quinta-feira, 15 de novembro de 2012

14 nov

Um tornado se aproxima, ela sentia como uma brisa que lhe alisava a pele pálida com agressividade. Mas nada contava a ninguém, sabia que nada podia fazer a não ser esperar. Temia que qualquer palavra a fizesse permanecer vazia, mesmo que o silêncio não a preenchesse. Passaram-se dias, talvez uma semana (não percebeu quantas vezes o sol se pôs) na espera ansiosa -com tranquilidade de máscara e alma relaxada- esqueceu-se de comer, apenas bebia água pacientemente e esperava que a brisa lhe arrancasse logo a pele, lhe transportasse para algum lugar com sentido, lhe beijasse a face, lhe deixasse ali mesmo -sem lhe mover os pelos do corpo.
Percebeu o passar do tempo pois o calor lhe tirou todas as peças de roupa, pouco a pouco, até que se encontrava nua a espera de qualquer possibilidade.
Essa era a sua causa: a possibilidade. A perspectiva de algo lhe causava como nada mais. Sempre lhe foram mais importantes os objetivos, desejos, possibilidades. Contudo, algo seu pai havia lhe ensinado ainda na infância "Os grandes acontecimentos são sempre anúncios de grandes catástrofes", ensinamento esse que sempre tentou negar, mas que sempre foi uma constante em seus pensamentos. Chegou a escrever na contra-capa de um livro de Orides Fontela:
"A possibilidade seria minha salvação,
mas ela se realiza em catástrofe"
Logo percebeu que suas aspirações estavam fadadas ao fracasso: ou seriam realizadas (mortas) ou demandariam muito tempo e perderiam a "graça" (cansaço, morte). Passou então a admitir o peso e a predisposição do/ao precipício e decidiu se entregar à primeira brisa que beirasse a tornado, ao primeiro sopro encorpado, a qualquer -repito- possibilidade.
Decidiu que por mais que estivesse fadada ao fracasso, permitiria que pequenas chances/momentos/realizações a fizessem (apenas pela possibilidade de ser feita).

No fundo (e em todos os demais planos) era humana e esperava nua, sentada sobre os próprios pés -como uma gueixa- que algo a lavasse dali sem qualquer vestígio do que fora antes -e seria obediente, solícita e leve.

novembro 2012

Sabe quando acontece um encontro e várias coisas aleatórias se ligam, se explicam, se clareiam? Era Almodóvar, numa versão calma até que a cena se perde em fotografia e começo a cantarolar mentalmente um cover de Cat Power, e Lars Von Trier surge em minha mente mais límpido e puro do que qualquer presença corpórea.
Há tanta beleza nas dores. Porque? Na dor lacinante, aquela em pontada, a dor que só se sente quando se está no fundo, muito dentro, in, profundo.
A grande sacada de que é tudo um vazio de merda que uma vez você me contou em segredo, talvez como aqueles segredos de amantes que eternizam a relação -mas não. Apenas foi nosso primeiro ponto de afastamento e acho que é de uma ironia estúpida. Deus não deveria permitir desencontros desta magnitude. Queria te dizer hoje que sim, que tudo é realmente uma grande merda, queria esgotar os filmes de Lars Von Trier ao seu lado só para admirar o seu respeito sobre o meu silêncio. Porque eu MUITO admiro seu respeito sobre o meu silêncio. Passaria uma vida inteira te dizendo o quão bonito é ser compreendido, do quão.
Cá estou entre Almodóvar, Cat Power e Lars Von Trier. Cá estou em silêncio, tentando me desafogar em rascunhos, estou tentando negociar -palavras por um pouco de ar.