Eu não sabia que já conhecia o amor da minha vida, e nem me lembro do dia que o conheci. Sei que éramos muito jovens e eu ainda mais jovem que ele. Sei que ele se apaixonou por mim antes mesmo de eu saber que era gente, e que gente foi ele que me tornou. O amor da minha vida tinha um jeito sorridente e tímido de levar a vida, enquanto eu tinha um jeito solto e desenrolado. Diziam que eu era difícil, que eu era duro, birrento e mandão. Ele não. Ele era um sorriso numa manhã de sol. Fomos crescendo juntos e vendo como um completava o outro, sendo completos opostos. Eu pedia para ver tv até tarde porque gostava de filme de terror, ele se escondia debaixo do cobertor e queria fazer um toque de silêncio e desligar a tv as 22:00. Ele via uma maratona de jogos de futebol e depois todos os programas de comentário esportivo, eu colocava a cabeça embaixo do travesseiro para tentar não ouvir o replay do mesmo gol centenas de vezes. Eu era de livros, ele de jogos... Nisso, fomos nos admirando e aprendendo um com o outro -enquanto achávamos que éramos opostos que não seria possível se juntar.
Nesse processo de viver cada qual suas verdades fui percebendo que o que eu achava que era intriga, era na verdade admiração. Eu admirava sua leveza e felicidade fácil. Ele admirava meu modo determinado. Foi quando olhei pra ele e vi um velhinho, com muita sabedoria (e saúde e felicidade em demasia). Ele me olhou e perguntou: porque eu sou tão feliz? Eu mereço essa felicidade toda? Logo ele que nunca era de se questionar. Por não estar habituado com suas questões eu não soube responder. Fingi que não entendi e respondi que queria ser tão feliz quanto ele, e com essa resposta de fuga eu percebi que o invejava e que queria sentir todas aquelas coisas que ele sentia. E saí. Tinha medo de grandes assuntos e grandes dilemas. Saí sorrindo, pensando na provocação que esse senhor acabara de me fazer, e me sentindo desafiado a ser feliz. Com o passar do tempo nossos encontros eram cada vez mais esporádicos. Descaso meu que não sei administrar meu tempo, mas ele fazia de tudo para nossos caminhos se cruzarem, ele sabia o quanto era importante no meu crescimento... até que alguns anos depois eu me sentei, já cansado, numa cadeira de pracinha e logo depois ele sentou ao meu lado, me deu boa tarde, me disse o quanto o dia tava bonito e o quanto deveríamos ser gratos por um dia tão bonito. Olhei para o chão e vi que havia muito lixo espalhado pela rua, tinha um cachorro de rua esquelético e uma adolescente aos prantos perto de umas árvores. Assustado olhei de volta para ele pronto para listar todos os problemas, mas então vi em seu rosto o reflexo do sol. O sol nunca havia sido tão lindo. Eu nunca tinha visto um dia tão lindo. Notei que era o meu amor que refletia o sol. Era meu amor emanando luz - mas ele não estava mais ali.
Obrigado por ter sido meu pai, meu irmão, meu amigo, meu filho. Obrigado por ter sido o melhor exemplo de ser humano que eu já conheci. Obrigado por me tornar uma pessoa melhor diariamente. Obrigado por não desistir de mim, por não desistir de ninguém, por lutar por todos.