Meia noite, começava a ser viável pensar no passado como algo muito próximo, muito presente. Mas é meia noite, é natal, é o marco de um calendário, é hora de comer, hora de sentar, hora de cochilar, hora de começar as discussões, justamente porque é natal.
O menino de blusa sem cor observa nos olhos de sua avó, de sua bela avó, a avó mais bonita, o ser humano mais bonito, observa a sinceridade, ele entende perfeitamente que ela está ali por convenção, que ela atura aquilo por ser boa, mas sabe que ela preferiria estar rezando em família, afinal ele sabe que ela não para de pensar no aniversariante, no esquecido aniversariante, os olhos mergulham em um ponto de desfoque, e o menino sem cor, o menino da blusa sem cor, não gosta do sorriso alcoólico, não gosta da situação como um todo, ele não sabe beber vinho. E quem acreditaria que o vinho acabou, que restou água gaseificada, que começaram a brindar sem vinho, sem tinta, sem renovação... quem? quem acreditaria?