sábado, 13 de junho de 2009

carnavalizar

Carnaval, música alta, asfalto sublimando, pressão completamente incalculável. Os corpos molhados se uniam e se repeliam, poros abertos como narinas ofegantes, pedra, flor, espinho. datas ou dados temporais não tem validade, importa apenas a pele, poucas palavras, nenhum entendimento.

Um grupo de burgueses atravessa a rua com faixas, bandanas e panfletos cuspindo números, os malditos números que recordam horas, dias, proximidade do fim. algumas pessoas começaram a re-engolir os números que tinham vomitado horas atrás. Os burgueses, que gastam mais tempo e dinheiro com animais do que com pessoas, pedem por paz e pelo fim do carnaval, mostram gráficos, fórmulas e projetos do que poderia ser feito com tanto dinheiro: outro carnaval.
A passeata dura trinta e sete minutos, depois dela alguns manifestantes se deslocam para camarotes e tomam conhac com o dedo mínimo erguido. as pessoas voltam a vomitar os números e a banda continua a desarmonizar as notas. Cantam músicas agitadas para pedir calmaria, sair no jornal, ganhar algum dinheiro. Absolutamente normal, comum, banal, irreparável.
Os males se estendem, ocupam o ano, o bem regride.

Maria, moça dos livros, mora na porta do carnaval, costuma ficar triste nesta época do ano (não que seja feliz o resto do tempo... mas é que nesse tempo ela murcha, se afasta dos livros, briga com o próprio sorriso). Aprendeu a fingir que carnaval era domingo de páscoa, passou a comer chocolate, atravessar a rua com naturalidade, se fazer de surda.
Em um dos domingos de páscoa foi comprar chocolate, tropeçou algumas vezes, não pediu desculpas e nem desculpou ninguém, afinal sua rua estava deserta e um homem gritava em um carro grande revestido de luz e som, já sabia identificar a música com os pés, não se importava mais. Um moreno lhe pediu um beijo, ela foi comprar chocolate, um ruivo lhe pediu um beijo, ela foi comprar chocolate, um amarelo, um moreno, uma alma, um beijo, um beijo, um beijo, chocolate, chocolate, chocolate. Diante da pouca variedade da vendinha, normalmente, comprava o meio amargo, ficava feliz por comer uma barra inteira e não enjoar, às vezes comprava de outros sabores, mas era passa-tempo, a água na boca era sempre proveniente do meio amargo.
Quando o domingo, que amanhecia e crepusculava algumas vezes, se despediam um meio dia, começava um dia já com o sol reinando, a semana que começava na quarta, nada de belas luzes coloridas a brincar de se esconder entre edifícios, era assim a curta-quarta depois dos domingos. Nunca acontecera diferente: almoço, cochilo, música lenta, café, cabeça nas núvens pensando no quase-eterno domingo-irritante que passava a ser agradável e doce.