Foi um abandono, nenhuma outra palavra poderia definir melhor aquilo que aconteceu da forma mais nua e mais humana possível.
Não sobrou nada do amor, nem o ódio.
Na sala de terapia:
_E agora, depois de nove meses, como se sente? O que enxerga?
_Acabei de ter um filho, mas é estranho, porque ele nunca amadureceu por completo, acabou saindo por questão de tempo, acabou o tempo dele, saiu um feto miúdo que não parecia com ninguém da família. A saudade corre grande no meu peito. Em tempo e em espaço.Mas é uma saudade surda, mas não existe amor. Ficou um vazio tão grande, um feto tão pequeno. Você sabe o que é abortar com nove meses? É não sentir mais ódio de nada, é perceber que mais triste que o ódio é a falta do sentir, uma corrosão interna, que não consegue sair, respirar, e que vai roendo bem devagar o nada, só para provar que ali não existe mais coisa alguma. Você sabe quando você ouve uma música bonita, fica tocado pela música, e sofre simplesmente por não ter nenhuma referência para tal? Um abandono de si mesmo pela falta do alheio. É como me sinto: um pedaço de terra sem bicho e sem planta. E agora tenho essa miudeza em casa, essa coisa enrugada sem nome e sem face. Me dói nunca ter estado grávida e ter um estranho me olhando com aquele par de gudes pretas.
_O que isso significa para você?
_O que o vazio pode significar?