quinta-feira, 3 de junho de 2010
nado
neste mar é tudo nadar. quem vive de boia, quem vive. neste mar de árgua quem se afoga esquece, pois o nado tem que se tornar um reflexo, um ato impensado. preciso que use todos os teus músculos em movimentos vazios de sentido, preciso que pense tanto que se esqueça que é pensamento, que fuja de ti e te ache estranho. tudo que faz passa a ser reflexo de um dia ter pensado, sabe tu que não tens real tempo de pensar, fazer, sobreviver ao mundo água. nos momentos que julga vazio, de repouso, repouse nas tuas próprias águas, desaguando sobre ti todas as possibilidades, e os imprevistos, porque quando te vê no espelho não tens todo o tempo de um mundo, porque nem se sabe quanto é todo o tempo de um mundo, porque todo um mundo não há de ter em si espaço para guardar o que é maior que ele, seu tempo. e tuas lágrimas, mais água, me revelam o quão triste é nadar sem perceber, eu percebo. o mar é grande, e quem nada pensando não pensa em mais nada, é um doce aviso. tu bens sabe o que acontece, bens sabe tua vontade de nadar sem perceber, perceba que não é não pensar, é apenas não perceber que se pensa, e poderás, enfim, nadar em mim.
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