quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Cânticos e Mares

Me afoga nos teus cânticos,
Me banha nos teus mares.
Sê minha poesia
  sem rima
  sem rosas
Sê pura carne e sangue
em mim.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

(sem título)

Quem nasceu para se rasgar ao meio não sabe ficar íntegro.
quem nasceu para?
é um eterno rasgar, um eterno
reconstituir.
Mas antes de re-constituir
há um novo rasgar
fé cega - faca amolada

há uma necessidade
não se sabe onde
não se sabe porque
não se sabe
não
de manter o sangue escorrendo.
Talvez seja de uma vida
ditada
O-Sangue-É-Vida.
e aprendeu
-como em prece-
que sangrar é provar que está vivo.
Para si mesmo.
Para acreditar em si mesmo.
Para acreditar que algo acontece por dentro.

É preciso ficar doente,
é preciso definhar,
é preciso perder:
dentes
cabelos
pele
sangue
sangue
sangue

Sangrar é preciso.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

creep

Estava precisando ouvir uma voz doce me dizendo que você é como um anjo. Me lembrando de quão surreal é chorar por sentir uma pele tão macia, um ser de luz -tão especial, tão tão. 
Essas coisas me fazem pensar no que quero ser, no que quero ter, no que quero fazer parte.
Sinto falta de me sentir uma aberração diante de tanta luz, de me sentir pequeno, desimportante em mim mesmo. me lembro de me importar com sua tosse, de me esquecer de minha febre, minha falta, meu fogo, minha auto-destruição. 

I want you to notice
When I'm not around
You're so very special
I wish I was special
But I'm a creep, I'm a weirdo

domingo, 10 de novembro de 2013

um poder sobre-humano de me dizer que sou seu
e eu não conseguir negar, nem me sentir usado

terça-feira, 15 de outubro de 2013

come come to me // run run to me

cerrou os olhos e olhou em frente -era como se ver num espelho. piscou duas vezes -mania que criou para tentar acreditar na veracidade de grandes encontros. se viu intacto -era a sua mãe. quis gritar bem alto. quis pedir ajuda. quis pedir para que fosse embora. quis dispensar qualquer vínculo materno. quis tantas coisas que ficou imobilizado. olhou bem para o fundo daqueles olhos castanhos -que tanto pareciam seus. olhou com mais força, apesar de não ter utilizado nenhuma contratura muscular a mais para tal. permaneceu imóvel. viu uma lágrima se formar naqueles olhos e não soube de quem eram aquelas grandes gotas brilhantes. diante da dúvida, acolheu as lágrimas e chorou por elas. sentia escorrer lágrimas vermelhas e densas. sentiu que se esvaia e a sensação final era de leveza. os olhos castanhos cresciam, tomavam conta de si mesmos e do resto da moldura. uma formiga alcançou o espaço entre seus dedos e picou. aproveitou para sentir cada pontada, sentir o prurido sem friccionar. aproveitou para sentir qualquer sensação diferente da imobilidade do reflexo de si mesmo. enganou o peito com a dor da picada. tentou se enganar. nada poderia se sobrepor aos seus próprios olhos em moldura de rosto materno com lágrimas vermelhas.
a figura então começou a se tornar pálida, pálida, pálida, pálida, papel. a figura se tornou papel de si mesma, vazio de linhas palavras rabiscos, sem expressão -apesar da idade avançada. chegou, enfim, o momento em que a consciência se perdeu, duas estátuas se olhavam, completamente imóveis, completamente fora de si. teria agradecido por ter perdido a consciência, mas a consciência lhe faltava para o agradecimento.
a moldura começou a ficar laranja, vermelha, fogo. começou queimar. queimou aos poucos, sem pressa de ir embora - e foi.