quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

pertences e definições

ainda guardo muitas coisas. guardo o costume de, na madrugada, pegar uma caneta esferográfica azul, compactor 0.7, e começar a escrever teu nome, sempre começo pelo pulso, antebraço, peito, barriga, coxas, sim, as duas, pé, boca. ainda não entendo esse costume, as coisas mudaram, as coisas estão sempre mudando, mundo muito cíclico, mundo se renova, costumes ficam. andei lendo algumas anotações feitas por estranhos e descobri que não devemos responder por coisas que nunca fizemos, ele considerava que nós nos renovávamos periodicamente, ele gostava muito de química, biologia, entendia que todas as células que tenho são fonte de renovação, novidade, átomos novos, vindos de outros seres que não estão mais presentes. sobra-nos a alma. você sabe de minha paixão pela água, é inegável que a alma escorre, ela pesa, ela não é sólida, ela só pode escorrer, e escorre sobre seus nomes em centenas de centímetros de pele azulada. minha alma escorre. guardo também alguns pedaços seus, entre dentes, tenho um punhado de motivos para me sentir como um velho baú de coisas-usadas. e eu, mesmo me policiando, mesmo fugindo das águas, mesmo com medo delas tocarem minha pele apagando cada símbolo azul, mesmo e sempre, você é rio.

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