no corpo carrego peso demais, canso, e não é pano nem metal, são todas-as-coisas que se fixam em mim enquanto passo por elas, carrego-as como uma grávida que carrega seu feto, com medo de deixá-las cair, indefesas. cuido como se fossem parte de mim, porque são. na cabeça uma nuvem clara se estabelece serena, enganando o olhos que admiram uma bela neblina de inverno, enganando quem não consegue ver o que se encontra dentro ou atrás da clara-nuvem, enganando e revelando apenas fragmentos dúbios.
na alma não carrego nada, ainda não sei se é pequena demais, e nada cabe, ou se é grande, e muito cheia. minha alma paira leve, não me permito deixá-la cair, me concentro na sua leveza, em deixá-la subir, me elevando junto, me permitindo pegar delírio, sublimando ancorado em mim mesmo, regulado por astros milenares, ou melhor, regulado por nada: desregrado. alma que pega delírio não pode ser regida por regras quaisquer, sobe sem parâmetros, apenas por ser leve, ninada por brisas e ciclones.
e na lembrança eu carrego, feito chumbo leve, todas as palavras não ditas, os afagos que se quebraram no meio do caminho, os olhos que por medo não brilharam, todas as belezas que se esconderam em vazios, os gestos que pareceram não existir diante das dimensões grandiosas de um barulho ensurdecedor, um fio de cabelo que caiu, um cílio que insiste em permanecer, solto, no rosto, um abraço distante, a hesitação de todos-os-momentos que quase aconteceram.