domingo, 8 de agosto de 2010

visita

Chegou na casa com os olhos muito abertos, desejava destrinchar a família e seus segredos a partir do que contavam em silêncio. Primeiramente viu um lustre, enorme, se perdeu na delicadeza com que os cristais conduziam a luz, extasiado com a possibilidade de transformação de uma pedra inerte. Lembrou-se de seus objetivos, focou em tudo que já havia lido, conversado ou escutado da mesa ao lado sobre lustres. Fingiu, com eficiência unânime, ter concluído algo. Um dia perceberia que a beleza lhe ofuscara os pensamentos. Continuou a observar o lugar, sempre tentando evitar os raios de luz, hermeticamente planejados, hermeticamente aleatórios. Não falou com ninguém até então, as pessoas não passavam de projeções dos objetos vistos, na sua cabeça as coisas se invertiam, trocavam de lugar com uma facilidade inexplicável, e incompreensível. Encontrou um espelho e se perdeu. Não conseguia observar os detalhes do espelho, olhava fixamente e se sentia confortável em estar usando trajes adequados, seria mais fácil não ser notado assim. Se sentiu desconfortável e só, ao parar de olhar para o espelho. Não existiam pessoas sozinhas para sentar e falar sobre o frio que fazia dentro dele, era possível sentir seu estômago congelar. Sentou-se, pôs as duas mãos em concha na tentativa de aquecer a pedra de gelo que florescia ali, nele. Fechou os olhos, quando abriu, ainda cabisbaixo, viu um tapete desfeito em riscos, a princípio era um labirinto, passou a ser confusão e logo se perdeu mais uma vez, viu seu precipício alí, em retas. Ficou tonto, enjoado, via as pessoas em gargalhadas, viu todas-as-coisas na mais perfeita ordem, se colocou em seu lugar: alheio. A música não parava de repetir, pensou na possibilidade dele mesmo estar se repetindo, estava se refugiando. Sorriu para todos, levantou-se, tropeçou na mesinha roxa que dava o ar sofisticado ao ambiente, olhou fixamente para a maçaneta, achou-a tão desinteressante que tocou, apertou, torceu, se retirou do local com uma frase para ninguém "Vou ver se fechei o carro, isso sempre acontece comigo".

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