sexta-feira, 7 de outubro de 2011

umdia

A maioria das coisas não lhe apareciam cruas. Muito condimento era quase um requisito para se aproximar de seu campo de visão, ou para se tornar visível. Seus olhos percorriam na busca do quase-nada, do cinza.
Todas as coisas lhe eram estranhas, sem sentido. acostumou-se a percorrer a história das histórias antes de terminadas, acostumou-se a ver que no fim não há uma resolução, há vazio, um enorme vazio. Repensou posicionamentos, percebeu que não havia o que fazer. Lhe restou o silêncio, propagar o vazio não faria muito sentido, se afogou no silêncio.
Não sabia mais conversar. A fala se tornou um tormento, passou a evitar palavras, evitar rostos, evitar sorrisos, se evitar. A impossibilidade das ocasionalidades tornou o silêncio um ídolo. O mundo é duro. O mundo é muito duro.
As palavras passaram a fluir pelos dedos, apenas pelos dedos, porque sentia que podia cultivar o silêncio assim, podia se esvaziar de alguns pesos, podia buscar o mínimo de leveza para caminhar. Logo o cambalear se tornou passos firmes, firmes de não-se-sabe-porquê, visto que era completo de vazio.