Existem seres humanos que nascem para sofrer, nada além do puro sofrimento. Luca era exatamente deste jeito, nascera exclusivamente para sofrer. No começo ninguém suspeitou de tal acontecimento futuro, sua mãe morreu no parto, durante duas semanas seus familiares usaram preto, até raiar o vermelho-brasa, o amarelo-fogo e todas as outras cores que pareciam ter vida própria, ele começou a sofrer assim, com as cores. Cresceu muito e nunca gostara de cores vivas, preferia o bege surrado, o cinza de uma tarde chuvosa, o branco das plumas de um cisne digno de balé. Diziam que ele era anormal, um louco, com todas as vogais que a palavra exige pronunciar. Foi ao psicanalista, pois não sofria do mal do daltonismo e sua visão era "próxima à perfeição", riu muito ao ouvir isso do médico que usava um óculos que parecia pesar, deveria até sentir inveja do "grande louco". No psicanalista ele se acostumou a contar seus devaneios, e acreditava que não estava falando para um psicólogo ou psiquiatra, muito menos um psicanalista, afinal não acreditava em tal profissão, mas frequentava, falava, e um dia, uma terça ensolarada, descobriu que sofria, ele chorou, não tinha cura, era alérgico à hipocrisia, pobre Luca.
(09 de fevereiro de 2009)