terça-feira, 1 de outubro de 2019
O insubstituível faz falta. Existe um vão no lugar que havia um apoio incondicional. A coisa mais linda do mundo é o amor incondicional, e foi com ele que descobri que o amor incondicional existe. Ele não tem comentários pequenos, ele não tem solicitações de pequenos ajustes. Ele é grande, enorme, e também é leve e invisível. Vez ou outra ele aparece, geralmente sob alguma demanda. Ele só é visível quando é encurralado e lhe pedem uma condição - sua existência se impõe ao negar. Foi assim que eu conheci o insubstituível, quando lhe foi pedido uma coisa pequena, mínima, despercebida, e ele se negou a se condicionar. Quando tudo tá uma zona, quando tudo tá muito doloroso, confuso, repressor: me lembro de você. Sinto saudades. Queria que todos tivessem um amor assim. Respira fundo. Seja grato.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
Meu amor maior
Eu não sabia que já conhecia o amor da minha vida, e nem me lembro do dia que o conheci. Sei que éramos muito jovens e eu ainda mais jovem que ele. Sei que ele se apaixonou por mim antes mesmo de eu saber que era gente, e que gente foi ele que me tornou. O amor da minha vida tinha um jeito sorridente e tímido de levar a vida, enquanto eu tinha um jeito solto e desenrolado. Diziam que eu era difícil, que eu era duro, birrento e mandão. Ele não. Ele era um sorriso numa manhã de sol. Fomos crescendo juntos e vendo como um completava o outro, sendo completos opostos. Eu pedia para ver tv até tarde porque gostava de filme de terror, ele se escondia debaixo do cobertor e queria fazer um toque de silêncio e desligar a tv as 22:00. Ele via uma maratona de jogos de futebol e depois todos os programas de comentário esportivo, eu colocava a cabeça embaixo do travesseiro para tentar não ouvir o replay do mesmo gol centenas de vezes. Eu era de livros, ele de jogos... Nisso, fomos nos admirando e aprendendo um com o outro -enquanto achávamos que éramos opostos que não seria possível se juntar.
Nesse processo de viver cada qual suas verdades fui percebendo que o que eu achava que era intriga, era na verdade admiração. Eu admirava sua leveza e felicidade fácil. Ele admirava meu modo determinado. Foi quando olhei pra ele e vi um velhinho, com muita sabedoria (e saúde e felicidade em demasia). Ele me olhou e perguntou: porque eu sou tão feliz? Eu mereço essa felicidade toda? Logo ele que nunca era de se questionar. Por não estar habituado com suas questões eu não soube responder. Fingi que não entendi e respondi que queria ser tão feliz quanto ele, e com essa resposta de fuga eu percebi que o invejava e que queria sentir todas aquelas coisas que ele sentia. E saí. Tinha medo de grandes assuntos e grandes dilemas. Saí sorrindo, pensando na provocação que esse senhor acabara de me fazer, e me sentindo desafiado a ser feliz. Com o passar do tempo nossos encontros eram cada vez mais esporádicos. Descaso meu que não sei administrar meu tempo, mas ele fazia de tudo para nossos caminhos se cruzarem, ele sabia o quanto era importante no meu crescimento... até que alguns anos depois eu me sentei, já cansado, numa cadeira de pracinha e logo depois ele sentou ao meu lado, me deu boa tarde, me disse o quanto o dia tava bonito e o quanto deveríamos ser gratos por um dia tão bonito. Olhei para o chão e vi que havia muito lixo espalhado pela rua, tinha um cachorro de rua esquelético e uma adolescente aos prantos perto de umas árvores. Assustado olhei de volta para ele pronto para listar todos os problemas, mas então vi em seu rosto o reflexo do sol. O sol nunca havia sido tão lindo. Eu nunca tinha visto um dia tão lindo. Notei que era o meu amor que refletia o sol. Era meu amor emanando luz - mas ele não estava mais ali.
Obrigado por ter sido meu pai, meu irmão, meu amigo, meu filho. Obrigado por ter sido o melhor exemplo de ser humano que eu já conheci. Obrigado por me tornar uma pessoa melhor diariamente. Obrigado por não desistir de mim, por não desistir de ninguém, por lutar por todos.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
os olhos da paz
seus olhos eram a paz. não é "como se seus olhos fossem a paz". não é isso. não era representação. não era uma figura. eram a paz. essa mesma paz se tornou algo tão distante há alguns meses. as coisas não fazem mais sentido, sabe? eu não sei. eu me transformo frequentemente em pura saudade. eu ainda não entendo o que aconteceu. eu não entendo o que sempre julguei tão simples e lógico: o vazio. seus olhos, olhares, me tornam uma pessoa melhor. é uma lembrança viva em mim. não sei se quero entender. eu nego tanto isso tudo. sinto sua falta diariamente -não consigo falar sobre isso. parece que estou falando sobre o sentimento de outra pessoa. não quero conhecer essa pessoa. me afasto muito de mim desde que parei de ver seus olhos. o que está acontecendo? o medo nos faz tão covardes. eu não queria ser covarde. me tornei fraco. a fragilidade me deixa algo débil -eu sinto falta. os olhos mais lindos que já vi não estão mais próximos a mim, estão fora de meu alcance -e eu me sinto sem sentido desde então. seus olhos. seus olhos são tão lindos. me sinto oco. talvez eu seja. sua beleza me deixa tão fraco, e eu morro cada vez que percebo que nossa distância aumenta. eu estou muito morto. eu não sei.
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
reencontros
alguns reencontros são como se olhar no espelho e finalmente poder se lembrar quem você realmente é. alguns reencontros são tão leves que parecem férias de verão numa ilha deserta, viagem de lua de mel, pudim depois do almoço... em alguns reencontros você finalmente entende porque muita coisa aconteceu da forma que aconteceu, e porque tantas outras deram errado. alguns reencontros nos fazem nos sentir finalmente vivos e reais. é muito difícil se sentir real. somos pesados. alguns reencontros são simplesmente isso: necessários. alguns reencontros não passam da necessidade de lembrar como as coisas já foram boas e como elas podem voltar a sê-lo.
reencontros são apenas formas de se rever, se reentender. são possibilidades de se reinventar.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Elis
assisti Elis e lembrei de ti. as lágrimas jamais serão contidas em meu corpo, elas sempre serão bem vindas e respeitadas. chorei como há muito não choro. me derramei por inteiro em tuas lembranças. em teus gestos, em tua bondade incontida. por todas as dores que tu fingiu não ter. por tudo que não pude dizer. por tudo que sempre senti e admirei: percebi que ainda não aceitei nada que aconteceu. percebi que esse ano me atropelei por inteiro para não ter que ver tua ausência - tão sólida, tão irreal. ausência dói. parece que fui atropelado por algo que não tem nome e não tem forma. não tem pronto socorro que me acuda. não tem. teu rosto é tão lindo. dói. eu te vejo passeando por mim o tempo todo. eu te vejo em tudo de bom que faço e penso. tu é a bondade. me rasga por inteiro não te ter mais aqui por perto. o mundo se tornou um lugar tão escuro sem ti. tu era luz. tu plantou luz. de tão luz foi confundida com o sol e pouco foi glorificada. tu tornou as pessoas melhores pelo ato, pelo agir. é tudo tão fodido, que não faz o menor sentido. neguei tuas dores (nem sei porque). hoje todas elas são minhas. me vejo tentando entender o que aconteceu, me esforço muito, fico fraco - quero deitar em posição fetal e te ver de canto de olho fazendo cafuné. lembro de sangrar intensamente, sentir muita dor e medo. lembro de como tu me acalmou. lembro de como tua oração me fez curar. é tanta força. é tanta luz. é tanta! eu não sei se um dia saberei lidar com essa ausência que esvazia o mundo.
o mundo se tornou um lugar muito pior sem tua luz.
o mundo é meio treva, é meio grosseiro. o mundo é o que é.
eu te amo. serei sempre teu.
com todo meu amor,
sempre teu.
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