeça enquanto eu me equilibro em um mísero ponto. quanta injustiça, quanto cão. que inferno. inferno, inferno, inferno, inferno. e ainda faz calor. não ria de minha cara, está cansativo manter alguma ordem, manter um rosto minimamente íntegro. eu queria que você me ensinasse a desintegrar esse ponto ou aprender a resolvê-lo com esse seu sorriso cético ou a me levantar levemente após tropeçar nesse ponto, nesse maldito ponto que parece ter a função máxima de me irritar. não ria. pare. não, gargalhadas não. você é incurável. você sabia que você é incurável? é tão gostoso conversar com seu rosto, com suas expressões, logo logo você diz algo que vai me abalar pelo resto da noite. você é incurável. eu não vejo cura para uma falta plena de doença. não se esconda por debaixo do cobertor, você não tem mais a fofura de quando tinha 4 anos. estou me recordando quando você colocou Love Me Tender na versão de Norah Jones e me fez chorar parado olhando para seus grandes olhos durante horas, naquele dia não consegui nem andar em sua direção. porque você faz isso? você cria pontos, vírgulas, você exclama pontos, interroga vírgulas, eu nem percebo enquanto você sai modificando tudo ao redor e sempre me deparo com o inesperado, com o irreal. sinto que existe um ponto neste momento, fora da cama. eu gosto de estar trancado em lugares reservados e atualmente gosto de estar nesta cama com porta trancada e janela aberta. gosto que o telefone esteja na sala gosto do ventilador ligado, lento, pouco barulhento vejo seu rosto tentando me interpretar e logo em seguida cansado de mim sem o mínimo esforço de demonstrar atenção. já houve esforço? sempre pensei que você fingisse bem, até sugeri que você tentasse o teatro. era tudo verdade? eu não consigo acreditar. você está, mais uma vez, com esses olhos grandes e gordos, me fazendo falar de um nada, como se nada existisse fora dessa cama. basta eu colocar todos os pedaços do meu corpo aqui que nada mais me atinge. você passa a ser meu único ponto, eu passo a não pensar mais no ponto como um problema, como uma decisão, apenas espero que me empurrem que me levem para qualquer lugar, apenas fico em cima do ponto.


_as pessoas podem se habituar ao horror da vida real – ou não.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Não vou soltar sua mão, me é lícito dizê-lo porque é a única coisa que posso fazer agora: me segurar em qualquer ponto de apoio que me impeça de cair. Olha lá para baixo! Vê os pontos vermelhos-amarelos-laranjas? A realidade é fogo, meu signo é ar.
Não posso soltar. Sabe, às vezes as pessoas vivem em outra realidade,
às vezes as pessoas estão em outra sintonia,
daí chega alguém que é de terra, principalmente signos de terra, e insistem em contar da realidade comum, do que estamos acostumados, e contam,
e exigem compreensão
e insistem.
Eu sou de ar, sabe. Tem coisas que a gente não tolera, não suporta, a gente surta.
Sim, passamos de lunáticos a surtados.
Culpa da terra, e fogo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vai ver foi isso

LittleTrouble, estava aqui pensando, lembra de como nascemos? De como tudo parecia tão fora de ordem, tão divertido. Eu sorria e estava falante, você me olhava fundo e falava coisas para que eu permanecesse ali, sem saber você que eu estava tonta, que eu não conseguiria levantar mesmo se quisesse. Não lembro se queria. É tão bonito lembrar do acaso, da maneira despretensiosa que não trocamos telefone, que não trocamos sobrenome, que nos deixamos soltos no espaço como quem crê que haveria reencontro, como quem crê em destino, em sina, em nada.
De repente tínhamos música, passamos a viver na noite, passamos a não dormir, chegar com olheira em todos os lugares, emagreci, comecei a definhar. Não sei delimitar quando mas em um certo momento me encontrei de frente para o espelho, ainda embaçado pelo banho fervendo, tentando decifrar um rosto úmido de água e lágrimas. Sabe, eu nunca entendi a evolução de todas essas coisas. Eu não vi nada acontecendo, lembro de fragmentos. Dizem que o sono é fundamental para a memória, vai ver foi isso. 

Apenas o Fim


Porque o abandono é preciso, escrevo isso com lágrimas nos olhos, nas bochechas, adentrando boca e pele e tudo mais. O abandono é a maior entrega, sabe. Eu vejo as pessoas e as situações em diagramas, eu vejo o teu abandono como uma necessidade vigente. Eu não sobreviveria a um abandono. Não foi fraqueza. Como seria covardia escolher viver? Seria eu um covarde, sim, caso continuasse isso tudo, tão bom, até você cansar, eu não perceber, você deixar um bilhete com cara de rascunho na porta do guarda-roupa vazio. Ou pior, na porta do guarda-roupa cheio e o “ps: preferi não levar nada que me lembrasse essa dor, pode doar, queimar, usar”. Porque eu que abandono, mas com a lucidez de que doeria muito mais em mim o abandono. Eu imaginaria uma vida inteira vazia de você, eu ficaria trêmulo a cada encontro no mercado, na padaria. Você prometeu que no abandono você mudaria de bairro, mas continuarei aqui perto, não sei como faremos. Segunda e quinta frequentarei o mercado. Você pode ficar com a quarta e o final de semana inteiro. Eu nem sei do que é feito o abandono, me sinto tão abandonado escrevendo isso, parece até que estou lendo o bilhete que você deixou na porta do armário após nenhuma discussão. Eu não gosto tanto de seu sapato vermelho, acho que te deixa cafona, não use na esperança de que alguém se interesse por você. Parece que estou jogando uma vida no lixo, é estranho. Planejei não falar sobre o que estou sentindo, mas guardar seria como ser abandonado. Desculpa o egoísmo, desculpa essa necessidade de sobrevivência. Eu amo seu sorriso do mesmo modo que amei quando você riu pela primeira vez de uma piada minha, mas passei duvidar da certeza de que era o sorriso mais bonito do mundo. Sabe? A dúvida me mata, e a dúvida vem acompanhada do abandono em minha vida. Eu passei a me sentir abandonado desde que surgiu esse traço de dúvida. Se sentir abandonado dói. Mas e o abandono? Não há forças. Sofrerei aqui, olhando um retrato nosso e dizendo para os amigos “foi melhor assim”, “não tínhamos tanta afinidade”, “todos precisamos de mudança”. Não sei, mas uma hora eu acabo acreditando. Eu choro pouco, sabe? Eu nem nunca chorei com filmes. Homem não chora. Homem sente dor, mas é isso. Já estou aqui desdizendo um abandono feito às pressas. Sabe, já planejei isso antes, mas seus olhos, nariz, boca, pele, mãos, tudo que faz parte de você me faz recuar. Uma decisão tomada, uma dúvida criada, é pior que infecção. Lembro de você dizendo que nunca conheceu uma pessoa mais sensível que eu, queria que você soubesse que não existe olhar mais bonito do que o seu durante uma confissão boba.