quinta-feira, 24 de novembro de 2011

_...

...
_Ei, o que é que você está fazendo aí?
_Esperando.
_Esperando o que? Ai.
_Ai?
_É. Ai! Não sei o que você está fazendo aí.
_Estou esperando o tempo, ainda faltam quatro anos.
_É verdade, tem toda aquela promessa.
_Tem! Toda.
_Pare, não fale como se fosse tão óbvio assim. Esqueço às vezes.
_Esque-ce?
_Não, eu lembro, mas a vontade às vezes se sobrepõe. Como você está preciosista hoje!
_Eu? Saudade.
_Pare. Acho que vou te ver no próximo ano.
_Jura? Mas já vamos firmar o compromisso?
_Não sei, é confuso isso.
_Lá vem você e sua mania de confundir as coisas.
_A saudade tem cor.
_E tem?
_Preto.
_Nossa, que cor você inventou para saudade. Não poderia ser vermelho?
_É que eu acabo fechando os olhos, aí fica preto.
_Vem cá, vem!
...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poeira

Estamos deitados estamos quentes estamos parados estamos andando estamos andando lado-a-lado estamos andando estamos rápidos não podemos nos acompanhar estamos andando não sei quem está mais rápido quem vai chegar primeiro estamos andando um-passa-o-outro estamos em movimento estamos andando mais rápido estamos ofegantes não há cansaço estamos andando estamos chegando estamos andando sentimos a terra entre os dedos sentimos o calor de um chão que parece não conhecer a noite estamos andando mais rápido estamos fingindo corrida estamos mais rápidos não sabemos mas estamos estamos mais rápidos estamos sentindo o calor como brasas afiadas mas o sangue também está quente estamos mais-e-mais rápidos estamos andando muito rápido estamos chegando ao limite estamos entre o caminhar rápido e a corrida estamos no meio do caminho estamos estamos andando muito rápido ou estamos correndo não estamos nos vendo não estamos perto ouvimos o barulho um-do-outro o arfar dos pés na terra seca estamos de algum modo no mesmo ritmo estamos correndo somos como poeira agora não somos como o vento que só deixa o rastro poeira estamos deixando poeira duas linhas duas linhas de areia erguidas somos apenas a causa deixamos a areia como rastro estamos correndo o fôlego começa a faltar os pés não pisam mais o chão eles flutuam em carne viva em velocidade indolores e corremos corremos muito não chegamos nunca chegamos mas corremos como quem acredita estar no caminho certo como quem acredita em caminho certo corremos corremos tanto você sente o quanto corremos ou será que não ou existe algo maior ou o caminho está errado corremos corremos como quem voa alto como se não existisse nem nuvem continuamos correndo não mais lado-a-lado porque só sobrou o correr só nós resta correr.

domingo, 13 de novembro de 2011

Quem sabe?

Não quero que pense nada, muito menos que eu estou dizendo algo. Estou aqui, sim, calado. Sou fruto de seu pensamento, apenas um fruto como tantos outros de sua árvore de estimação. Está pensando demais. Está se desgastando sem previsão de resultados. Poderia deixar de tentar saber sobre o que só o tempo pode saber. Você continua pensando que está determinando as coisas, isso não há de ser bom. Nem para você, nem para o tempo. Você está tentando determinar sobre o que só o tempo pode saber. Mas o tempo, brincalhão, samba com um sorriso, leve, despreocupado de suas preocupações. Ele se conhece, diferente de nós. Gostaria que você parasse de tentar adivinhar como eu sei de tudo que se passa na sua cabeça. Porque? Porque eu sou fruto de sua cabeça, como eu poderia me esquivar de seus pensamentos? Sua cabeça gosta muito de mudar, é de entontecer, um enjoo bom, ninguém ousaria dizer isso, mas sua mente, frutífera, ousa imaginar um vômito bom, com gosto de fruta da estação. Poderíamos parar de duvidar a partir de agora, eu de mim, você de mim, e poderíamos tirar o foco de mim também. Foco: palavra seca. Pensando bem, pode mesmo se arrepender. Pensando bem, podemos continuar assim: pensando bem, foco, nitidez, contraste, explosão de cores, fim de textura, impressão vagabunda. Estar aqui dentro é muito confuso, você continua pensando que determinou o que não quer dizer que não vá acontecer, tem a parte do "se dar", mas você não pensa sobre o que fazer com isso. Quem sabe? Não chegou a hora de parar de jogar. Estou apenas dentro de você, talvez seja o momento em que seja tarde demais. Cedo demais? Vai saber?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

30.000 pés

Um dia chegar te ouvir dizer "não é por mal, mas vou te fazer chorar, hoje vou te fazer chorar".
Estou alto, há 30.000 pés, mal consigo te ouvir. Eu até estou me esforçando, mas aqui venta, aqui está frio, meu casaco está com você, mas você não me alcança, mas ainda estou alto, mas ainda venta, ainda sinto frio. O frio vem de dentro, e se espalha por fora, sinto o frio saindo pelos meus poros, são tantos poros, acho que estou completamente destruído, parece que só tenho poros, parece que não existe nada completo em mim. Recomeço a reconsiderar a ideia do tudo ser vazio. Aquela ideia do átomo, do núcleo denso ser 1/30 da eletrosfera vazia. Será que somos tão vazios assim? Estou produzindo frio, estou tão gelado, não consigo me sentir, estou subindo. Agora quase não consigo mais te ver, só existe bolinhas verdes num mar cinza, bolinhas brancas no mar azul, bolinhas, nuvens, frio. Já estou me habituando ao frio, gostaria de saber o que você está tentando me dizer, é como se eu pudesse ouvir algo, ruídos, vogais acentuadas, mas eu sei que eu não posso estar te ouvindo, eu sei que estou muito distante, mas não ache que estou confundindo sua voz, é coisa da minha cabeça. Sim, minha cabeça está criando caso, criando você. Eu gostaria que você estivesse aqui, me aquecendo, esquentando, esquecendo, gostaria de gelar você um pouquinho, é tão bom esse ar frio, aprendi a gostar de meus poros, apesar de achar que eles me deixam vazio. Sim, meus poros representam todo o vazio, todo o vazio que pode caber em poucos núcleos. De onde vem tanto poro, tanto frio, tanta falta. Eu tinha aprendido que o metabolismo aquece, libera calor, sempre fui acostumado a sentir calor, a fugir do calor, e agora me encontro na busca dele, não por saudade, não sinto falta de tanto calor, de suor, de cansaço, mas seria mais fisiológico sentir calor. Mais fisiológico? Existe menos fisiológico? Existe isso tudo que está acontecendo? Ainda não te ouço. Não consigo ouvir nada que está acontecendo nesses mares cinzas, azuis. Mas estou gritando, você deve estar ouvindo. Queria que só você ouvisse, mas não posso gritar mais baixo, como eu amo o sussurro. Sim, o sussurro. Sussurraria isso tudo no seu ouvido, mas tenho que gritar, gritar o mais baixo possível, na tentativa de só você ouvir meus lamentos de sua falta. A falta. O sol não pára de brilhar. É incrível como ele brilha soberano, acima das nuvens, meus olhos doem, meus olhos doem de luz e meu corpo congela por si só. Você consegue imaginar isso? Consegue imaginar meu corpo congelado e meus olhos cegos de luz? É como uma exposição de horrores, como um poste sobre geleiras em funcionamento no inverno do Alasca. Consegue imaginar? Os ossos doem, devagar...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Plantas antípodas

Nós somos como planetas, baby, e nossas órbitas não se cruzam. Nós tentamos, nos esforçamos, superamos diversas estrelas e tempestades siderais, mas nós somos simplesmente como planetas de órbitas divergentes, e o espaço está se expandindo, e nós estamos mais distante a cada momento, e o tempo passa, e o tempo, a velocidade, isso tudo acarreta em distância. Será que estávamos apenas nos enganando? Será que não sabíamos de nossas rotas antes?
Estamos indo, baby, não se sabe para onde, não sabemos o porquê. Estamos indo, não podemos ficar parados esperando o nada acontecer. O nada nunca acontece, sabemos disso, sabemos apenas que temos que ir, mas nunca saberemos para onde. Onde estivemos esse tempo todo? Onde foi que começamos, onde terminamos, onde isso tudo se transformou em simples rotas? Quando?
Vejo estrelas cadentes em eterna queda, posso ver cometas se chocando em você, desviando sua rota. Sua rota é de imensa divergência, baby. Não conseguiria te acompanhar, estou cansado, estou à caminho de plutão, comecei uma órbita muito estranha, fora de , estou tentando completar o primeiro ciclo, estou tentando descobrir se há um ciclo.
Como está aí? É difícil passar perto de sua órbita, não me apetece a proximidade ao sol, você ainda ouve?
Nós somos como plantas, baby, plantadas em antípodas. Será que nossas raízes ainda se encontrarão?