quinta-feira, 20 de maio de 2021

diga em quem tu votas e eu te direi quem tu és


2021, um ano após uma catástrofe - ainda estamos nela, estamos presos nele. Utilizamos datas atuais muitas vezes no intuito de supor amadurecimento quando comparado com tempos passados. Me deparei com uma camisa com os dizeres “diga em quem tu votas e eu te direi quem tu és”, e só consigo pensar no tamanho da redução que isso torna o todo. Eu tenho tempo, eu prefiro que me diga quem és tu com muitas outras firulas. Não sou rico das paciências, mas tento. Entre dois pontos fixos existe um infinito. Entre dois pontos móveis existem muitos infinitos. O fardo do passar dos anos é viver o presente como se ele fosse presente, e tendo a ciência de que o amanhã é mais do que uma promessa - é uma certeza. E quem tem certeza de qualquer coisa que seja em 2021? Sei lá, não seria de 2020? 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

-oi, senti saudade daqui. senti saudade do que eu era quando aqui eu vivia. dentre tantas saudades, a saudade da leveza é a que mais machuca, e torna tudo ainda mais denso. é pesado. tudo é pesado. tudo me dói tanto. e fico em risos quando me lembro das queixas de outrora.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O insubstituível faz falta. Existe um vão no lugar que havia um apoio incondicional. A coisa mais linda do mundo é o amor incondicional, e foi com ele que descobri que o amor incondicional existe. Ele não tem comentários pequenos, ele não tem solicitações de pequenos ajustes. Ele é grande, enorme, e também é leve e invisível. Vez ou outra ele aparece, geralmente sob alguma demanda. Ele só é visível quando é encurralado e lhe pedem uma condição - sua existência se impõe ao negar. Foi assim que eu conheci o insubstituível, quando lhe foi pedido uma coisa pequena, mínima, despercebida, e ele se negou a se condicionar. Quando tudo tá uma zona, quando tudo tá muito doloroso, confuso, repressor: me lembro de você. Sinto saudades. Queria que todos tivessem um amor assim. Respira fundo. Seja grato.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Meu amor maior

Eu não sabia que já conhecia o amor da minha vida, e nem me lembro do dia que o conheci. Sei que éramos muito jovens e eu ainda mais jovem que ele. Sei que ele se apaixonou por mim antes mesmo de eu saber que era gente, e que gente foi ele que me tornou. O amor da minha vida tinha um jeito sorridente e tímido de levar a vida, enquanto eu tinha um jeito solto e desenrolado. Diziam que eu era difícil, que eu era duro, birrento e mandão. Ele não. Ele era um sorriso numa manhã de sol. Fomos crescendo juntos e vendo como um completava o outro, sendo completos opostos. Eu pedia para ver tv até tarde porque gostava de filme de terror, ele se escondia debaixo do cobertor e queria fazer um toque de silêncio e desligar a tv as 22:00. Ele via uma maratona de jogos de futebol e depois todos os programas de comentário esportivo, eu colocava a cabeça embaixo do travesseiro para tentar não ouvir o replay do mesmo gol centenas de vezes. Eu era de livros, ele de jogos... Nisso, fomos nos admirando e aprendendo um com o outro -enquanto achávamos que éramos opostos que não seria possível se juntar. 
Nesse processo de viver cada qual suas verdades fui percebendo que o que eu achava que era intriga, era na verdade admiração. Eu admirava sua leveza e felicidade fácil. Ele admirava meu modo determinado. Foi quando olhei pra ele e vi um velhinho, com muita sabedoria (e saúde e felicidade em demasia). Ele me olhou e perguntou: porque eu sou tão feliz? Eu mereço essa felicidade toda? Logo ele que nunca era de se questionar. Por não estar habituado com suas questões eu não soube responder. Fingi que não entendi e respondi que queria ser tão feliz quanto ele, e com essa resposta de fuga eu percebi que o invejava e que queria sentir todas aquelas coisas que ele sentia. E saí. Tinha medo de grandes assuntos e grandes dilemas. Saí sorrindo, pensando na provocação que esse senhor acabara de me fazer, e me sentindo desafiado a ser feliz. Com o passar do tempo nossos encontros eram cada vez mais esporádicos. Descaso meu que não sei administrar meu tempo, mas ele fazia de tudo para nossos caminhos se cruzarem, ele sabia o quanto era importante no meu crescimento... até que alguns anos depois eu me sentei, já cansado, numa cadeira de pracinha e logo depois ele sentou ao meu lado, me deu boa tarde, me disse o quanto o dia tava bonito e o quanto deveríamos ser gratos por um dia tão bonito. Olhei para o chão e vi que havia muito lixo espalhado pela rua, tinha um cachorro de rua esquelético e uma adolescente aos prantos  perto de umas árvores. Assustado olhei de volta para ele pronto para listar todos os problemas, mas então vi em seu rosto o reflexo do sol. O sol nunca havia sido tão lindo. Eu nunca tinha visto um dia tão lindo. Notei que era o meu amor que refletia o sol. Era meu amor emanando luz - mas ele não estava mais ali.

Obrigado por ter sido meu pai, meu irmão, meu amigo, meu filho. Obrigado por ter sido o melhor exemplo de ser humano que eu já conheci. Obrigado por me tornar uma pessoa melhor diariamente. Obrigado por não desistir de mim, por não desistir de ninguém, por lutar por todos.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

os olhos da paz

seus olhos eram a paz. não é "como se seus olhos fossem a paz". não é isso. não era representação. não era uma figura. eram a paz. essa mesma paz se tornou algo tão distante há alguns meses. as coisas não fazem mais sentido, sabe? eu não sei. eu me transformo frequentemente em pura saudade. eu ainda não entendo o que aconteceu. eu não entendo o que sempre julguei tão simples e lógico: o vazio. seus olhos, olhares, me tornam uma pessoa melhor. é uma lembrança viva em mim. não sei se quero entender. eu nego tanto isso tudo. sinto sua falta diariamente -não consigo falar sobre isso. parece que estou falando sobre o sentimento de outra pessoa. não quero conhecer essa pessoa. me afasto muito de mim desde que parei de ver seus olhos. o que está acontecendo? o medo nos faz tão covardes. eu não queria ser covarde. me tornei fraco. a fragilidade me deixa algo débil -eu sinto falta. os olhos mais lindos que já vi não estão mais próximos a mim, estão fora de meu alcance -e eu me sinto sem sentido desde então. seus olhos. seus olhos são tão lindos. me sinto oco. talvez eu seja. sua beleza me deixa tão fraco, e eu morro cada vez que percebo que nossa distância aumenta. eu estou muito morto. eu não sei.