domingo, 27 de maio de 2012

deixa, amor.

amor, deixa queimar. deixa que tudo vire cinza e pedaços mortos, que tudo vire restos, que se acabe, que tudo acabe em fumaça. Amor, deixa que queime tudo dessa pele macia, desse sorriso largo restarão os dentes no chão. deixa queimar porque cheguei a conclusão que tudo acaba em cinzas e fumaça. não vamos deixar que nós mesmos nos queimemos assim, a sós, numa cama fria e seca. não vamos morrer sozinhos aqui, na distância de uma parede, de uma mesa, de uma cadeira. não há mais motivo para fugir do fogo grande, do grande fogo. não há motivos para fingir que temos um plano no qual sobreviveremos ilesos, intactos. somos tão pouco imortais, sabemos tanto disso, não fujamos da alegria desgarrada de nos ver queimados de uma só vez, com a ampla possibilidade de renascimento. não precisamos definhar, ninguém nos orientou a fazê-lo, porque fazemos? deixa queimar, amor. deixa essa chama quente arder na nossa pele, derreter fios de cabelos, pele, gordura. deixa eu ver meus olhos explodindo de felicidade, de lembranças, de coisas. precisamos de coisas, amor. precisamos de todo o sofrimento para que seja vida isso que estamos passando. precisamos nos sentir vivos, apenas vivos. e somos ruins nisso, porque só nos sentimos bem com o que nos machuca, com o que tem um defeito intrínseco. porque nos criticamos sendo iguais. amor, deixa queimar porque já desisti de minha pele, de meus pelos, de apelos. deixa essa bateria ilusória descarregar, o trem descarrilhar, o corpo solto, leve, completamente queimado.