Passaram alguns anos, o cheiro de besouro que toma a casa por completo nessa época do ano não me apavora mais, sinto apenas o conforto de estar aqui, de saber que apesar de os anos terem passado muito permanece. Me sinto seguro em meio a besouros voadores - e nunca pensei que essa sensação fosse possível. O sentido da palavra segurança passa a se modificar diariamente, e o pouco de vida que já tive me deixa bastante confuso sobre o que serei. Seria culpa de uma combinação infeliz de signo, ascendente e lua? Nunca saberei, assim como sinto que nunca estarei seguro. Imagino como seria uma vida em que não se questiona o sentido de cada palavra que lhe cause. Mais que imaginar, gostaria de vivê-la. Minha segurança, pautada em besouros, cheiros, abraços, vazios, abre meu peito e me torna uma cefaleia pulsátil em região periorbital. Há quem pense que seja uma dorzinha de cabeça. Há quem não perceba que uma cefaleia pulsátil em região periorbital impede o enxergar. São períodos em que me sinto cego, períodos em que questiono se algum cego realmente se sente seguro. Nesses momentos, de cegueira passageira, o conforto do cheiro dos besouros se transforma em terror. Você boceja com a mão na boca, você perde um pouco o ar, o terror se torna prisão. Volta à mente, de forma clara, o questionamento do que seria se sentir seguro. Inspiro, expiro, inspiro, expiro, numa tentativa calma de expirar todas as dúvidas que me formam humano. Inspiro, inspiro, inspiro, me encho de mim e durmo.
Gostaria de seguir um caminho seguro com a alma.