domingo, 27 de maio de 2012

deixa, amor.

amor, deixa queimar. deixa que tudo vire cinza e pedaços mortos, que tudo vire restos, que se acabe, que tudo acabe em fumaça. Amor, deixa que queime tudo dessa pele macia, desse sorriso largo restarão os dentes no chão. deixa queimar porque cheguei a conclusão que tudo acaba em cinzas e fumaça. não vamos deixar que nós mesmos nos queimemos assim, a sós, numa cama fria e seca. não vamos morrer sozinhos aqui, na distância de uma parede, de uma mesa, de uma cadeira. não há mais motivo para fugir do fogo grande, do grande fogo. não há motivos para fingir que temos um plano no qual sobreviveremos ilesos, intactos. somos tão pouco imortais, sabemos tanto disso, não fujamos da alegria desgarrada de nos ver queimados de uma só vez, com a ampla possibilidade de renascimento. não precisamos definhar, ninguém nos orientou a fazê-lo, porque fazemos? deixa queimar, amor. deixa essa chama quente arder na nossa pele, derreter fios de cabelos, pele, gordura. deixa eu ver meus olhos explodindo de felicidade, de lembranças, de coisas. precisamos de coisas, amor. precisamos de todo o sofrimento para que seja vida isso que estamos passando. precisamos nos sentir vivos, apenas vivos. e somos ruins nisso, porque só nos sentimos bem com o que nos machuca, com o que tem um defeito intrínseco. porque nos criticamos sendo iguais. amor, deixa queimar porque já desisti de minha pele, de meus pelos, de apelos. deixa essa bateria ilusória descarregar, o trem descarrilhar, o corpo solto, leve, completamente queimado.

domingo, 20 de maio de 2012

setenta e nove anos

quando chegou aos setenta e nove anos, escreveu, minutos antes (...):
"Sinto o tempo passado inteiro na minha pele. Com o passar dos anos você deixa de sentir o tempo passando e sente apenas o tempo passado. Coisa comum entre meus colegas de sala de espera. Temos Alzheimer (e é desesperador conviver com pessoas com o estágio avançado de sua doença), uma doença estranha que destrói algo do cérebro e que vai danificando o corpo aos poucos. Acabaram de me dizer que o médico me explica isso com certa frequência, não me recordo. Sinto (apenas) o tempo passado (inteiro) na minha pele. Essa pele rugosa, como armadura. Mas eu não sei porque se espessar tanto, porque me proteger tanto. Não sei o porque dessa tentativa frustrada de me proteger da morte, essa pele que sufoca, essa morte acumulante, quero lembrar de dizer isso a Deus, ou a quem eu encontrar por aí. Dizer de uma forma leve, com um sorriso planejado e sereno, dizer que precisamos de pele lisa, com muita sensibilidade. Dizer que gostamos de sentir o mundo, e que não faz sentido deixarmos de senti-lo quando mais temos tempo e aptidão para fazê-lo. 
Com o decorrer o corpo acaba se tornando um baú -trancado, rígido, sem adornos, seco e com pés de vidro. Sim, temos pés de vidro e pele rugosa. As vésperas de aniversários passam a ser tão difíceis, os aniversários cada vez mais vazios, poucos amigos, um ou outro familiar vai ligar depois de amanhã porque alguém vai comentar e este dirá que se esqueceu, os mais jovens usaram as mesmas expressões, e muita saúde, os demais vão tentar demonstrar todo afeto que me tem em alguns poucos minutos, o mesmo que não podem, devido à rotina, dissipar em visitas e ligações esporádicas. Mas o pior é a véspera, é sentir um ano inteiro passando em um dia, uma sensação que doença nenhuma consegue me tirar, nem uma reza, nem uma novena. Peço tanto para que nas vésperas eu não fique angustiada, que eu não fique sem fome, sem vontade de levantar, com tremores, palpitações e falta de ar. É tão difícil, nesse estado de nervos, olhar para o lado e lembrar de quarenta anos acordando e dormindo com o mesmo rosto cansado ao seu lado, e que não está mais ali. Sinto falta dos gritos, das reclamações. Sinto falta até dos tapas que levava ao me comportar mal, mesmo que isso tenha me levado ao analista. Eu dizia com lágrimas nos olhos "...eu quero sair daquela casa, mas aí vem os filhos, a rotina, acabo ficando, dando uma segunda, terceira, quarta chance... queria que ele morresse, não de acidente, poderia ser ali do meu lado, só para eu me ver livre e ter certeza que não foi engano...", e hoje as lágrimas vem, vão, nem sei porque. As pessoas acham que é fácil sair de casa, diziam que eu tinha dinheiro para isso, as pessoas não sabem que nem todo mundo pode ficar só. Eu não posso ficar só. Hoje estou, e estou preferindo a dor física. Às vezes eu quero morrer, mas nem isso posso dizer para ninguém, diriam que é depressão. Às vezes quero morrer porque vejo pessoas com a minha doença não conseguirem fazer nada sozinhas, nada, nadinha. Isso me assusta: pagar alguém para ser meu corpo. Na véspera vem tudo, todas as coisas que me assustam cotidianamente se unem e ficam paradas olhando para mim. Você sabe o que é ir para qualquer lugar e ter cinco, dez, quinze vagas para sua idade? É como se fosse limitado o número de idosos de um local, e você vê que estão livres- as cinco, dez, quinze vagas. Onde estão essas pessoas? Você não gostaria de saber onde estão meus cinco, dez, quinze amigos de minha idade.
A gente sente o tempo passado, o tempo inteiro."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

-a navinha está pronta. sim, é uma nave pequena, mas cabe a gente, a gente se aperta, a gente junto nunca liga muito para essa coisa de espaço, a gente se sente confortável quando a gente se cabe. o motor está ligado, estou queimando diesel, acho que isso tudo é um tremendo desperdício, mas você insiste em me explicar as vantagens do diesel nesse motor furado. eu lembro de você me explicando toda a dinâmica do funcionamento do motor, eu estou esperando, queimando diesel. é possível que você tenha desistido do motor quente, do cheiro forte de diesel, da fumaça, do espaço. é possível. qual é seu signo mesmo? nome? idade? eu devo desligar o motor?

segunda-feira, 16 de abril de 2012

que a alma permaneça mais quente (do que suas coxas)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

olhos, mundos infinitos, buracos negros

_te ver ali parado foi como um golpe final. não sei se o golpe foi teu, se foi meu, ou se foi um golpe sem dono. Me arrancastes os pés, os nervos. Tudo foi se esvaindo aos poucos, pois podia sentir cada falta, e repentinamente, pois sem perceber fiquei sem movimento. você dizia que ia embora, me deu um beijo, ficou plantado na porta, me olhando entrar, me olhando despir, me olhando colocar uma samba-canção, me olhando deitar em soluços. continuou me olhando como se eu pudesse fazer algo sem ser visto nessa casa de vidro, plástico e rachaduras. Me viu escorrendo pelo lençol, afogado numa manta quente, que competia em temperatura com cada gota escorrida. sem pés, sem (sequer) nervos, estava eu na cama, ainda mais morto de mim, aguardando a queda de seu avião, uma notícia trágica qualquer, uma aura de ponto final. Volto a te ver ali parado, como estátua, estátua que diz que vai embora e permanece, que diz que se desintegrou e permanece íntegra. estava tudo na mais completa imobilidade. Sabe, um golpe final não tem volta, não tem possibilidade de alteração, de uma nova chance. Sabe, seus olhos são dois buracos negros, e eu estou caindo há tanto tempo que não lembro como é não cair. Sabe, você parado. Você parado, dizendo que vai embora. Sabe, você dizendo que vai embora e permanecendo. Sabe, eu sei que saiu de minha boca que eu estava indo embora. Sei que. Eu sei, que as palavras são minhas. Mas seus olhos, que outrora eram buracos negros, se transformam em planetas eternos e vazios. Os vazios que me banham e que me falam do partir. Olha, são seus olhos me dizendo que você está indo embora. Sabe, são as mãos. Mãos gordas. Mãos gordas em corpo magro. A temperatura de uma mão gorda contida num corpo magro que impede. Há um impedimento, há. Acontece. Muitas vezes acontece. E sabe-se, sem nenhum sujeito, que não é passado. O peso do passado não afunda. Não é. olha, eu tive que escrever isso rápido, você já estava chegando com seus olhos de mundos vazios. Mergulho. Tem gosto doce o seu vazio. Os vazios. sou um pedaço de livro esperando. mas não há leitura, porque não há texto, porque há mudanças diárias, diários, e dias e horas, mês. o que acontece não há de ser. o conhecimento, a rapidez. Os vazios dos seus olhos, dois mundos infinitos, meus buracos negros.