domingo, 9 de setembro de 2012

Morangos Mofados


Isso aqui é uma confissão do que uma vez me foi dito e apenas sorri fingindo timidez. Não por mania barata de fingir, mas por achar que o momento exigia uma timidez que nunca tive, de tão nu e tão aberto que me tornei. Agora mesmo estava lendo uma carta, não minha, não sua, não de ninguém que ainda esteja em carne e osso. Estava lendo uma carta e me vi escrevendo-a, me vi falando dessas coisas com você. Essa coisa toda é muito estranha, de ver o que você queria dizer, da forma que você nunca soube dizer, ali, descaradamente aberta a qualquer leitor. Sabe... quando você me disse que eu era muito sensível, frágil, com aquele tom de quem quer dizer “artístico”, mas que sabe que tal palavra estragaria tudo e empobreceria a comunicação... sou sim um poço de fragilidades e ando buscando me desviar dessa base frágil. Assim me sinto menos vulnerável ao mundo e aos seus acontecimentos, ao mesmo tempo me sinto menos vulnerável a mim mesmo e aos meus acontecimentos (estou começando a viver fora de mim, mas o caminho não está por aqui, do lado de fora). “O caminho é in, não off”. A gente vai descobrindo que o caminho a gente constrói andando, a gente vai se sentindo péssimo, a gente percebe que não tem planejamento que caiba numa alma perdida. “Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente desesperados”, lembra quando te disse algo parecido? Não assim arrumadinho tudo junto como em prece, mas ao decorrer dos vinhos e dos sonhos. Minha alma, ou essa alminha pequena que me consola (como preferir), busca a explicação que nunca será dada. Isso dói. Essa compreensão, mesmo que limitada, das dores e dos dolorimentos. Sim, essa palavra existe? sei que você é muito gramático, e eu literário, mas há de existir (in). Queria que soubesse o quanto achei bonita sua compreensão de como tudo no mundo me causavam dor, de como você conseguiu dizer que queria me proteger disso tudo sem parecer banal ou um personagem de conto em rascunho que faz morada no On the Road do Jack Kerouac por meses e anos e tempos. A gente nem sempre entra, nem sempre fica, nem sempre sai, pelo motivo certo. Às vezes a gente encontra tudo que queria e percebe que não, que é tudo muito insuficiente. Isso me causa uma sensação de saco sem fundo: nada preenche, nada é suficiente. Quem não sente falta de uma compreensão? A gente tem que apagar cigarros no peito, tem que dizer para si mesmo o que não quer ouvir, tem que vomitar, tem que vomitar muito. Tem que tentar encontrar flor no vômito. Tem que. Essas são das poucas coisas que me sinto na obrigação de “ter que”. Penso que algumas pessoas nasceram quebradas, como corações quebrados que vagam. Não há solução, não há conserto, e o resultado são pessoas adultas de olhar quebrado, e essa é a única forma de reconhecê-las. Na juventude algo mascara esse olhar, talvez seja a esperança de uma mudança, de um encontro, de uma compreensão, mas chega a hora em que se percebe que mesmo com o encontro, com a compreensão, com tudo mais, não há mais esperança, porque não há chances. Sei que pareço fora de órbita, tão com minhas obrigações in, tão tentando viver no off.
É chegada a hora do almoço. É curioso como existe hora do almoço e não existe a hora de, sei lá, qualquer-coisa-que-seja-mais-fundamental-para-viver do que o almoço.

É com um gosto de morangos mofados na boca que lhe deixo esse agradecimento, comentário, relato, depoimento, suspiro, desabafo. Tem muito do C.F.A. aí, da época dos morangos. Tem muito de mim, tem muito de um tudo.