sábado, 29 de junho de 2013

Sobre minha segurança

Passaram alguns anos, o cheiro de besouro que toma a casa por completo nessa época do ano não me apavora mais, sinto apenas o conforto de estar aqui, de saber que apesar de os anos terem passado muito permanece. Me sinto seguro em meio a besouros voadores - e nunca pensei que essa sensação fosse possível. O sentido da palavra segurança passa a se modificar diariamente, e o pouco de vida que já tive me deixa bastante confuso sobre o que serei. Seria culpa de uma combinação infeliz de signo, ascendente e lua? Nunca saberei, assim como sinto que nunca estarei seguro. Imagino como seria uma vida em que não se questiona o sentido de cada palavra que lhe cause. Mais que imaginar, gostaria de vivê-la.  Minha segurança, pautada em besouros, cheiros, abraços, vazios, abre meu peito e me torna uma cefaleia pulsátil em região periorbital. Há quem pense que seja uma dorzinha de cabeça. Há quem não perceba que uma cefaleia pulsátil em região periorbital impede o enxergar. São períodos em que me sinto cego, períodos em que questiono se algum cego realmente se sente seguro. Nesses momentos, de cegueira passageira, o conforto do cheiro dos besouros se transforma em terror. Você boceja com a mão na boca, você perde um pouco o ar, o terror se torna prisão. Volta à mente, de forma clara, o questionamento do que seria se sentir seguro. Inspiro, expiro, inspiro, expiro, numa tentativa calma de expirar todas as dúvidas que me formam humano. Inspiro, inspiro, inspiro, me encho de mim e durmo.

Gostaria de seguir um caminho seguro com a alma.

domingo, 12 de maio de 2013

Xícara

me desculpe, me desculpe, mas se seu café é pouco, se falta leite, açúcar, afeto... não comece a servir minha xícara. 
realmente me desculpe, mas se você não pode transbordar, não comece a me servir. não me deixe na angústia de presenciar minha xícara pela metade, de ver o borro de café -que naturalmente fica no fundo do vaso- se depositar na minha xícara meio vazia. não se permita curvar o vaso em sua totalidade como quem busca a última gota de água do sertão. é uma curva arriscada, não consegue ver a placa do risco de acidente?
eu não vivo das pequenas quantidades, dos pequenos afetos, das pequenas emoções. nada disso me transborda, nada disso me completa. ao fim do tempo, seu vaso estará vazio, minha xícara não estará cheia, meus olhos estremecerão, ficarei magoado, você pedirá tempo para preparar mais café, mas a gente sabe que não é de bom tom misturar cafés de tempos diferentes. 
peço desculpas milhares de vezes, mas o café ficará frio. eu nunca tive a capacidade de tomar café pela metade. você argumentará que está meio cheio, já estarei andando na direção contrária quando ainda de costas -e ainda andando- sussurrarei que o amor nunca pode estar ao meio. porque é maio, meu querido. porque dói explicar o amor. um dia eu te disse que não existe definição exata para o amor porque ele não se permite ao verbo, e você saiu gritando que me amava. era como se você gritasse que não sabia amar, era como se eu não estivesse ouvindo.
quando nada parece solucionar um barulho interno devastador, ouço pingos mudos em poça d'água. meu coração palpita, evoco em minha imaginação -a possibilidade de que era um truque seu-, que havia mais café da mesma safra. sofro uma rotação de 180º (contra qualquer pensamento), meu olhar vai se erguendo do chão até a minha xícara abandonada na bancada de jacarandá, mas eram suas lágrimas que sofridamente pingavam na minha xícara. você olha para mim com uma dor de saudade. eu penso "o café está ficando aguado". apresso o passo.

domingo, 7 de abril de 2013

a vida é bonita, sabe? gosto de dizer isso assim, com lágrimas nos olhos, dedos tremendo, voz vacilante. não importa onde vá, com quem vá, como vá, há de ter uma beleza ali, um aprendizado (nem que seja o de: não volte aqui). Muitas vezes precisamos não voltar para poder ir em frente, e se, necessário for o voltar... que o faça com cores e cheiros de ir em frente. gosto muito das instabilidades que as pessoas me causam. gosto de ser causado. e preciso. com o pesar de odiar precisar de algo. preciso ser causado de tempo em tempo. ser causado é ser soprado, é ser avisado de que há vida bonita, há cinema sozinho de mãos dadas. é diferente de um tempo enorme, grande, imenso, em que você fica parado esperando o nada acontecer porque você tem tempo de sobra. o tempo de sobra me faz imóvel. dentro de todo e qualquer tempo preciso da causa, do efeito de poder com olhos marejados, pele trêmula, pêlos ouriçados, garganta seca, pulmão vazio, dizer em tom de verdade: a vida é bonita, sabe?

Palavra de Mulher


"eu e o XX estamos casados há 8 meses. ontem, quando cheguei em casa, ele estava terminando de passar aspirador na sala. conversamos sobre os nossos dias, ele se exaltou com algumas coisas e eu disse "relaxa, toma um banho, abre uma cerveja" e ele "não, eu vou lavar a louça e limpar o fogão." e se foi, bem faceiro. a cozinha ficou brilhando.

no mesmo dia, me sentei para escrever e ele perguntou se podia botar um som. botou um disco do paulinho da viola, antigo, lindo. batucávamos juntos (ele com mais habilidade, é claro).
semana passada cheguei em casa e vi mais um bukowski em cima da cabeceira dele - junto do galeano, da pornopopéia, do cortázar.
faxinando como um maníaco. ouvindo sambinha das antiga. lendo 12 livros ao mesmo tempo. parece eu, mas é ele. eu estou sempre usando as roupas do XX e roubando os livros que ele lê. de fato, pessoas casadas vão ficando parecidas!
achei demais, mas queria fazer um apelo: se eu começar a deixar o bigode crescer, favor me avisem."


Algumas belezas ultrapassam a ética e as regras vigentes em nós mesmos. Desculpe-me a falta de referência da autora.

segunda-feira, 25 de março de 2013

do pouco vazio

despercebendo tudo que acontecia naquele momento, desci correndo como quem espera encontrar soluções, flores e doces. desci com o rosto suado, cabelo bagunçado, corpo levemente sonso e despojado. descia de alma, descia pronto para tudo que não aconteceria. aqueles olhos eram profundos demais para tanta leveza. queria parar, me enrijecer, limpar o suor, deixar o cabelo menos esvoaçado e pedir desculpas pela leve flutuação em esperar soluções, flores e doces. falo como se em algum momento eu tivesse acreditado ser possível emitir qualquer som compreensível. então seus olhos me penetraram sem qualquer consideração e violentamente me tornei nu. então você usou palavras sólidas, com um tom doce e um conteúdo que previamente usávamos como ofensa. queria te dizer que aquilo não me ofendia, queria rir alto, queria responder com ironia, querer mentir descaradamente. balbuciei poucos sons guturais ao abaixar os olhos, tentando resguardar alguma parte íntegra, imaginei sua cara de vencedor -um vencedor com vergonha de ter vencido algo, arrependido por ter cruzado a linha de chegada. daí então meu destino se tornou errado, só encontraria problemas, e qualquer sim, qualquer ajuda, qualquer qualquer seria muito mal recebido. o passo se tornou rígido, doloroso, a respiração ofegante, a vontade de cair tomava cada vez mais conta de meu corpo, que pouco a pouco se tornou um estorvo. fiz o que havia programado fazer, sem encontro de soluções, flores, doces. foi então que descobri que não havia morrido no mar, pois não era doce. 

Pois saiba que quando estou gargalhando, é porque estou me divertindo,
E quando estou gargalhando, é porque estou morrendo sem conseguir pedir socorro.