quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Wait, They don't love you like I love you.
Wait, They don't love you like I love you.
Wait, They don't love you like I love you.
Wait, They don't love you like I love you.
Wait, They don't love you like I love you.
Wait, They don't love you like I love you.
Wait, They don't love you like I love you.
Wait, They don't love you like I love you.



tão difícil criar uma redoma tentando não machucar ninguém, quantos sacrifícios no meio do caminho, quantos artifícios, quanta dificuldade.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

começo te contando que sei que está tarde. o dia ainda está longe de terminar, mas é tarde, muitas pessoas estão dormindo, muitas pessoas estão tentando se manter acordadas, estamos aqui como gatunos, sempre conversamos sobre essas coisas a essa hora, mas estou achando que não há mais muito tempo como sempre houve. sei que é muito tarde em diversas questões, talvez o relógio esteja adiantado, mas posso dizer que terás tempo, o mundo é normalmente inverso à nossa disponibilidade. me desculpe a desatenção, estão me pedindo conselhos, preciso dá-los, preciso dizer o que já fiz por aí, estou sempre tentando fazer com que as pessoas não cometam os mesmos erros que eu. penso que seria perda de tempo, seria desgaste em vão, cada erro deveria ser cometido apenas uma vez. yo quiero contarte qué lo siento mucho. há tempo para esclarecimentos? sei que o sol logo se ajeitará no azul que tanto varia. seu rosto está ficando embaçado, como meu próprio corpo pode ficar de brincadeira comigo? que bobagem, me desculpe se eu errar seu nome, é que seu rosto não para de mudar, e sua pele continua tão macia, queria continuar sentindo esse cheiro ao sair daqui, ao nascer do sol. queria, como da outra vez, dormir tranquilo e acordar com uma nuvem de pedacinhos seus. que música é essa que está tocando? me lembra nossa primeira briga. foi tão estranho brigar com você sem saber porque. gritávamos tão para dentro que só sobrou o silêncio no telefone. me diga, você está mesmo acordado? é como no telefone, não responde. olha, o céu está começando a clarear, nosso tempo sempre acaba antes do fim.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

verbalizar, antes de existir, é contrário a algo que por ventura há de ter vindo antes do mesmo. verbalizar é inversamente proporcional a amar. verbo sempre foi faca cega. sempre há de ser. para tanto, assim como para armas de fogo, armas químicas, prosas, há treino, dedicação, prática.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

uma saudade do vazio. saudade da queda das folhas. dos intervalos vazios dos potes cheios.

domingo, 12 de dezembro de 2010

é, foi surreal. nunca imaginei tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo e me confundindo em tempo, espaço e dimensão. foi como ter sonhado, numa noite em claro. foi como transcender, transbordar. respirar. respira: o peito sobe, o peito desce. um barulho estranho, talvez seja um toque fantástico. e tudo acontece, tudo se mistura e tudo parece ter sentido.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

monólogo

_Sim, foi abandono. Não sei porque fiz isso, minhas dúvidas variam de vingança à altruísmo. Vou sempre fazendo as coisas. Apenas depois: paro, penso. Ao pensar acabo buscando alguns significados, explicações, quase sempre não são verdadeiras, busco as mais convincentes. Seria exaustivo explicar muito. Penso no abandono como algo sagrado, velado. Algo que se deve ser pensado, mesmo quando não, confesso, penso. O abandono é tão bonito, percebe? O abandono não exige aviso, não é precedido de promessa, consagrado de pureza. Ele é apenas o esquecimento acompanhado de muita lembrança. O abandono é o que dá vida. Quem já foi vitima dessa fonte de vida não mais o faz com o mais puro esquecimento. Passa a existir suor, fadiga, esforço físico. Abandono é água, morna.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

mais incrível que a minha saudade do que ainda está por vir é minha capacidade de fazê-la virar passado para não ver nada disso acontecer.

domingo, 21 de novembro de 2010

mês

os dezembros chegam rasantes. eles chegam calmos, cheios de responsabilidades e fogos. os dezembros chegam tão rápido quanto se vão. os dezembros sempre chegam, mas nunca é dezembro. antes de anunciar um fim, ele anuncia previamente um novo começo, atrapalhado, coitado, se desdobra em poucas e em muitas palavras, invertendo a ordem do que há de ser anunciado cronologicamente, metodologicamente, pacientemente. dezembro é muita água, é sol, é limbo. e assim como o limbo, não se sabe o que é o dezembro. não se sabe se é algo bom, quente, fresco. não há conhecimento pois os dezembros passam despercebidos. o dezembro existe apenas na saudade que chega no primeiro de janeiro. e no fim de cada dezembro nada se aprende, apenas dezembro, e sua saudade.

posto que nada, além dos dezembros, anunciam um começo, ates de terminar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eu nem sabia,

mas ainda tenho algumas camadas de pele é pura dedução matemático-científica uma razão de quem descama todo dia mesmo sendo feito de pele A mesma razão que me impele ao frio e me faz repensar tudo que já descamei e o que ainda hei de escamar acontece a todo momento a falta de uniformidade e durante o dia chego a mudar de cor de falta de abundância de relutância de pigmento Me surpreendo assim com a lucidez que foge de mim mesmo e que o mesmo de mim cria para conseguir sair dos problemas que nem existem é apenas impossível ser completo irracionalidade ainda não me cabe tentar assim ser dito isso me vale um pouco de razão para explicar cada gesto e cada aspiração Fico com a alergia pois sempre me pareceu bem adequada aos momentos díspares Por fim e não mais em meio com toda a razão deste momento fujo da razão não há mais as nuvens de outrora.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

em cartaz

Algumas vezes falta espaço para Sabadin se expressar. Ele procura um guardanapo em branco, mas estão todos gastos. Tinta, gordura, exitação. Não há muito espaço no seu relógio também, lhe restam os cantos quase-limpos para falar de suas invenções.
Sabe ele que não se inventa nada em vão. Não se abre a boca por acaso, seja por um bocejo, seja por um grito. Ele sabe que tomaria o suco da última fruta da Terra, ele tem muita sede.

domingo, 31 de outubro de 2010

two birds

(para ler ouvindo Two Birds, Regina Spektor)


Pois então, o pássaro preto disse para o pássaro branco que iria voar, disse que queria voar para bem longe, sem prazo, sem um ninho para cuidar. Então o pássaro branco, fingindo expressão de dor, disse que também queria voar. Mas todos sabiam que ele não queria, todos que assistiam a cena viram suas patas cravadas no fio, todos sentiram angústia pelo pássaro preto, todos consentiram com o momento. O pássaro preto, todo carne e ossos vazados por dentro, preferia acreditar em tudo, optou por acreditar em tudo, preferia correr o risco de sofrer por tudo, pois achava que não havia vida sem fé. Ele acreditava que não seria bom desacreditar, optou por sempre segurar as patas do pássaro que o acompanhava. Começa a amanhecer, suas penas vão se esquentando, parece redundância dizer, mas o pássaro preto fica aquecido mais rapidamente, seu coração estava em trabalho contínuo, quase em estafa, a cor das penas pouco interferiu, o pássaro branco apenas se concentrava nas suas patas cravadas no fio. O pássaro preto faz sinal para voar, o pássaro branco finge não entender, o pássaro preto voa, o pássaro preto volta, o pássaro branco diz estar cansado, diz que o sol não está forte o suficiente, diz que há nuvens no céu, diz que sente a chuva chegar, diz que vai esperar, o pássaro preto diz que vai continuar acreditando em tudo, diz que vai voltar, diz que talvez desista do voo. A manhã passa silenciosa, enquanto os raios do sol tentam passar por entre folhas secas e galhos retorcidos queimando as penas pretas, o pássaro branco finge frio, a falta de sentimento toma conta das asas negras, ele percebe as patas brancas fincadas no fio, ele voa, sem mais uma palavra.
"Two birds on a wire
One tries to fly away and the other..."

terça-feira, 26 de outubro de 2010

-é sim, moço, é pura falta de preocupação. basta uma rajada de vento forte, dura, que os problemas se dissipam, feito castelo de areia quando é arrebatado por ondas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

outras

outras bocas anunciam meu silêncio, meu breve retiro. outras pessoas, outras palavras, sempre fora de mim, sempre alheias às minhas vontades. mas nunca faltando com a honra da verdade. como se houvesse honra a manter...

domingo, 10 de outubro de 2010

desconversa

sabe-se que o corpo, mesmo o corpo mudo, fala melhor do que qualquer frase bem pronunciada, e por fim, o corpo gritou.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

I am a Curious Yellow

"
1-somente terá deuses provisórios;

4-proteja aqueles que não podem proteger-se;

6-não irá adquirir doenças venéreas. não trará ao mundo crianças indesejadas, nem usará a violencia sexual. deverá praticar o controle de natalidade, pois nascem muitas crianças. fora isso pode ser promiscuo, se masturbar, ser pornográfico e tudo relativo a sexo que desperte tua natureza animal;

7-se voce tiver mais do que voce precisa, compartilhe com os outros. e se não, roube."

domingo, 26 de setembro de 2010

Boa! os pelos,
cairam.
Não se encontram
no chão. porquenãoohámais.

Mais uma vez nú,
sem palavras,
sem roupas,
sem pelos,
sem olhos para enxergar.

Tanto tempo,
os pelos voltando
em procissão.
Vem com rezas, novenas, promessas.
As mãos unidas,
as únicas que restaram (em simetria).
Os olhos dizem reza, mas dentro a cabeça:
vazia.

(vazia
como todo o corpo)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sim, e o tempo vai passando, como sempre, como tantos textos e trechos, mas uma coisa ficou.







-até quando?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010

dói cabeça, corpo, dói fios de cabelo, dói o couro.
de onde,
vem essas dor?

de onde
vem tanta singularidade
impedindo o plural
(desconhecimento de fonte
impede certas denotações).

analogia

se os anjos pudessem voar como dizem, se fossem tão límpidos e puros, quanto dizem, se tivessem asas, se não tivesse sexo, se seus pés não tivessem calos. se eles fossem como todos imaginam, se fossem como nos desenhos, dos adultos, das crianças, se usassem um vestido branco, se parecessem tanto com os humanos, se fossem santos, se não enxergassem maldade, se não tivessem mãos para a maldade. se pudessem se apaixonar por humanos, filmes, filmes, se pudessem, se fossem, se anjos. os anjos, quase-humanos, os seres mais díspares dos humanos, e que mais se parecem com eles. analogias que doem mais do que facadas, por isso deve-se temer analogias, suas entrelinhas, por isso estou acreditando em outras coisas, por isso anjos não são apenas anjos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

moça

a moça de azul flutua pelo chão, ninguém seria capaz de julgá-la humana, errante, ser que pisa, que pesa. a moça de cabelos azuis calmos, sorriso amarelo, olhos bege. todos os olhos, todos os rostos, tudo reverencia-a, como obrigação de um súdito para com a sua rainha, mas sem saber que é rainha, ninguém sabe da rainha. a saia de algodão parece seda em seu corpo, corpo comum.
a moça que nunca se destacou em nada, mas que sempre atraiu todos os olhares, elogios, e suspiros. ninguém percebe o amor por ela, porque dela parece nada emanar, parece seca como terra de deserto. mas é tão úmida, coitada. já é tão pouco e o pouco que é ninguém enxerga. mal sabe que a acham seca, mal sabe que aquele corpo é dela, e que pode viver dele.
a moça de azul conhece um moço, assim como todos os outros o moço também não tinha cor e por consequência será chamado de moço cinza1. O moço cinza1 logo se encantou por ela, mesmo sem saber explicar em seus textos o porque de tal encanto. não conseguia elogiá-la fisicamente, nem socialmente, eram palavras que não existiam, e sua alma nem tinha boca.
logo o relacionamento teve início, ele encantado sem saber o porque, e isso o deixava angustiado e amedrontado, poderia estar amando pela causa errada, poderia estar amando por não saber o que sentia por ela, poderia ser a cor, mais viva do que a própria moça. todos aprovavam aquele caso silencioso.
começou a ficar lilás, ninguém percebeu, sutil. suas saias agora eram três centímetros mais curtas e seu batom havia ganhado cor, cor de verdade. os olhos avermelharam-se, a bochecha passou a fingir-se rubra






não quero terminar esse texto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

sem.ponto.final

é muito fogo, muito fogo. a cabeça gira a centenas de quilômetros por segundo, muda aqui, muda ali, e pronto: muda completamente a conjuntura do que aconteceu, ou do que acontecerá. o caminho da esquerda, que parecia reto e certo, como sempre pareceu (mas que nunca o fora), se ramifica em becos, ruas, avenidas e rodovias. demoro bons minutos a cada cruzamento, e a cada bifurcação, espero ouvir noticias, ou lê-las em qualquer papel que tenha sido desprezado e guiado pelo vento. me decido, mesmo quando indeciso. e claro, entro nos becos, quase sempre. são mais aconchegantes, tortuosos e obscuros. gosto do coração pela boca, dos olhos atentos, da audição aguçada, da pele arrepiada de tão sensível ao toque. me arranho, tropeço, corro, caio, no fim a luz é forte e estou me arrastando, pedindo água e ombro. na próxima escolha, corro demais

domingo, 8 de agosto de 2010

visita

Chegou na casa com os olhos muito abertos, desejava destrinchar a família e seus segredos a partir do que contavam em silêncio. Primeiramente viu um lustre, enorme, se perdeu na delicadeza com que os cristais conduziam a luz, extasiado com a possibilidade de transformação de uma pedra inerte. Lembrou-se de seus objetivos, focou em tudo que já havia lido, conversado ou escutado da mesa ao lado sobre lustres. Fingiu, com eficiência unânime, ter concluído algo. Um dia perceberia que a beleza lhe ofuscara os pensamentos. Continuou a observar o lugar, sempre tentando evitar os raios de luz, hermeticamente planejados, hermeticamente aleatórios. Não falou com ninguém até então, as pessoas não passavam de projeções dos objetos vistos, na sua cabeça as coisas se invertiam, trocavam de lugar com uma facilidade inexplicável, e incompreensível. Encontrou um espelho e se perdeu. Não conseguia observar os detalhes do espelho, olhava fixamente e se sentia confortável em estar usando trajes adequados, seria mais fácil não ser notado assim. Se sentiu desconfortável e só, ao parar de olhar para o espelho. Não existiam pessoas sozinhas para sentar e falar sobre o frio que fazia dentro dele, era possível sentir seu estômago congelar. Sentou-se, pôs as duas mãos em concha na tentativa de aquecer a pedra de gelo que florescia ali, nele. Fechou os olhos, quando abriu, ainda cabisbaixo, viu um tapete desfeito em riscos, a princípio era um labirinto, passou a ser confusão e logo se perdeu mais uma vez, viu seu precipício alí, em retas. Ficou tonto, enjoado, via as pessoas em gargalhadas, viu todas-as-coisas na mais perfeita ordem, se colocou em seu lugar: alheio. A música não parava de repetir, pensou na possibilidade dele mesmo estar se repetindo, estava se refugiando. Sorriu para todos, levantou-se, tropeçou na mesinha roxa que dava o ar sofisticado ao ambiente, olhou fixamente para a maçaneta, achou-a tão desinteressante que tocou, apertou, torceu, se retirou do local com uma frase para ninguém "Vou ver se fechei o carro, isso sempre acontece comigo".

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

De Barros

Quando o céu me acompanha
tem um pedaço de tu'alma comigo
Seus peixes carregam meu corpo
no vento que se finge mar
As bocas de tão abertas não existem
se rasgam de olhos de ouvidos

Penso em pássaros
o quão grandes são suas asas
Percorre sem pena todo céu
o mesmo céu parado
entre nuvens curvas de vento faróis

Me engana sem palavras, Manoel
Minha árvore vai te dizer em folhas
o que o vento não é capaz de te dizer de mudo
_Meu Deus, Manoel!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

n'água

vou mergulhar.
é fundo? é sujo?
é água. vou mergulhar.

mas não sei se pulo,
se me dissolvo aos poucos,
se aprecio de longe
esperando o sol sair.
talvez tenha vergonha,
não, que bobagem!

posso pular de peito,
fingir que estou sem medo,
e nadar como se tivesse fôlego.

ou
posso criar um texto,
fingir que sou um peixe,
contar que saí do mar.
posso ser uma singela molécula de dois átomos: puro cloreto de sódio.

preciso parar de evadir,
mas o que restaria de mim?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Chico me contou que tinha mais samba. resolvi acreditar. e sim, tinha mais samba. é bom ter mais samba, é bom ressambar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sabe quando uma torre enorme cai?

-e quando a torre era a maior de sua aldeia, quando parece destruir tudo ao redor, quando cai que nem faz barulho, que nem dói, que nem se acredita...

sábado, 3 de julho de 2010

adeus

alguns fios brancos refletiam a luz fraca da sala de jantar, era mesmo o sorriso que iluminava o ambiente, não existia lâmpada tão forte e tão alva. assim como há anos, era uma noite qualquer, mais um sorriso, mais pão, mais café. tudo se somava em quantidades ordinariamente comuns. a esposa nem deu o beijo de despedida, era uma viagem curta, abraçou-o e deu sua bênção, bênção essa que só quem é mãe pode dar. ungido, seguiu iluminado por uma lua turva e por amarelos-postes irregulares, seguiu estrelas que nem se via, era chuva. abençoado mais uma vez, por chuva, se foi, sem pensar em muita coisa, não passava de uma viagem comum: rádio de fundo, pé no acelerador, tosse, espirro, sono.
sinto em interromper a história, contudo acompanhei pedaços, talvez eu tenha cochilado, por fim acordei . apesar das telhas, portas, janelas, paredes, cobertas, e todas as demais barreiras físicas, me senti à noite no deserto. não me senti em pé, nem sentado, eu era um ponto que congelava no deserto, acordado em pleno dia, e como qualquer ponto não existia posição. as pernas, mesmo sem saber que eu andava, fraquejavam, percebi o desequilíbrio ao observar o chão se aproximando e se afastando, tudo muito lento, afinal não se rasga um corpo por completo de uma só vez.
o carro, a terra, o vento, tudo chegava ao mesmo tempo no meu rosto, minha face congelou. não movia um músculo: enquanto o vento mantinha meus olhos abertos, o farol do carro me cegava e a terra arranhava tudo que poderia ser visto. o acidente chegava cada vez mais perto de mim, até que entrou, se apossou, capotou em mim, rasgando o que podia e arranhando o que aparentemente estava ileso.
são tantos olhos em cima de mim, nenhum me vê. não estou ali.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

sábado, 19 de junho de 2010

cartão de aniversário

"...deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente...."

a cada leitura encontro mais amor em cada palavra. é de cortar o peito, os olhos, um corpo por completo. parecem surgir palavras novas, mesmo o significado permanecendo intacto. parece que ao reler junto às palavras novas surgem também rosas e afagos. é muito sentimento em tão poucas linhas, chega a doer a minha incapacidade de responder. só posso dizer que meus olhos boiam, seja lendo, lembrando ou tentando contar para alguém.
Tu, que me mandaste um texto que só consigo responder com os olhos me deixaste mudo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

ondas

às vezes uma onda que não é minha invade meu corpo, tomando-o por completo, me impedindo de fazer qualquer coisa minha. me toma em cada espaço que estava vazio, e em cada espaço que já estava preenchido. não é algo que me invade sem permissão, apenas não há tempo para pedidos e formalidades. se pedisse eu deixaria, me sinto em outro mundo, que não é melhor que esse. me sinto além do chão, além da física e de seu peso, me sinto como um elétron, indivisível, pequeno, temoroso, sem lugar definido. o que assusta, a cada invasão, é a capacidade das coisas crescerem e diminuírem drasticamente. Hoje eu tenho tempo de moldar as coisas, de esvaziar uma cabeça tão cheia, de olhar o mar, de tentar lembrar de coisas que nunca quis esquecer.
às vezes eu pensei que poderia viver o que acredito ser necessário viver, e o tempo restante cursar minha vida. e só com acontecimentos alheios acordo e vejo que tempos atrás escolhi o contrário, sem volta, pegando o resto do tempo que me sobra para cuidar de mim, é estranho ter que se contentar com os próprios restos... são tantas as coisas estranhas que acontecem aos meus olhos.

domingo, 13 de junho de 2010

vntd

Uma vontade gigante de escrever aqui, de dizer tantas coisas que estão misturadas em explosão.

domingo, 6 de junho de 2010

textos

você me diz uma palavra boba, nem percebe que falou comigo, eu escrevo um texto sem fim, com mil palavras, outros personagens, não somos mais nós, são eles, as coisas mudam de lugar, você fica grande no texto, passa a ser mais bonito, eu mudo completamente ao ponto de não existir comparações. você me força escrever o que só minha imaginação sabe, coisas que não lembrarei ao reler.
Nem sei mais, dentre tantas divagações, quantas são reais, quantas apenas foram desabafos de não-acontecimentos.
Uma palavra vira texto, acontecimentos são modificados ao meu gosto, e as coisas passam a não ter nexo. Cheguei a pensar em apagar isso tudo, mas resolvi não me punir por suas limitações.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

nado

neste mar é tudo nadar. quem vive de boia, quem vive. neste mar de árgua quem se afoga esquece, pois o nado tem que se tornar um reflexo, um ato impensado. preciso que use todos os teus músculos em movimentos vazios de sentido, preciso que pense tanto que se esqueça que é pensamento, que fuja de ti e te ache estranho. tudo que faz passa a ser reflexo de um dia ter pensado, sabe tu que não tens real tempo de pensar, fazer, sobreviver ao mundo água. nos momentos que julga vazio, de repouso, repouse nas tuas próprias águas, desaguando sobre ti todas as possibilidades, e os imprevistos, porque quando te vê no espelho não tens todo o tempo de um mundo, porque nem se sabe quanto é todo o tempo de um mundo, porque todo um mundo não há de ter em si espaço para guardar o que é maior que ele, seu tempo. e tuas lágrimas, mais água, me revelam o quão triste é nadar sem perceber, eu percebo. o mar é grande, e quem nada pensando não pensa em mais nada, é um doce aviso. tu bens sabe o que acontece, bens sabe tua vontade de nadar sem perceber, perceba que não é não pensar, é apenas não perceber que se pensa, e poderás, enfim, nadar em mim.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sonhos e lâminas

Os sonhos são lâminas, lâminas sem apoio que se unem entre si, sem faces planas, sem regiões seguras. Como são sonhos, são lâminas infinitas, e o infinito não, neste momento, é irreal. Sonhos são vontades que resolvemos a qualquer custo realizar, sonhos são nossas pequenas verdades em formato de diálogo, sonhos são as realizações ditas impossíveis. Feliz é aquele que guarda seus sonhos. Mas se são sonhos, porque guardá-los? Pois é, não os guardo, não sei se os tenho, apenas incentivo nos outros o que mal conheço, talvez isso seja começar errado, ou talvez seja meu único ato de sanidade. Acontece que quanto mais sonhos, lâminas, mais difícil fica de sustentá-los. Sonhos são tão cortantes quanto navalhas, diferenciando que a navalha tem uma região segura para que se possa manuseá-la. Os sonhos, pequenos, grandes, colossais e médios se apoiam uns nos outros, como um quebra-cabeça sem encaixe perfeito, até que em um momento o sonhador tem que decidir se deixa uma lâmina cair ou se irá se cortar arriscando a vida, e todos os demais sonhos. É tudo muito parecido com um jogo, não porque a vida se pareça com jogos, mas porque os jogos se parecem com a vida. Afinal não se sabe de nenhum jogo que tenha sido criado antes de existir vida -ainda me encontro fazendo comentários óbvios.
Comparo os sonhos com tanta precisão não por conhecê-los a fundo. Todas as afirmativas aqui feitas se baseiam em uma única e frágil teoria: acreditar que chamam de sonho o que chamo de objetivo, meta, vontade grande. E tudo, aqui embaralhado, é fruto de um aprendizado: sonho é coisa grande, coisa sagrada. Então, preferi deixá-lo para os deuses, pois sei que sou apenas humano, e isso me basta.

domingo, 18 de abril de 2010

Desculpa, mãe.

Mãe, se o tempo es
________________cor
__________________re
pela mão, me desculpe,
não consigo segurá-
lo.

Sinto que ele e
____________s
_____________c
______________o
_______________r
________________r
_________________e
pelo meu corpo todo,
em enxurrada,
não dá para segurar
uma-gota-sequer.

E se uma gota seguro
perco de ver
o rio
que passa
por mim.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

E se até a água está sem gosto,
o que posso esperar de você,
o que posso esperar de mim ao te ver
e o que posso fazer, sem sentir.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Se eu pudesse...

Se eu pudesse voltar no tempo faria das cidades alagadas grandes mares. Sim, oceanearia o continente com direito a peixes azuis e vermelhos. Não é coisa de uma cidade, ou centenas de cidades por baixo d'água, não falo de Atlanta nem do oceano Pacífico. Se eu pudesse faria ilhas em mim, na minha cidade inundada, uma cidade sem botes visíveis, sem aviões, sem portas e objetos flutuantes.

Se eu pudesse povoaria essa cidade. Ela vive vazia, não por falta de pessoas, apenas por falta de fixação. Descem escorregando pelas ladeiras, curvas intermináveis que vão parar onde-ninguém-ainda-sabe-ao-certo.

Nessa cidade os congressos são sempre adiados, os shows cancelados, não tem época de verão, não tem época de inverno. Se eu pudesse, nessa cidade as casas seriam enormes, impossíveis de se conhecer a fundo, sem direito a moradia fixa, todos seriam visitantes o tempo inteiro, pois ninguém resistiria a tamanho absurdo por tanto tempo.

domingo, 28 de março de 2010

à Vida

Às vezes confunde,
dá nó.
Às vezes é culpa da certeza,
às vezes não tem culpado.

Tem dia que o sol é luz,
tem dia que o sol é fogo.
Tem coisa que parece estar ao avesso,
errado.

A tinta, tem papel, que escorre.
O papel, tem caneta, que é tinta.
Mistura, certeza, inconstante:
é vida, é vida.

28/03/10

Estou no meio, limbo terrestre,
mas não sei as consequências:
de uma queda;
de uma aparente subida.

No limbo, meia-vida,
nada é certo.
Não se sabe o que é,
não se sabe o que não é.

Aqui chove, a chuva,
branda,
me esquece,
desculpa, aquece.

Fique ai,
não cometa aproximação,
segura no teu peito,
deixa teu peito segurar tua mão.

O vento não mais me derruba,
desde que decidi cair por ele,
o vento não mais me balança,
porque meu vento é o meu eu.

quinta-feira, 11 de março de 2010

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Raiz

Muito tempo de chão, acostuma-se a criar raiz, aquela parte do corpo que nutre sem ser percebida, escondida por debaixo de tudo, cercada de vida, ainda que escondida. Nunca chove na raiz, acima do chão apenas brisa leve, a raiz seca, estala, silenciosa. No vazio de água se chove por si mesmo, chove forte e a raiz outrora escondida, quentinha, ganha céu depois da enxurrada, depois da rasteira d'água, depois de um terremoto imóvel, depois de tanta coisa
A raiz se ergue, então, imperial, feito coroa de novo rei, intacta, decreta o desapego à terra, amor à sua árvore. Fiel, pretende nutrir, suprir, estar, captando do vento seco nutriente, captando até umidade, fugindo de seu eterno vazio, preenchendo cada folhinha, cada espaço vital.
Às vezes chuvisca por aí, sem mais, sem menos.
Às vezes a árvore é raiz, e raíz: árvore.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

II 14/ 01/ 2010

Depois que a água molha,
encharca carne e osso:
corpo molhado, água, sangue.

Cabeça explode,
peito implode.
Fogos, brilho, cor.

O rio leva,
ou deixa,
me leva, rio.
Não deixo.

14/ 01/ 2010

Desagua em mim São Francisco,
me arrasta na areia do sertão,
lava este pranto contido que goteja.

Arrasta estas pernas inertes
que o sangue fugiu, que o vento gelou.
Rasga nas pedras mãos pálidas.

Se eu tivesse boca, Francisco.
Se eu tivesse chão,
seriam mais oito bilhetes,
sem cor, desta vez.
Uma passagem na mão.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

o ano começou, nada se sentiu novamente na contagem regressiva. cada vez mais se firmava a idéia do reveillon como uma bela desculpa para fazer uma festa, ficar tonto, perder a noite, sorrir sem dentes. mas agora ele não estava só, algo parecia diferente, sentia a promessa de um ano próspero, um ano muito bem acompanhado, um ano no qual os dias começariam com sorrisos gratuitos e terminariam em sorrisos cansados.
sim, sabia que era um chato e inoportuno rapaz, sabia também o que dizia, poucas vezes fez comentários e se arrependeu, justamente por ter cuidado, por querer cuidar. conhecia poucas pessoas, não selecionava, apenas eram poucas as que cultivava com vontade. e, claro, se esforçava em cultivar suas plantinhas.
as datas comemorativas de um modo geral passaram a se firmar como belas desculpas, as vezes até mentiras. continuava comemorando. algumas datas eram comemoradas por desejo de festa, outras por vontade de quebrar a rotina, outras não eram comemoradas, outras, outras, outras.
na preguiça se esticava como se acreditasse que pudesse crescer indefinidamente, vontade escondida de abraçar o mundo, sono pela manhã, olhos leves, andar firme.
com alguns problemas agonias confusões, ele passou a declarar em versos e prosas as coisas que sentia, que sente.