Estávamos os dois cansados,
exaustos, degradados. Éramos um pó de nos mesmos, já misturados e indefinidos
após tantas declarações, denuncias, quedas e tropeços. Olhávamos-nos e não mais
nos víamos - éramos desconhecidos-invisíveis em campo de batalha, lençóis de
seda. Seu sussurro soava a grito, eu me fingia de surdo - e o era por não
compreender um olhar sequer. Éramos um campo de batalha, armas de nós mesmos.
Éramos nosso próprio fim com ultimo suspiro, último pedido, com peso escuro na visão.
O cheiro enjoa, o toque machuca, e a falta de se sentir um só se completa em ser a falta de ser algo.
Tudo me doía tanto, que a dor de
dizer vencia qualquer vontade de estar bem - de resolve o irreversível, de
sanar a separação de um só em dois. A dor paralisa. Seus olhos me paralisavam.
O toque, o cheiro, o tudo.
Mas era sábado quando você
reclamou de dor em ombro, balbuciou qualquer coisa como quem não consegue
dormir, e apesar do tom tranquilo, parecia pedir socorro. Eu queria muito te
dizer que muitas outras coisas me doíam mais do que qualquer ombro, que doíam
ainda mais profundamente. Queria falar da dor do peito esquerdo que se irradia
-como maré cheia- pelo corpo todo. Calei. Virei-me. Vi seus olhos pequenos e
profundos pedindo ajuda, eles eram cúmplices daquele tom de voz - percebi que
não conseguiria dormir com olhos tão doídos sobre mim. Me senti ainda mais
fraco. Calado e de olhos cerrados me ergui sobre suas costas, aqueci minhas
mãos, comecei a massagear os ombros, os braços, o dorso: do pescoço ao
cóccix. Mãos firmes, tentando evitar que o carinho e o se amor esvaíssem por
entre os dedos, tentando a todo custo manter uma integridade - foi quando
percebi que a sua menor dor tem o poder de se sobrepor a todas as minhas
grandes dores, que era mais fácil lidar com o inferno a lidar com seu sofrer.