Porque o abandono é preciso,
escrevo isso com lágrimas nos olhos, nas bochechas, adentrando boca e pele e
tudo mais. O abandono é a maior entrega, sabe. Eu vejo as pessoas e as
situações em diagramas, eu vejo o teu abandono como uma necessidade vigente. Eu
não sobreviveria a um abandono. Não foi fraqueza. Como seria covardia escolher
viver? Seria eu um covarde, sim, caso continuasse isso tudo, tão bom, até você
cansar, eu não perceber, você deixar um bilhete com cara de rascunho na porta
do guarda-roupa vazio. Ou pior, na porta do guarda-roupa cheio e o “ps: preferi
não levar nada que me lembrasse essa dor, pode doar, queimar, usar”. Porque eu
que abandono, mas com a lucidez de que doeria muito mais em mim o abandono. Eu
imaginaria uma vida inteira vazia de você, eu ficaria trêmulo a cada encontro
no mercado, na padaria. Você prometeu que no abandono você mudaria de bairro,
mas continuarei aqui perto, não sei como faremos. Segunda e quinta frequentarei
o mercado. Você pode ficar com a quarta e o final de semana inteiro. Eu nem sei
do que é feito o abandono, me sinto tão abandonado escrevendo isso, parece até
que estou lendo o bilhete que você deixou na porta do armário após nenhuma
discussão. Eu não gosto tanto de seu sapato vermelho, acho que te deixa cafona,
não use na esperança de que alguém se interesse por você. Parece que estou
jogando uma vida no lixo, é estranho. Planejei não falar sobre o que estou
sentindo, mas guardar seria como ser abandonado. Desculpa o egoísmo, desculpa
essa necessidade de sobrevivência. Eu amo seu sorriso do mesmo modo que amei
quando você riu pela primeira vez de uma piada minha, mas passei duvidar da
certeza de que era o sorriso mais bonito do mundo. Sabe? A dúvida me mata, e a
dúvida vem acompanhada do abandono em minha vida. Eu passei a me sentir
abandonado desde que surgiu esse traço de dúvida. Se sentir abandonado dói. Mas
e o abandono? Não há forças. Sofrerei aqui, olhando um retrato nosso e dizendo
para os amigos “foi melhor assim”, “não tínhamos tanta afinidade”, “todos precisamos
de mudança”. Não sei, mas uma hora eu acabo acreditando. Eu choro pouco, sabe?
Eu nem nunca chorei com filmes. Homem não chora. Homem sente dor, mas é isso.
Já estou aqui desdizendo um abandono feito às pressas. Sabe, já planejei isso
antes, mas seus olhos, nariz, boca, pele, mãos, tudo que faz parte de você me
faz recuar. Uma decisão tomada, uma dúvida criada, é pior que infecção. Lembro
de você dizendo que nunca conheceu uma pessoa mais sensível que eu, queria que
você soubesse que não existe olhar mais bonito do que o seu durante uma
confissão boba.