segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Acabei de lembrar uma coisa: disse para mim mesmo que escreveria um texto para você assim que chegasse em terra de sol. Cheguei ontem, de nada lembrei. A pouco lembrei que tinha escrito um texto para você, sem muito intuito, sem nunca ter enviado, escrito e publicado em datas erradas, assim, então, me parece que nada foi escrito em intuito nenhum.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

_...

...
_Ei, o que é que você está fazendo aí?
_Esperando.
_Esperando o que? Ai.
_Ai?
_É. Ai! Não sei o que você está fazendo aí.
_Estou esperando o tempo, ainda faltam quatro anos.
_É verdade, tem toda aquela promessa.
_Tem! Toda.
_Pare, não fale como se fosse tão óbvio assim. Esqueço às vezes.
_Esque-ce?
_Não, eu lembro, mas a vontade às vezes se sobrepõe. Como você está preciosista hoje!
_Eu? Saudade.
_Pare. Acho que vou te ver no próximo ano.
_Jura? Mas já vamos firmar o compromisso?
_Não sei, é confuso isso.
_Lá vem você e sua mania de confundir as coisas.
_A saudade tem cor.
_E tem?
_Preto.
_Nossa, que cor você inventou para saudade. Não poderia ser vermelho?
_É que eu acabo fechando os olhos, aí fica preto.
_Vem cá, vem!
...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poeira

Estamos deitados estamos quentes estamos parados estamos andando estamos andando lado-a-lado estamos andando estamos rápidos não podemos nos acompanhar estamos andando não sei quem está mais rápido quem vai chegar primeiro estamos andando um-passa-o-outro estamos em movimento estamos andando mais rápido estamos ofegantes não há cansaço estamos andando estamos chegando estamos andando sentimos a terra entre os dedos sentimos o calor de um chão que parece não conhecer a noite estamos andando mais rápido estamos fingindo corrida estamos mais rápidos não sabemos mas estamos estamos mais rápidos estamos sentindo o calor como brasas afiadas mas o sangue também está quente estamos mais-e-mais rápidos estamos andando muito rápido estamos chegando ao limite estamos entre o caminhar rápido e a corrida estamos no meio do caminho estamos estamos andando muito rápido ou estamos correndo não estamos nos vendo não estamos perto ouvimos o barulho um-do-outro o arfar dos pés na terra seca estamos de algum modo no mesmo ritmo estamos correndo somos como poeira agora não somos como o vento que só deixa o rastro poeira estamos deixando poeira duas linhas duas linhas de areia erguidas somos apenas a causa deixamos a areia como rastro estamos correndo o fôlego começa a faltar os pés não pisam mais o chão eles flutuam em carne viva em velocidade indolores e corremos corremos muito não chegamos nunca chegamos mas corremos como quem acredita estar no caminho certo como quem acredita em caminho certo corremos corremos tanto você sente o quanto corremos ou será que não ou existe algo maior ou o caminho está errado corremos corremos como quem voa alto como se não existisse nem nuvem continuamos correndo não mais lado-a-lado porque só sobrou o correr só nós resta correr.

domingo, 13 de novembro de 2011

Quem sabe?

Não quero que pense nada, muito menos que eu estou dizendo algo. Estou aqui, sim, calado. Sou fruto de seu pensamento, apenas um fruto como tantos outros de sua árvore de estimação. Está pensando demais. Está se desgastando sem previsão de resultados. Poderia deixar de tentar saber sobre o que só o tempo pode saber. Você continua pensando que está determinando as coisas, isso não há de ser bom. Nem para você, nem para o tempo. Você está tentando determinar sobre o que só o tempo pode saber. Mas o tempo, brincalhão, samba com um sorriso, leve, despreocupado de suas preocupações. Ele se conhece, diferente de nós. Gostaria que você parasse de tentar adivinhar como eu sei de tudo que se passa na sua cabeça. Porque? Porque eu sou fruto de sua cabeça, como eu poderia me esquivar de seus pensamentos? Sua cabeça gosta muito de mudar, é de entontecer, um enjoo bom, ninguém ousaria dizer isso, mas sua mente, frutífera, ousa imaginar um vômito bom, com gosto de fruta da estação. Poderíamos parar de duvidar a partir de agora, eu de mim, você de mim, e poderíamos tirar o foco de mim também. Foco: palavra seca. Pensando bem, pode mesmo se arrepender. Pensando bem, podemos continuar assim: pensando bem, foco, nitidez, contraste, explosão de cores, fim de textura, impressão vagabunda. Estar aqui dentro é muito confuso, você continua pensando que determinou o que não quer dizer que não vá acontecer, tem a parte do "se dar", mas você não pensa sobre o que fazer com isso. Quem sabe? Não chegou a hora de parar de jogar. Estou apenas dentro de você, talvez seja o momento em que seja tarde demais. Cedo demais? Vai saber?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

30.000 pés

Um dia chegar te ouvir dizer "não é por mal, mas vou te fazer chorar, hoje vou te fazer chorar".
Estou alto, há 30.000 pés, mal consigo te ouvir. Eu até estou me esforçando, mas aqui venta, aqui está frio, meu casaco está com você, mas você não me alcança, mas ainda estou alto, mas ainda venta, ainda sinto frio. O frio vem de dentro, e se espalha por fora, sinto o frio saindo pelos meus poros, são tantos poros, acho que estou completamente destruído, parece que só tenho poros, parece que não existe nada completo em mim. Recomeço a reconsiderar a ideia do tudo ser vazio. Aquela ideia do átomo, do núcleo denso ser 1/30 da eletrosfera vazia. Será que somos tão vazios assim? Estou produzindo frio, estou tão gelado, não consigo me sentir, estou subindo. Agora quase não consigo mais te ver, só existe bolinhas verdes num mar cinza, bolinhas brancas no mar azul, bolinhas, nuvens, frio. Já estou me habituando ao frio, gostaria de saber o que você está tentando me dizer, é como se eu pudesse ouvir algo, ruídos, vogais acentuadas, mas eu sei que eu não posso estar te ouvindo, eu sei que estou muito distante, mas não ache que estou confundindo sua voz, é coisa da minha cabeça. Sim, minha cabeça está criando caso, criando você. Eu gostaria que você estivesse aqui, me aquecendo, esquentando, esquecendo, gostaria de gelar você um pouquinho, é tão bom esse ar frio, aprendi a gostar de meus poros, apesar de achar que eles me deixam vazio. Sim, meus poros representam todo o vazio, todo o vazio que pode caber em poucos núcleos. De onde vem tanto poro, tanto frio, tanta falta. Eu tinha aprendido que o metabolismo aquece, libera calor, sempre fui acostumado a sentir calor, a fugir do calor, e agora me encontro na busca dele, não por saudade, não sinto falta de tanto calor, de suor, de cansaço, mas seria mais fisiológico sentir calor. Mais fisiológico? Existe menos fisiológico? Existe isso tudo que está acontecendo? Ainda não te ouço. Não consigo ouvir nada que está acontecendo nesses mares cinzas, azuis. Mas estou gritando, você deve estar ouvindo. Queria que só você ouvisse, mas não posso gritar mais baixo, como eu amo o sussurro. Sim, o sussurro. Sussurraria isso tudo no seu ouvido, mas tenho que gritar, gritar o mais baixo possível, na tentativa de só você ouvir meus lamentos de sua falta. A falta. O sol não pára de brilhar. É incrível como ele brilha soberano, acima das nuvens, meus olhos doem, meus olhos doem de luz e meu corpo congela por si só. Você consegue imaginar isso? Consegue imaginar meu corpo congelado e meus olhos cegos de luz? É como uma exposição de horrores, como um poste sobre geleiras em funcionamento no inverno do Alasca. Consegue imaginar? Os ossos doem, devagar...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Plantas antípodas

Nós somos como planetas, baby, e nossas órbitas não se cruzam. Nós tentamos, nos esforçamos, superamos diversas estrelas e tempestades siderais, mas nós somos simplesmente como planetas de órbitas divergentes, e o espaço está se expandindo, e nós estamos mais distante a cada momento, e o tempo passa, e o tempo, a velocidade, isso tudo acarreta em distância. Será que estávamos apenas nos enganando? Será que não sabíamos de nossas rotas antes?
Estamos indo, baby, não se sabe para onde, não sabemos o porquê. Estamos indo, não podemos ficar parados esperando o nada acontecer. O nada nunca acontece, sabemos disso, sabemos apenas que temos que ir, mas nunca saberemos para onde. Onde estivemos esse tempo todo? Onde foi que começamos, onde terminamos, onde isso tudo se transformou em simples rotas? Quando?
Vejo estrelas cadentes em eterna queda, posso ver cometas se chocando em você, desviando sua rota. Sua rota é de imensa divergência, baby. Não conseguiria te acompanhar, estou cansado, estou à caminho de plutão, comecei uma órbita muito estranha, fora de , estou tentando completar o primeiro ciclo, estou tentando descobrir se há um ciclo.
Como está aí? É difícil passar perto de sua órbita, não me apetece a proximidade ao sol, você ainda ouve?
Nós somos como plantas, baby, plantadas em antípodas. Será que nossas raízes ainda se encontrarão?

sábado, 15 de outubro de 2011

trêspontos

descobri a falta que você faria, ao perceber que eu poderia ficar sem você. deu um vazio, enorme. o quanto disso é amor, o quanto é costume? Seria eu uma pessoa boa? quantas perguntas se infiltram na dor de uma perda, quantas perguntas me tomam o pensamento enquanto um banner desfila com os dizeres "você está pensando mesmo nisso? sofra. sofra direito, sofra de mente aberta e vazia". mas eu continuarei pensando em milhões de outras coisas enquanto sofro, e continuarei me julgando por não estar pensando apenas na perda. descobrir a falta que você faria me tomou a tarde, e a tarde se tornou fogo, muito quente, muito intenso.
sabe, certas possibilidades me tomam o tempo, me tomam o corpo, me tomam por completo. não me sobrou... viver possibilidades.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

umdia

A maioria das coisas não lhe apareciam cruas. Muito condimento era quase um requisito para se aproximar de seu campo de visão, ou para se tornar visível. Seus olhos percorriam na busca do quase-nada, do cinza.
Todas as coisas lhe eram estranhas, sem sentido. acostumou-se a percorrer a história das histórias antes de terminadas, acostumou-se a ver que no fim não há uma resolução, há vazio, um enorme vazio. Repensou posicionamentos, percebeu que não havia o que fazer. Lhe restou o silêncio, propagar o vazio não faria muito sentido, se afogou no silêncio.
Não sabia mais conversar. A fala se tornou um tormento, passou a evitar palavras, evitar rostos, evitar sorrisos, se evitar. A impossibilidade das ocasionalidades tornou o silêncio um ídolo. O mundo é duro. O mundo é muito duro.
As palavras passaram a fluir pelos dedos, apenas pelos dedos, porque sentia que podia cultivar o silêncio assim, podia se esvaziar de alguns pesos, podia buscar o mínimo de leveza para caminhar. Logo o cambalear se tornou passos firmes, firmes de não-se-sabe-porquê, visto que era completo de vazio.

domingo, 2 de outubro de 2011

assintomático

Sua fala (antes) frenética me comunicou o assintomático. Respondi "que bobo", pensei realmente "que bobo", mal sabia que havia mais a ser dito. Porque nunca houve muito a ser dito do automático por você, além do que eu sempre soube ---> distância.
Seus olhos passaram a dizer mais do que a boca. Não que o automático tenha se tornado algo bom, todas as lágrimas que poderiam caber nos seus olhos enormes, fechando, O que é isso no seu rosto? Todas as possibilidades das coisas que, seus olhos... Necessidade.
Agora são suas mãos, visto que não cabia mais fala, nem olhos... As mãos estão frias e secas, como quem quer mostrar a alma desnuda. Sua alma está seca e fria, cansada, cansada, cansada. É como se tudo agora aparecesse em folhas brancas escritas em azul royal: automatismo automático automatismo automático. Sem nenhum som de fundo, sem nenhum conforto para os olhos. Tudo frio, tudo seco.
O peso do automatismo, do automático é a sua obrigação, a sua função em ser simplesmente. Longe de simplicidade, tudo dá voltas, voltas, voltas, voltas, automático, voltas, voltas, mundo automático, o tudo.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

nudez

Acordei nu. Não há roupa que me caiba, não há livro que me cubra, não há boca para me explicar.
Acordei tão nu que foi preciso de um tempo para que eu começasse a compreender tamanha nudez, essa liberdade que assusta.
Não tem mais graça seu desentendimento de mim. Minha pele está aqui, você vai continuar fingindo que não está vendo? Até quando? Não tenho como te falar de cada cicatriz assim, estão todas tão cruas, tão visíveis. Eu sei que eu falo muito de cicatrizes, e nunca continuo. Pode sim parecer que não sei do que estou falando. Você acha mesmo que não sei do que estou falando? Meu Deus, porque estou falando? Porque está parado com esses olhos enormes em mim? Se você soubesse o quanto dói falar. Não posso te dar todas as minhas verdades como em presente, mas peço que acredite na minha dor.
E se não acreditar, olha, meu corpo se fecha, adormece, ileso.

domingo, 4 de setembro de 2011

olha, estou indo

Depois de um abandono desplanejado, volto com lamentos e cacos em mãos. Me é costumeiro aparecer assim: arrastado, cabisbaixo, sem muito motivo e explicações, sem qualquer racionalidade ou pedaço de pedra.
A racionalização me leva a um caminho torto, concluo que deve ser um misto de todas as pequenas dores que sozinhas não se sente. Mas racionalização é apenas uma tentativa branda e pobre de pôr água morna sobre feridas descicatrizadas. Não cura. Não ajuda. Engana, lava. Limpa algumas gramas de desespero, alimenta o infinito vazio que escorre ali, invariavelmente escorre ali.
Sinto que isso tudo ainda vai me destruir, arrancando pedaços, corroendo pele, ossos, vísceras. Sinto que isso tudo ainda vai alimentar minha vida. Sinto que tudo isso faz tão parte de mim. Sinto que cresço para poder ser subtraído em mim mesmo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Esperando secar o céu


Ela estava esperando secar o céu, e disse isso sem perceber, da boca para fora, com aquela mania de menina pequena de não pensar e dizer:
_O que você está fazendo?
_Esperando secar o céu.
_Não está chovendo, meu amor. O céu está mais seco que a terra.
_Estou esperando secar o céu para pintar os balões. Disse com um sorriso leve, bem solto, daqueles sorrisos que dá lágrimas nos olhos só de lembrar, ai como eu gosto de sorrisos leves.
_Você tem muitas cores para os balões?
_Não, não tenho. Acabaram as cores no último quadro que pintei. Aquele que te dei, aquele que chamaram de borrão.
_Você está falando daquele pelo qual sou apaixonado?
_Sim, o famoso borrão. O sorriso não saia daquele semblante leve, mas também não se mostrava por completo. São os sorrisos mais bonitos, não vai doer seu rosto depois de um tempo, amacia meu peito como em amor.
_Sabe, eu gosto de balões coloridos, eu gosto de te ver pintada de várias cores, de seu vestido sujo, inlimpável.
_Posso misturar e quem sabe não consigo mais cores... Mas acho que não vai dar certo.
_E o céu?
_Secou.
_Vão ser quantos balões?
_Quantos balões você acha que cabem no céu?
_Muitos, oras.
_Você não entendeu.
_O que?
_Quero saber quantos balões cabem em um céu bonito. Mil balões tornariam o céu nublado, nublado de balões, imagine que triste.
_Um amarelo com rosa e um azul em tons claros e escuros.
_Só dois? Mas o céu é tão grande.
_Dois, e não centralizados.

domingo, 17 de julho de 2011

sorriso

O dia amanhece em um sorriso. Não se sabe se de alegria ou se é apenas mais uma forma de acordar o corpo, os músculos, os ossos. O sorriso. Indpendente de sua causa, contém em si a pura função de re-iluminar o dia, de refletir um desejo de que as coisas vão ficar bem, de que esse é o lugar mais confortável que existe naquele momento.

domingo, 19 de junho de 2011

florescer

"Moça, Olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê"
mostra-se que é de se entregar, e como uma rasteira interrompeu o resto da música. Sentia um peito pedindo ar, sensação de sufocamento, uma vontade sem tamanho de mergulhar ali dentro, ultrapassando célula-a-célula sem pedir qualquer licença. Às vezes não há tempo para pedidos, não há tempo para conter sangramentos, não há tempo para cerimonias, pois a dor é como flor, apenas nasce, mesmo quando se trata de asfalto, mesmo quando se trata de pedra nua, a flor, a dor, sempre acaba nascendo.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Pedaço

Me falta um pedaço,
me falta sim,
um pedaço inteiro,
seja lá o que possa significar pedaço inteiro
(como se não existisse pedaço pela metade).

Um pedaço fantasma
às vezes aparece,
íntegro
(mas passa).

quinta-feira, 2 de junho de 2011

continuidade

permaneço escorrendo. me sinto mais sóbrio quando vejo tudo escorrer, as paredes desmoronando, os rostos se transformando em suor e se desconfigurando, a pele derretendo em lágrimas e sangue. me sinto sóbrio como se o real fosse o declinar das coisas/pessoas/situações. foi tudo que consegui aprender, é o que tenho carregado comigo. esses conhecimentos soltos, ou a falta completa de qualquer sabedoria.
talvez eu entenda muitas situações incompreensíveis pelo fato de eu mesmo sê-lo. quem poderia me dizer que a construção é o mais entrópico? é tudo desordem, é tudo quebra, desgaste.
a continuidade me corrói, porque ela é assim, porque ela existe por esse motivo: corroer.

domingo, 22 de maio de 2011

Something

"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente."



Caio F. Abreu

21/05/11

Você é o bichinho mais bonito,
seria minha avenquinha
-isto é, se eu já não fosse a sua

De tão bonito, me dói.
Sinto tantas dores,
verdade.
Mas sua beleza me dói
e quebra o "Nothing's gonna change my world"

Sua beleza
rasga
minha pele
e todos os poemas escritos nela
-arranca um por um.
Mas não me importo,
mesmo.
As cicatrizes são tão bonitas,
não são como as de um acidente de carro
são como marcas de dias bons,
como a cicatriz da mordida do cachorro na infância, no parque.

Ah, sua beleza.

Longe de qualquer flor,
longe de qualquer escultura,
pintura,
poema.
A beleza que poucos conseguem ver
A beleza que às vezes descubro ser de uma dimensão maior.

Está tarde, amanhece
voltemos para nossa cama de casal
e pode deixar que mais tarde eu mesmo acordo para dispensar a
[camareira e o café da manhã.
(Os portugueses não sabem que somos bichos da noite).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

explicações

Minhas manhãs se abrem com faca. Com uma música que em dias irei enjoar, mudar, tentar colocar algo que me agrade, para tentar aparar as serras da faca do despertador, ou desamolar o facão.
Agrega problema, acabo desgostando de mais uma coisa que gosto.
Talvez amenize, espero que sim.
Os relacionamentos, as despedidas, as viagens, tudo se delimita em cortes, em graus de profundidade, em, mais uma vez: faca. Quase todas as coisas às quais me habituei, e mais quase ainda todas as que me surgem como novidades, vêm acompanhadas de canivete, punhal, pedra amolada, e quaisquer demais objeto que possa exercer a função de faca: cortar prontamente, sem muitos arranhões -um corte sóbrio, de bordas regulares.
Se desde o parto normal o bisturi entra em ação, o que dizer dos demais momentos da vida?
Eu estou enjoando dessa analogia, repito tanto ela para mim mesmo (como se as pessoas ao meu redor pudessem ouvir, entender, repensar), que preciso me distanciar disso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Com faca (2)

Com faca se abre manhãs.
Quantas,
quantas manhãs
foram abertas a seco,
com faca, com força.

Com faca se abre corpos,
centenas,
centenas.
Se tira sangue,
órgãos.

Com faca quase-tudo
se abre,
se devassa,
se invade,
se explora.
Sem pedidos de licença,
é com faca.

Com faca
não se abre
o esplendor
da manhã.






(Para Manoel de Barros, para sua sábia-infância-eterna)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

emsegredo

da boca não sai palavras.
controla,
prende,
segura firme, como um crente segura na mão de Deus.

domingo, 24 de abril de 2011

24/04/2011

-um só minuto.


você está pronto?


é muito sangue, é muito. jorra.


está pronto?

domingo, 17 de abril de 2011

alimento

Já posso pegar a maior faca da gaveta? Percorrer seu corpo, desenhando com a ponta afiada as imagens que povoam minha mente ao longo das horas cruas. Ir rabiscando em cinza sua barriga, às vezes, fingindo que sem perceber, afundar um pouco mais, mostrar sua vida em vermelho para meus olhos, secos. Escrever poemas, tantos quantos couberem em suas coxas.
Ao percorrer pescoço, descer, seu peito pula, jogo a faca no canto da cama, continuo com dentes. Quão mais rígido seu corpo, mais afiados meus dentes, e a faca passa a parecer seda, eu só queria arrancar um pedaço, o meu pedaço.





terça-feira, 5 de abril de 2011

poesia

Ela é poesia,
pura,
límpida,
leve poema sem carne.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

meu corpo, cansaço. sinto dorzinhas em todos os lugares que me competem. sinto meu corpo precisando de um abrigo, de um conforto.

sábado, 19 de março de 2011

em sussurro

As palavras são duras. Pedras pontiagudas com alta capacidade de fixação. Todo esse perigo não me fascina, porque dói, rasga, e permanece. Sei que tenho meus orgulhos de estranhezas, mas amar as palavras me dói, sempre me doeu, agora me dói ainda mais.
Sou um declarado amante do silêncio -gosto da vida. Mas é meu amor às palavras que me move, e é duro ser movido por dor.
Como eu poderia ouvir o resto das frases depois de algumas palavras lançadas previamente? Olha, as palavras se repetem, essa repetição se retroalimenta, torna-se eterno em eco em mim. Seria impossível, não cabe aqui (dentro de mim) tanta palavra em negrito. O que é mais curioso é a capacidade dessas armas de se armazenarem em mim, e florescer o vazio, incompletude, abandono.

Invasão, e vazio por completo. Nu como o vazio inicial do nada. Meu amor e apego pelas palavras, e seu significado cru, sempre se volta contra mim, se invagina, ramos secos. Meu peito é tão pequeno, eu juro que não tem espaço para tantas sementes. Me resta aqui, anunciar para mim mesmo uma nova meta: desamar as palavras, essas pedras duras.

segunda-feira, 7 de março de 2011

E sempre, sempre, sua pele macia me cobre em silêncio.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Prece

Às vezes as coisas parecem bem bonitas.
Bonitas de uma forma nua -olhos lacrimejando, sorriso fácil.
É quando queremos/precisamos que tudo esteja bem. Todos precisamos estar bem uma hora.

Não há coração, Meu Deus, que suporte toda verdade.
Prostituição sem prazer, é isso. Orgasmos e orgasmos, fingidos.
Não há respeito pela verdade.




Resta, sempre, o medo. Indivíduos controlados em limites de quatro paredes,
teto,
chão,
tanto limite, Meu Deus.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

muitas coisas me envolvem

eis que chega alguém, de capús preto, sem olhos, boca fina, como sem carne, e me enxerga. eis que o mesmo ser se aproxima, pede um fósforo, sorri de leve, como quem quer brincar com o sentido das palavras. na ânsia de enxergá-lo não percebo tal intenção. o charuto tomou um tom avermelhado, forte, cor de fogo em fumo, a inexistência dos olhos tomava conta de todo meu corpo. deu duas voltas ao redor de meu corpo, como cobra estudando a janta, se arrastou para longe. frio na barriga, borboletas no estômago. passaram, passou-se, outra tarde, o mesmo capús, me ronda, me sonda, aproxima-se de minha pele, nuca, sussura: eu gosto de você, sinto um cheiro bom. como se soubesse o que sou.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ne me quitte pas

as belezas tão belas. porque tua feição é tão bonita, linda. vejo as coisas com dois passos de distâncias, algumas vezes preciso de uma pele, mas para, olha, as belezas no fim estão por ai espalhadas, a grande maioria no chão, e chove, e reflete luzes turvas: lua, estrelas, postes.
enquanto em todo o resto ocorrem sons, serenatas, frívolos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

pertences e definições

ainda guardo muitas coisas. guardo o costume de, na madrugada, pegar uma caneta esferográfica azul, compactor 0.7, e começar a escrever teu nome, sempre começo pelo pulso, antebraço, peito, barriga, coxas, sim, as duas, pé, boca. ainda não entendo esse costume, as coisas mudaram, as coisas estão sempre mudando, mundo muito cíclico, mundo se renova, costumes ficam. andei lendo algumas anotações feitas por estranhos e descobri que não devemos responder por coisas que nunca fizemos, ele considerava que nós nos renovávamos periodicamente, ele gostava muito de química, biologia, entendia que todas as células que tenho são fonte de renovação, novidade, átomos novos, vindos de outros seres que não estão mais presentes. sobra-nos a alma. você sabe de minha paixão pela água, é inegável que a alma escorre, ela pesa, ela não é sólida, ela só pode escorrer, e escorre sobre seus nomes em centenas de centímetros de pele azulada. minha alma escorre. guardo também alguns pedaços seus, entre dentes, tenho um punhado de motivos para me sentir como um velho baú de coisas-usadas. e eu, mesmo me policiando, mesmo fugindo das águas, mesmo com medo delas tocarem minha pele apagando cada símbolo azul, mesmo e sempre, você é rio.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Das Dores

A Das Dores sempre foi de muita dor e pouco sofrimento, sorriso farto e coração de criança, fria como um inverno pode ser. Seu andar, cambaleante, fruto de um passado sem chão, a fazia se perder pelas ruas, incomunicável, intransponível, gostava de estar sempre in, de ser sempre in. Nos seus olhos de farol com pouca energia o mar se fazia em poças. Poças imutáveis, intransponíveis, eram formadas, como quem vive em constante choro, mas nunca deságua. O que é triste, muito mais triste, um choro que não termina, como se nunca doesse o suficiente, como se sempre estivesse doendo. E doía.

Fogaréu

Ela
me esperava
com o cigarro aceso
em mãos, olhos vidrados,
a partir de seus olhos eu pude
ver que era sim, eu mesmo, o composto
químico que lhe fazia revirar o (seu) mundo.
Havia um equilíbrio em tudo que lhe penetrava:
fumaça, álcool, inseticida, feijão, agulha, olhares.
Era como se soubesse dosar cada gota,
cada grama do que se aproximava,
e, sem fugir, sorria com todos os dentes que um sorriso exige.
Não consigo entender, o porquê - Por que Senhor?, diante de tantas e tantas substâncias, compostos, a farmacologia não está avançada como nas reportagens?
Muita escuridão toma conta de um momento em que há apenas fumaça.
O cigarro queima lentamente, a fumaça toma conta de suas expressões, não imaginava vê-la vestida assim, nua.
O cigarro enfim termina, começa então a queimar os dedos, sua pele estava sempre marcada.
Ela parece não saber, mas o amor sempre começa falho, gasto, vê-se sempre ele se despedaçando, se tornando acomodação, crença, um almoço de domingo. Está tudo tão escuro, não é possível que ela não perceba o quão fundo estamos indo, ela parada, eu andando. Queria que ela soubesse que eu gostaria de estar sentado ali, em seu lugar, queimando todos os milímetros de minha pele, gostaria que ela tivesse esse meu azar de ver as coisas por um plástico transparente, e confesso que um pouco fosco também, com o risco iminente de queima, de fogo, de lesões irreparáveis. Sua mão suavemente se agita, vejo riscos vermelhos no ar, são suas unhas dançando, caçando vento, curando mais uma queimadura, mas ela já está marcada, continuo andando, ainda muito lentamente, como quem procura um lugar adequado, julgando iluminação, ventilação, visibilidade, acesso, restrições.
Mas qualquer pessoa pode ver em meus passos que estou indo para qualquer lugar, meus pés não estão firmes, os passos são esporádicos, meus olhos mal procuram algo.
Me sento, ainda vejo seus dedos em brasa, seus olhar fixo na cadeira vazia em sua frente,
um personagem mal sucedido de um drama de Hollywood, uma atriz
sem roteiro, sem fala, sem instrução.
Gostaria que ela soubesse que aquele era um personagem, mas há muita realidade para falar sobre encenações. Meu corpo doía de leve, como em presságio. Seria impossível resistir a ela, isso era claro, seria impossível não reparar em olhos tão nus, me levantei,
sem mais encenação apressei o passo com olhos em lágrimas.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

cortar sangra.

acreditar que há cortes sem dor, acreditar que há o tempo passando em que? o que acontece onde? porque tantas vozes, tantas tantas tantas vezes, vozes. o silêncio me arranha aos poucos, o silêncio arranca unhas com alicate.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

as vezes é complicado discernir o certo do errado. mais complicado que o normal. dizem que o ser humano nasce com uma luz, mas acho que todos já estão cansados de metáforas, de luzes, de fumaças e suspiros. as coisas acontecem de verdade, com olhos abertos, arregalados, mãos gélidas. não, ainda é tão cedo, porque agora? surgiam cada vez mais vontades, vontades, vontades, ao fim de tudo restou um medo, covarde.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

areia, água salgada no rosto, pressa nos pés. assim continuava o dia sustentado em músculos frágeis e trêmulos. logo as mãos se acomodaram no colo, lugar seguro, confortável, mas o rosto não encontrou abrigo, se contorceu em prantos, jorrando um aperto que vinha do peito, um aperto que vinha das coisas mais bonitas, do amor puro, muito puro.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

nem preciso de palavras, como se elas nem existissem.