sexta-feira, 6 de julho de 2012

Apenas o Fim


Porque o abandono é preciso, escrevo isso com lágrimas nos olhos, nas bochechas, adentrando boca e pele e tudo mais. O abandono é a maior entrega, sabe. Eu vejo as pessoas e as situações em diagramas, eu vejo o teu abandono como uma necessidade vigente. Eu não sobreviveria a um abandono. Não foi fraqueza. Como seria covardia escolher viver? Seria eu um covarde, sim, caso continuasse isso tudo, tão bom, até você cansar, eu não perceber, você deixar um bilhete com cara de rascunho na porta do guarda-roupa vazio. Ou pior, na porta do guarda-roupa cheio e o “ps: preferi não levar nada que me lembrasse essa dor, pode doar, queimar, usar”. Porque eu que abandono, mas com a lucidez de que doeria muito mais em mim o abandono. Eu imaginaria uma vida inteira vazia de você, eu ficaria trêmulo a cada encontro no mercado, na padaria. Você prometeu que no abandono você mudaria de bairro, mas continuarei aqui perto, não sei como faremos. Segunda e quinta frequentarei o mercado. Você pode ficar com a quarta e o final de semana inteiro. Eu nem sei do que é feito o abandono, me sinto tão abandonado escrevendo isso, parece até que estou lendo o bilhete que você deixou na porta do armário após nenhuma discussão. Eu não gosto tanto de seu sapato vermelho, acho que te deixa cafona, não use na esperança de que alguém se interesse por você. Parece que estou jogando uma vida no lixo, é estranho. Planejei não falar sobre o que estou sentindo, mas guardar seria como ser abandonado. Desculpa o egoísmo, desculpa essa necessidade de sobrevivência. Eu amo seu sorriso do mesmo modo que amei quando você riu pela primeira vez de uma piada minha, mas passei duvidar da certeza de que era o sorriso mais bonito do mundo. Sabe? A dúvida me mata, e a dúvida vem acompanhada do abandono em minha vida. Eu passei a me sentir abandonado desde que surgiu esse traço de dúvida. Se sentir abandonado dói. Mas e o abandono? Não há forças. Sofrerei aqui, olhando um retrato nosso e dizendo para os amigos “foi melhor assim”, “não tínhamos tanta afinidade”, “todos precisamos de mudança”. Não sei, mas uma hora eu acabo acreditando. Eu choro pouco, sabe? Eu nem nunca chorei com filmes. Homem não chora. Homem sente dor, mas é isso. Já estou aqui desdizendo um abandono feito às pressas. Sabe, já planejei isso antes, mas seus olhos, nariz, boca, pele, mãos, tudo que faz parte de você me faz recuar. Uma decisão tomada, uma dúvida criada, é pior que infecção. Lembro de você dizendo que nunca conheceu uma pessoa mais sensível que eu, queria que você soubesse que não existe olhar mais bonito do que o seu durante uma confissão boba.