Joana da roupa colada, decotada, lábios vermelhos, ninguém viu. Ninguém viu a pureza de Joana, ninguém viu sua unha não-pintada, seu cabelo festivo de natureza, todos nunca viram Joana. Joana da Conceição vai à igreja aos domingos para servir de comentário, aprendeu a não se importar demais (descrente da indiferença, e bela). Boca carnuda, ancas largas, tetas fartas, olhos incompreensíveis, "tão bela a Joana"- era o que moço, adulto, velho, ou qualquer outro animal dizia sem censura.
Joana estudou até o dia em que percebeu que sabia muito pouco e resolveu não se importar em saber mais, cansou de olhar para as coisas e começar a nomear, a calcular, a tirar o mistério que antes fora inerente a tudo que via. A suposta fogosa Joana frequentava três igrejas e não sabia em que deus acreditar, enquanto os desinformados pensavam: "é um só Deus, ela apenas o vê com mais frequência e em perspectivas diferentes", ela realmente se divertia com tal pensamento, pois era ciente da existência dos vários deuses e que a religião proibida de fato era a falta dela, ser atéia, no seu caso.
Joana nunca deu espaço a homem nenhum, suas opulências inibiam-na e atiçava-os. Não desistiu de viver, sabia que tinha preguiça do dia, mas por falta de informação decidiu não morrer, só tinha pai e o amava como o padre finge amar o celibato (mas não era amor fingido, era inclusive reservado), anunciava tal sentimento duas vezes ao ano e temia que um dia não pudesse fazer cara feia para ele, a cara que ele nunca resistiu sem devolver-lhe com um sorriso, o único homem que amara, até morrer do coração.