Muito tempo de chão, acostuma-se a criar raiz, aquela parte do corpo que nutre sem ser percebida, escondida por debaixo de tudo, cercada de vida, ainda que escondida. Nunca chove na raiz, acima do chão apenas brisa leve, a raiz seca, estala, silenciosa. No vazio de água se chove por si mesmo, chove forte e a raiz outrora escondida, quentinha, ganha céu depois da enxurrada, depois da rasteira d'água, depois de um terremoto imóvel, depois de tanta coisa
A raiz se ergue, então, imperial, feito coroa de novo rei, intacta, decreta o desapego à terra, amor à sua árvore. Fiel, pretende nutrir, suprir, estar, captando do vento seco nutriente, captando até umidade, fugindo de seu eterno vazio, preenchendo cada folhinha, cada espaço vital.
Às vezes chuvisca por aí, sem mais, sem menos.
Às vezes a árvore é raiz, e raíz: árvore.
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