sexta-feira, 13 de abril de 2012
olhos, mundos infinitos, buracos negros
_te ver ali parado foi como um golpe final. não sei se o golpe foi teu, se foi meu, ou se foi um golpe sem dono. Me arrancastes os pés, os nervos. Tudo foi se esvaindo aos poucos, pois podia sentir cada falta, e repentinamente, pois sem perceber fiquei sem movimento. você dizia que ia embora, me deu um beijo, ficou plantado na porta, me olhando entrar, me olhando despir, me olhando colocar uma samba-canção, me olhando deitar em soluços. continuou me olhando como se eu pudesse fazer algo sem ser visto nessa casa de vidro, plástico e rachaduras. Me viu escorrendo pelo lençol, afogado numa manta quente, que competia em temperatura com cada gota escorrida. sem pés, sem (sequer) nervos, estava eu na cama, ainda mais morto de mim, aguardando a queda de seu avião, uma notícia trágica qualquer, uma aura de ponto final. Volto a te ver ali parado, como estátua, estátua que diz que vai embora e permanece, que diz que se desintegrou e permanece íntegra. estava tudo na mais completa imobilidade. Sabe, um golpe final não tem volta, não tem possibilidade de alteração, de uma nova chance. Sabe, seus olhos são dois buracos negros, e eu estou caindo há tanto tempo que não lembro como é não cair. Sabe, você parado. Você parado, dizendo que vai embora. Sabe, você dizendo que vai embora e permanecendo. Sabe, eu sei que saiu de minha boca que eu estava indo embora. Sei que. Eu sei, que as palavras são minhas. Mas seus olhos, que outrora eram buracos negros, se transformam em planetas eternos e vazios. Os vazios que me banham e que me falam do partir. Olha, são seus olhos me dizendo que você está indo embora. Sabe, são as mãos. Mãos gordas. Mãos gordas em corpo magro. A temperatura de uma mão gorda contida num corpo magro que impede. Há um impedimento, há. Acontece. Muitas vezes acontece. E sabe-se, sem nenhum sujeito, que não é passado. O peso do passado não afunda. Não é. olha, eu tive que escrever isso rápido, você já estava chegando com seus olhos de mundos vazios. Mergulho. Tem gosto doce o seu vazio. Os vazios. sou um pedaço de livro esperando. mas não há leitura, porque não há texto, porque há mudanças diárias, diários, e dias e horas, mês. o que acontece não há de ser. o conhecimento, a rapidez. Os vazios dos seus olhos, dois mundos infinitos, meus buracos negros.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
você se acostumou errado. ao avesso. se acostumou com tudo que eu fiz e que sabíamos que eu não permaneceria fazendo. você se apegou às coisas mais erradas que eu fazia. se apegou a passagens e quedas. lembra que eu nunca disse que seria para sempre? sabíamos com o que estávamos lidando. sabíamos que as relações são secas. são pontos. sabíamos que o sofrimento fica no ínfimo espaço entre a cama e o lençol. eu lembro. as lembranças também são secas. todos os indícios. as umidades. tudo seca. por isso sabíamos que não havia motivo de promessa. sabíamos que nada seria cumprido. estou com fome. é só isso que sinto. com o que você se acostumou? sabemos que o costume é algo tão bobo. porque? estou rindo. é tudo uma grande bobagem. grande. grande bobagem.
terça-feira, 13 de março de 2012
nascendo para
as coisas começam a tomar novos posicionamentos, desconfortáveis, minha coluna dói. a dor irradia de uma forma estranha. é como se tudo começasse ao mesmo tempo no sentido céfalo-caudal, e ao completar todas as vértebras, sem pular uma sequer, começasse a se irradiar horizontalmente, seguindo as costelas, criando costelas de dor onde as mesmas se fazem ausente, me cobrindo como um colete colocado com cuidado, simetricamente, com pregos, espinhos, alta voltagem.
_Maria, a costela não protege. Se percebe com a dor que a costela não protege. Costela dói, porque me falaram que a costela protegia meu coração? Meu tórax dói, por dentro, os pulmões ao se encherem de ar esmagam tudo ao redor, e ao expirar resta um vazio enorme, um pós-bomba nuclear.
está tudo sem graça, não estou rindo, é dor. de repente aquela pessoa que mais te importa percebe que esses dias o tempo é só seu, ou mesmo ela te esqueceu, mas esqueceu em sintonia, é tudo tão bonito, dói mais. a sensibilidade está muito aguçada, coisas belas e sujas se misturam, a expressão é constante de dor, mesmo que puramente bela.
_Maria, a dor nem sempre é uma coisa feia. Você está acostumada a ver a dor como algo ruim, está acostumada a fugir da dor diariamente. Não fuja da dor. Percebe que fugir da dor é viver em função da dor? Deixa doer, deixa escorrer. Você seria um rio tão bonito escorrendo, é bonito seu rosto inchado.
o ciclo. lembro do "3 anos, 6 anos, um ciclo se fecha. entende? sabe, né? o ciclo...". parecia uma prece. mal sabia eu que iria adorá-la a cada abertura e fechamento de ciclo, a cada tentativa (em vão) de fazer o ciclo durar mais algumas horas.
ar fresco, tempo, tempo, sol, ar fresco.
_Maria, se nasce para, os ciclos nascem para, você é feita para
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