Nem magro, nem gordo, cabelo indefinido, gostava de poucas coisas, mas o que ele sabia mesmo era do que não gostava (era a única coisa que sabia, e era uma coisa que mudava com o mudar do tempo).
Ele tinha uma meia vida, e o restante ficava para mais tarde, esperava o que não ia acontecer sentado, ficar em pé lhe causava tontura, e não era sempre que ele apreciava tal sensação. Conhecia dúzias de pessoas, ele era um estranho que se sentia comum, tinha o drama na sua cabeça, mas tinha o mundo a percorrer com seus pés descalços e por hora sujos de poeira. Quando paro e penso nas coisas que sei dele, chego a suspirar um "conheço ele tão bem", mas na verdade não se conhece quem não se compreende na existência. Na verdade não é que ele não compreendesse a sua existência, ele não entendia a existência como um todo, e a cada trinta minutos ele mudava de idéia sobre o que pensar sobre a vida. Acordava católico, com o passar da manhã perdia parte da fé e ficava cético, o ateu mais estranho dos que não conhecia, depois budista e quando ia dormir rezava com a fé de um evangélico (cego e sem reservas bancárias). Não conseguia ser mulçumano, porque o que conhecia de tal religião não era suficiente, e as demais religiões lhe atraiam, mas a proximidade de conhecimento era distante demais ainda.
Ah, ele era o antipático mais simpático, costumava acreditar nas pessoas, e o fato delas mentirem para testar a esperteza das pessoas o irritava um pouco, ele não queria fazer parte de uma experiência, mas sorria de leve.
Quanto mais sabe das coisas, se conscientiza que sabe pouco demais, mas não traçou ainda um objetivo: se vai querer saber mais a cada minuto e meio, ou se vai tentar se livrar de tanta informação. Por tudo que ele não sabe, e por tudo que muda, ele conta para as pessoas de sua instabilidade, de sua volubilidade, de sua evasão, todos ouvem com atenção, ele se sente bem por ter pessoas para ouvir o que pensa, as pessoas dizem que compreendem, lidam relativamente bem com suas mudanças de comportamento e de pensamento (principalmente de comportamento), até que o tempo passa e ele descobre que as pessoas, todas que ele conhece, não entendem de volubilidade, que não entendem de instabilidade, ele não sabe como conviver com isso, não sabe como conviver em uma sociedade na qual todos que ele conhece querem pessoas previsíveis, mesmo as pessoas que rezam às 20:30 pedindo um amor instável, pedindo o que não sabe lidar, pedindo o que não quer ter. Mas ele? Ele é instável, ele se irrita com isso por alguns momentos, depois acha que é o melhor jeito de viver, antes pensa em mudar, pensará em ser assim, pensou em ser pedaços, acaba por não definir. Sim, volúvel.