Um casal se encontra em um sebo, enquanto o rapaz se esforça para fingir que não reconhece a moça, esta, segurando um bilhão de lágrimas, começa a proferir pensamentos que por muito tempo foram só seus:
_Então, eu te amo, apenas isso. É o que queria ouvir? Será que era exatamente isso que queria ouvir? Eu sei que não. Você sempre preferiu quando eu dizia que não te amava, só para poder tentar me conquistar um pouco mais. Agora olho para sua expressão muda e digo que te amo porque tenho a certeza de que essa é a única maneira de fazer você ir embora (sem ter que mentir). Tudo se tornou tão previsível, tão corriqueiro... passei a amar essa estabilidade... e se agora, ou algum outro dia você resolver inovar e recomeçar a encenar um amor de feriado, como tantas outras vezes, estará tudo acabado. Você é minha antiguidade mais rara, a peça de entrada de meu museu que estranhamente pode ser tocada por qualquer visitante, exceto seu dono. Não se preocupe em tentar encontrar voz para dizer que não sabe o que me responder, você nunca soube ao certo. Ah, me parece fascinante como a distância de uma montanha para um abismo pode ser tão ínfima. De alguma maneira você estará sempre comigo, me dando força, essa foi a única parte sua que restou. Eu te redesenhei para poder amar uma pessoa íntegra e agora eu não posso te ouvir porque demorei tempo demais te moldando para permitir que você se destrua mais uma vez. E se um dia me amar escreva um poema em um papel rabiscado e jogue-o, ainda inacabado, no mar.
Depois de tudo ouvir, o rapaz que vestia uma camisa azul celeste, sem querer, deixa cair uma lágrima do olho esquerdo e dois livros de poesia de Manoel de Barros, tropeça no degrau e sai do sebo. A moça, ainda em choque, vai a procura de seu livro, agora estava pronta para "desconhecer" seu passado.