Marta era uma jovem senhora, não comportava nenhum mistério (aparentemente). Mas como de aparência vive o mundo, ela de fato não tinha peculiaridades. Era solteira, tinha seus 36 anos de glória e um cachorro chamado "minky", desculpem o erro: era um gato! afinal nossa moça tinha alergia a cachorros.
Desde pequena sonhou ser uma grande advogada, diferente do resto do mundo ela queria advogar e não virar uma juíza. Os seus conceitos de futuro era um tanto humanista, nunca pensou em ter filhos, mas nunca houve ninguém que pensasse no futuro com tanto zelo quanto ela. E foi pensando no futuro dos demais que ela deixou de viver...
Um dia, quando ela voltava do escritório de advocacia, me apressei e entrei com ela na sua residência. Era tudo organizado, me arrisco em dizer que era milimetricamente equilibrado, ela mesma não podia desorganizar o forro do sofá amarelo.
Fazia tempo que não via seus pais, que estavam a algumas centenas de km daquele lugar, a desculpa era sempre a falta de tempo, dizia ela que o mundo precisava muito da colaboração de todos. Ela esquecia que seus pais faziam parte do mundo que sofria, esqueceu que em 24 horas poderia fazer dois idosos ganharem vida, esqueceu de sua vida. O que ela lembrava, e jamais se esqueceu é que sentia saudades do que nunca foi, irresponsável. Um dia, mais um dia, quando ia pro trabalho passou por um cachorro e fez algo que nunca imaginou que fosse fazer: se render a um desejo. O acariciou e seu narizinho, que de tão pequeno mais parecia um botão não ficou vermelhinho como de costume e nenhum ataque de espirros espalhafatosos veio a tona, ela havia conseguido imaginar as bombas ecoando pelas ruas, mas não havia nada. Havia um sorriso de quem se rendeu ao desejo mais bobo.
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